sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

UM MÉDIUM NO CARNAVAL

É de conhecimento público que o Manoelzinho Motta era dotado de impressionante mediunidade. A  primeira manifestação do sobrenatural aconteceu quando Manoelzinho recebeu um profeta de pedra sabão do Aleijadinho - Jeremias - após ser flagrado por sua senhora, Dona Alcione, em trajes sumários no lupanar de Consuelo, "La Índia" Paraguaia.

Acontece que a mediunidade do cabra, depois da primeira manifestação, não parou mais. Há relatos de que Manoelzinho virou cavalo de mais de cinquenta entidades, de todos os tipos e linhas. O que mais impressiona, do ponto de vista estritamente espiritual, é entender como as entidades chegavam no Motta em momentos decisivos.

Houve uma ocasião em que Dona Alcione convenceu o Manoelzinho a passar o carnaval fora do Rio de Janeiro. O destino traçado era Araruama, na modesta casinha de praia alugada  por Dona Saquarema Marta, que gentilmente convidou as amigas do Lins de Vasconcelos e adjacências para curtir um solzinho, tomar umas cervejinhas e fazer torneios de buraco e sueca durante o tríduo momesco.

Há que se ressaltar, em nome da veracidade do relato, que a casa de praia não era exatamente próxima à orla de Araruama. Ficava num loteamento um pouco distante - coisa de uns vinte minutos caminhando sem pressa. Um dos argumentos que Dona Alcione usou para convencer o Manoelzinho foi esse; eles poderiam passear na beira da lagoa, dar um bom mergulho numa praia mansa e levar um isopor com uns comes e bebes para economizar.

O Manoelzinho, que nunca discordava da Dona Alcione, aceitou o convite e se mostrou o mais entusiasmado com a programação. Não aguento mais essa confusão do carnaval, argumentou com a pinta de chefe de família exemplar.

Meu avô não entendeu picas. O Manoelzinho era folião lendário, sócio remido do Bola Preta, neto de um benemérito dos Tenetes do Diabo, compadre do Tião Maria Carpinteiro -o fundador do Bafo da Onça- , ativo participante do Berro da Paulistinha e organizador, ao lado do zagueiro Moisés Xerife, do bloco das piranhas de Madureira. Como se não bastasse, fechava a quarta-feira de cinzas brigando com a polícia durante o desfile do Chave de Ouro.

O casamento, porém, exigia alguns sacrifícios, disse o Motta. Uma emocionada Dona Alcione ouviu o marido argumentar a favor da ideia de que numa relação de companheirismo era necessário abrir mão de algumas coisas em nome de outras mais importantes. Em tom de discurso parlamentar, Manoelzinho encerrou o assunto em grande estilo e levou a mulher às lagrimas:

- Alcione significa mais para mim do que qualquer carnaval. É a minha quinta mulher, mas meu primeiro amor. Parto feliz para aquele que será o melhor carnaval da minha vida!

Acontece que é difícil controlar algumas espiritualidades mais fortes. Na hora da partida, com as malas devidamente preparadas, o Caladril, o Vic Vaporubi , a Minâncora, O sal de frutas Eno e o Colobiasol formando a linha de frente da sacolinha de remédios, o Manoelzinho deu três murros fortes no peito, um brado de levantar defunto e caiu de joelhos na clássica posição de um índio preparado para flechar alguém.

O Nilton, que era uma espécie de cambono pra toda obra do Manoelzinho e também estava na trupe da folia em Araruama, imediatamente gritou ao ver a cena:

- Okê, caboclo!

Assim que o caboclo do Manoelzinho chegou, com urros impactantes de bugre, a Dona Alcione - que nutria pela mediunidade do marido uma mistura de respeito e temor - estendeu as mãos espalmadas à frente e abaixou levemente a cabeça em forma de reverência. Todos os que assistiam a cena fizeram o mesmo gesto. 

