sábado, 1 de junho de 2013

HISTÓRIAS MIUDINHAS

E sempre há quem me pergunte sobre as histórias que conto na História que faço, ofício que abracei, onde não cabem grandes batalhas, feitos extraordinários, líderes políticos, gênios da humanidade, efemérides da pátria e similares. Já respondi isso algumas vezes, mas não me furto de explicar novamente.
 
Acontece que eu não me sinto confortável nos jantares requintados, dentro de ternos bem cortados, nos salões da academia ou nos templos suntuosos. Como diz um velho ponto de encantaria, antigo pácas, para chamar os boiadeiros que moram nos ventos, "uma é maior, outra é menor, a miudinha é a que nos alumeia / pedrinha miudinha de Aruanda êh! (...)". Eu sou maravilhado pelas pedrinhas miudinhas, nelas me vejo e delas faço meu pertencimento.
 
Me interessam foliões anônimos, bêbados líricos, jogadores de futebol de várzea, clubes pequenos, putas velhas, caminhoneiros, retirantes, devotos, iaôs, ogãs, ajuremados, feirantes, motoristas, capoeiras, jongueiros, pretos velhos, violeiros, cordelistas, mestres de marujada, moças do Cordão Encarnado, meninos descalços, goleiros frangueiros e romances de subúrbio, embalados ao som de uma velha marcha-rancho, triste de marré-de-si, que ninguém mais canta.
 
É pela aproximação amorosa, pelo ato de acariciar com devoção sagrada - amor, eu diria - as pedrinhas miúdas, que me alumeio no mundo. Os olhos brasileiros são os únicos que tenho para mirar os dias. É com eles que eu busco conhecer e, mais do que isso, me reconhecer, na aldeia dos meus pais e do meu filho - terra das alegrias na fresta, das canções de gentilezas e dos fuzuês onde, amiúde, não se imaginaria, de tão escassa, a vida.
 
O resto são as coisas e pessoas poderosas - inimigas dos rios e das ruas - e suas irrelevâncias.