quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

MEDIUNIDADE DE RESPONSA

Minha tia Lita era, além de católica praticante, chegada nos balacobacos do além. Falava mal de macumba, mas na hora do pega pra capar recorria a praticamente todo o estafe da Aruanda. Num desses dias em que estava com o misticismo aflorado, a velha virou-se para meu avô e declarou-se impressionada com a mediunidade do Manoelzinho Mota.O vô, evidentemente, achou que era cascata e redarguiu com delicadeza jagunça; desde quando o cachaça do Motta é médium de alguma coisa? Vou averiguar que merda é essa.

O melhor lugar para checar a informação era o bazar de artigos religiosos O Cantinho da Padilha, na entrada da Dias da Cruz, no Méier. Devo dizer, antes de retomar o fio da meada, que o referido estabelecimento era conhecido no mundo inteiro por possuir na porta uma estátua de Seu Tranca Rua com chifres, rabo, capa, tridente e o fogo dos infernos incluídos. A escultura do Seu Tranca era mais alta que a do Padre Cícero, em Juazeiro do Norte, e só um pouquinho mais baixa que o monumento ao Cristo Redentor e a sepultura do Barão do Rio Branco, no cemitério do Caju.

Meu velho sondou a rapaziada da curimba e soube, de fato, que o Mota tinha deixado aflorar recentemente o dom de incorporar todo tipo de espíritos. A informação era impressionante; parece que cinquenta e tantas entidades tinham usado o homem como aparelho em pouco menos de um mês e meio.

A notícia que deixou meu avô basbaque, entretanto, foi dada pelo Nilton. O Motta, além de incorporar espíritos, estava recebendo os profetas de pedra sabão do Aleijadinho.

Olha, Seu Luiz, ele não tem incorporado só espíritos não. Parece que anda recebendo também os profetas do Aleijadinho. As estátuas? Ele recebeu as estátuas de pedra sabão? Isso. Já recebeu todas elas. E o transe costuma durar um tempão. Foi assim que o dom se manifestou pela primeira vez. Não fode. É sério. Vou contar pro senhor como foi.

 As incorporações começaram num dia em que a Alcione, senhora do Manoelzinho, cometeu tremenda injustiça com o cachaça. Uma dessas línguas ferinas que não podem ver a felicidade de ninguém bateu para a Alcione que o Mota estava sendo visto com certa frequência numa casa de amores urgentes - vulgarmente conhecida pelos sem poesia como puteiro - na esquina da Rua das Marrecas com a Evaristo da Veiga, no Centro.

Não sabia, a Alcione, que o Manoelzinho - um faz tudo de mãos cheias - estava apenas cuidando da manutenção da parte elétrica do lupanar, e só não a deixou inteirada do fato porque, sempre romântico, pretendia fazer uma surpresa pra patroa e aplicar os vencimentos obtidos no serviço em utensílios para o lar; mais especificamente na aquisição de uma geladeira nova. Ademais, o Mota achou que o lugar era um pensionato para moças oriundas do interior.

A Alcione - com o apoio de quatro falsas amigas que não viam um báculo episcopal há tempos - seguiu o Mota em uma tarde de meio de semana e, ao vê-lo adentrar o recinto suspeito, preparou-se para uma invasão. O estratagema era similar ao utilizado pela swat norte-americana para resgatar reféns sequestrados em embaixadas no Oriente Médio.

No que entrou de forma arrasadora na casa, no estilo blitzkrieg, Alcione encontrou o marido quase pelado, portando apenas um discreto roupão azul bebê. Teve um piripaque, começou a quebrar tudo e, na hora em que retirou da sacola da Imperatriz das Sedas a faca de cozinha com que planejara capar o cônjuge, foi interrompida por uma senhora com fortíssimo sotaque latino, que mais parecia um mistura da Índia Bartira com o Ted Boy Marino :






- Calma, mi senhora. Jo conheço isso. Este hombre está incorporado !
A cena era, de fato, impressionante. O Mota estava absolutamente paralisado, queixo pro alto e olhos cerrados. Para quem conhece, era mesmo uma manifestação espiritual, não havia a menor dúvida.
Dona Alcione, desconfiadíssima, ameaçou continuar o chilique, mas se tinha coisa que respeitava era isso de mexer com as entidades. E era evidente demais que ali, paralisado, não estava o Manoelzinho. Até as falsas amigas - surucucus da pior espécie - admitiram isso. Não era mesmo ele.
Hora e meia depois, o Mota continuava estático. Enquanto isso, a dona do pedaço, uma senhora de seus sessenta e poucos anos conhecida pela alcunha de Consuelo, la Índia Paraguaia, esclareceu tudo e acalmou dona Alcione com dois copinhos d’ água com açúcar. No fim das contas a mulher se convenceu do sacrifício que o Manoelzinho estava fazendo para comprar a geladeira de última geração que ela queria tanto. A paraguaia disse ainda que o roupão azul fora um pedido expresso da entidade, assim que o Mota entrou em transe.

La Índia Paraguaia - segundo ela mesma, com o assentimento de suas funcionárias, sensitiva desde os doze anos - e dona Alcione - com um misto de temor e respeito - aproximaram-se do Manoelzinho e tentaram estabelecer um diálogo. Consuelo indagou a suposta entidade:

- Quien és el senhor ?

- Profeta Jeremias

- Señor Jeremias, o senhor teve la vida terrena ?

- Não. Não tá vendo que eu sou um profeta.

- De la bíblia ?

- De Minas Gerais. Do Aleijadinho, uai. Estou parado porque sou de pedra sabão. Aliás, estátua não fala. Não falo mais nada.

E continuou rigorosamente paralisado.

Na mesma hora dona Alcione entendeu tudo. Ficou comovida. Lembrou-se das estátuas dos profetas que o casal conhecera numa excursão às cidades históricas mineiras - prêmio cobiçadíssimo que o Manoelzinho arrebatara numa rifa, organizada por ele mesmo, para auxiliar a reconstrução da casa paroquial da igreja do Sagrado Coração de Maria.

Após algum tempo, passado o transe, o Mota não se lembrava de rigorosamente nada. Voltou para casa com dona Alcione, que fez apenas uma admoestação ao amado. Nhonhô (era esse o carinhoso tratamento na intimidade), você não podia escolher um outro lugar para realizar esses serviços elétricos? Nhanhá, foi o sonho da geladeira. Eu queria te fazer um agrado. Nem reparei, com toda a sinceridade, a natureza do estabelecimento. Achei que era mesmo um pensionato.

E assim começou a impressionante trajetória sobrenatural do Manoelzinho, que deu pra incorporar uma plêiade de entidades, estátuas, árvores e animais em momentos os mais delicados. Meu avô, até então homem de pouca fé, acreditou piamente na história e começou a cogitar de também dar passagem pr’uma rapaziada lá de cima. É que o velho estava fazendo um bico discretíssimo, como bombeiro hidráulico, numa pensão de normalistas na Sacadura Cabral, cheia das boas energias.

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