quarta-feira, 29 de maio de 2013

COMPROMISSO CIVILIZATÓRIO

Salve o povo que bateu tambor em fundo de quintal, jogou capoeira, fez a sua fé no bicho, botou o bloco na rua, a cadeira na calçada, o despacho na esquina, a oferenda na mata, a bola na rede e o mel de Oxum na cachoeira - já que sem um chamego acolhedor ninguém vive direito. Excluído dos salões do poder, inventou o ano novo na praia, zuelando atabaques em louvor a Iemanjá, Janaína, Yara e Kianda. Colocou na Virgem da Conceição e na Senhora dos Navegantes os seios fartos de deusa africana.

 Salve o povo que inventou a cidade [e a cidadania] que lhe foi covardemente negada e criou esse modo de ser que atropela convenções, confunde, seduz, agride e comove. Foi a maneira que encontrou, nos meandros do legal e do ilegal, ao longo de sua história, para subverter a escuridão dos tumbeiros, a caça aos índios tamoios e a ferida aberta pelos trezentos anos de chibata.

Quem bateu tambor na fresta, camará, criou a subversão pela festa.

Qualquer debate que ignore isso é provisório, equivocado e, como sempre, excludente. A leitura meramente institucional ou criminal de um processo que, como qualquer outro, é histórico e cultural, empobrece a discussão, estimula o erro e aponta soluções imediatistas que não se sustentam em um prazo mais longo.

Por isso firmo, como quem risca a pemba na curimba, que continuarei, às margens do rio Maracanã e nas bleuras do Bode Cheiroso, botequim carioca, a bradar louvores pela civilização peculiar que João Candido, Zé Pelintra, Pixinguinha, Paulo da Portela, Cunhambebe, Cartola, Noel Rosa, Bide, o Caboclo das Sete Encruzilhadas, Tia Ciata, Meia Noite, Madame Satã, Lima Barreto, Paula Brito, Marques Rebelo, Manduca da Praia, Silas, Anescar, Dona Fia, Fio Maravilha, Leônidas da Silva, Di Cavalcanti, os judeus da Praça Onze, a pomba gira cigana, a escrava Anastácia, o Cristo de Porto das Caixas, o Zé das Couves, o vendedor de mate, o apontador do bicho, o professor, o aluno, o gari, os líderes anarquistas da greve de 1919, a Banda do Corpo de Bombeiros, a torcida do Flamengo, o pó-de-arroz, a cachorrada, a nau do Almirante, o Bafo da Onça, o Cacique de Ramos, o Domingo de Ramos, a festa da Penha e a cerveja criaram nesse extremo ocidente. Com baixaria na sétima corda.

Sem mais, consagro aos meus o compromisso.