A entidade indígena continuou gritando por uns cinco minutos. Nesse espaço de tempo a fila de gente para tomar passes se formou e os palpites sobre que caboclo era aquele começaram. A lista de possibilidades era enorme: Seu Tupiara, Seu Tupaíba, Seu Aimoré, Caboclo Roxo, Seu Sete Flechas, Seu Cachoeirinha, Seu Tupinambá, Caboclo Lírio, Seu Junco Verde, Seu Rompe Mato, Seu Peri, Caboclo Sultão das Matas, Seu Mata Virgem, Seu Sete Pedreiras... Houve quem apostasse até num boiadeiro, apesar da pinta de bugre com que a entidade se apresentou.

O Nilton, cumprindo com a maior seriedade as funções de cambono, aproximou-se do índio e fez a clássica pergunta:

- Qual é a sua graça, meu pai? O senhor quer dizer o seu nome aos filhos de Zâmbi? Quer riscar seu ponto com a pemba de fé?

O caboclo murmurou alguma coisa incompreensível. O Nilton se aproximou e o índio cochichou algo ao cambono, que anunciou ao povo:

- Ele disse que se chama Seu Cacique de Ramos.

Meu avô retrucou na lata, com a habitual elegância da gente de Guararapes :

- Não sacaneia, Nilton. Seu Cacique de Ramos? Não fode que isso nunca foi caboclo nem aqui nem na casa do caralho.

Na mesma hora o índio se ofendeu, deu um berro enfurecido, começou rodopiar feito doido e deu flechadas imaginárias em todo mundo, com cara de puto dentro da tanga. Alguém sugeriu cantar um ponto pra acalmar a entidade. Mas qual? Uma voz desconhecida mandou de prima: Sim, é o Seu Cacique de Ramos/ Planta onde em todos os ramos/ Cantam os passarinhos da manhã... O caboclo gostou e ficou mansinho.

Dona Alcione, nessa altura do campeonato, só queria que o índio fosse oló para retomar os planos do carnaval em Araruama. O bugre, então, pediu silêncio e anunciou:

- Caboclo só vai deixar cavalo na quarta-feira de cinzas. Num sobe antes, que caboclo vai salvar seus filho de Aruanda na fé de Zâmbi. Caboclo veio traze axé de pemba no carnaval.

- Não faz isso, meu pai. Seu cavalo tem que viajar. Retrucou o cambono.

Seu Cacique de Ramos não quis conversa. Armou uma beiçola enfurecida, enrugou a testa, cruzou os braços e balançou a cabeça em forma de negação. E arrematou:

- Mulé de cavalo vai, que caboclo não quer ver mulé triste. Caboclo fica com cambono nas encruzas. Caboclo vai fazê trabalho forte, vai riscá ponto em mil e duzentas esquinas e depois vai embora. Ordem de Zâmbi. E caboclo quer cocar e tanga!

Dona Alcione fez de tudo para demover a entidade. Chorou, ameaçou se separar do cavalo, duvidou da mediunidade do marido, se arrependeu da dúvida, pediu desculpas ao Seu Cacique, acabou tomando passe e o escambau. Ficou até comovida quando a entidade disse algo como meu cavalo ama muito mizifia e acabou partindo para Araruama com a turma do Lins. O Nilton prometeu cambonar Seu Cacique de Ramos enquanto ele estivesse na terra. Meu avô, muito sério, disse também que ia comprometer o próprio carnaval para ser o cambono assistente.

Do jeito que Seu Cacique veio, ficou. Ficou e cumpriu a promessa - durante os dias de carnaval trabalhou duro, percorreu mil e duzentas esquinas com a pemba de fé - de cocar e tanga em vermelho, preto e branco - bebeu marafo e cerveja na cuia da jurema, comeu feijoada para louvar Seu Ogum Beira Mar, fumou charuto e bateu o recorde de passes nas filhas de pemba em toda a história da Aruanda.

Seu Cacique de Ramos foi oló na quarta feira de cinzas, depois de cumprir com êxito sua missão de paz na terra.



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