quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

NATAL DE BRASILIDADES

Chega dezembro e eu não me aprumo nas conveniências. Insisto em desejar um Natal de brasilidades; celebrado entre presépios precários, pastoris e lapinhas, saias rendadas das moças dos cordões, fandangos, calembas, marujadas, cheganças e folias. Tempo alumbrado de alegrias imorredouras, aquelas que desaguam nos fuzuês de janeiro e homenageiam - entre cachaças, cafés fortes e bolos de fubá - os Santos Reis.

Quem nasceu no meu Natal foi o Cristo das arrelias; aquele que se sentiria mais a vontade em um botequim de esquina do que nos salões e altares suntuosos. Um Cristo que joga na várzea, bebe nos subúrbios, rala nas fábricas, namora as morenas e, quando o sol vai quebrando lá pro fim do mundo pra noite chegar, descansa feito João Valentão e adormece como brasileirinho comum.


E que se dane esse mundo globalizado e desencantado, mundo feio da moléstia, que uniformiza padrões culturais e inibe a produção de novos conhecimentos e técnicas. Um mundo que não nos é pertencimento e não nos afaga em nossas precisões, as mais humanas, de apaziguar a alma.

No Brasil de meus sonhos imorredouros o Natal é tempo de cajus, cachaças, jabuticabas e castanhas. Tempo das pastorinhas rodarem saias azuis e encarnadas; dos marujos erguerem remos e espadas; dos foliões desfraldarem estandartes e afinarem violas de fita; dos gajeiros verificarem mastros, vergas e velas.

O Brasil é minha aldeia, minha alegria, minha dor e meu pertencimento. Meu país miudinho, meu modo amoroso de delirar sorrindo a subversão das mazelas e, entre as intangíveis belezas dos cantos e danças de sua gente, sonhar as alforrias do mundo.

Enraizado na terra de meus pais e do meu filho, não sei fazer ou sentir de formas diferentes nem aprendi de outras maneiras as estripulias formosas de inventar a vida.

Boas festas!



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