quarta-feira, 24 de julho de 2013

FODA-SE O FONDUE

O inverno, dentre outras coisas, traz consigo uma turma de sofisticados que acham uma beleza beber um vinhozinho, degustar um fondue, curtir uma lareira. Quando ouço esse tipo de coisa, tenho ganas de sacar a arma que não possuo e bradar feito um Caxias na Guerra do Paraguai: Foda-se o fondue!
 
Declarei alhures que me impressiona o verdadeiro ritual em que se transformou o simples ato de beber vinho em um restaurante. No inverno, então, o babado é forte.
 
O garçom serve um mísero gole e aguarda, com cara de tacho, que o cliente experimente o tinto, avalie a qualidade da safra, verifique a harmonização com o cardápio de fondues, balance a cabeça e autorize, vinte minutos depois, que a bebida seja servida.
 
Há também os especialistas em tecer considerações – aos berros - sobre a psicologia e os aspectos emocionais da bebida. Sim, é exatamente isso. Os vinhos são analisados com rigores freudianos. O camarada toma uma taça, faz pose de quem limpa bosta de galinha com colher de prata e arrisca uma análise das características emocionais da bebida:
 
- É um vinho que se mostra, ao primeiro gole, um tanto tímido. Aos poucos, porém, vai ganhando um toque de agressividade que o equipara aos melhores rascantes. Honra a tradição e tem personalidade. Harmoniza bem com fondue de carnes vermelhas.
 
O outro, sem perder a pose, faz cara de galã do cinema mudo e manda brasa:
 
 - O vinho padece de um acanhamento excessivo. Poderia ser um pouco mais arrojado, sem perder a sensibilidade. Acho que harmoniza com fondue de carne de vitela ao molho de queijo de búfala desmamada marajoara.
 
O terceiro resolve entrar de sola:
 
- As características do mosto da uva atribuem um toque de excentricidade à bebida. É, todavia, um vinho corajoso. Eu diria que tem caráter. É isso; eis um vinho de caráter. Harmoniza bem com fondue de escama de peixe espada ao molho de tamaras flâmbadas no conhaque.
 
O quarto dá o tiro de misericórdia:
 
 
 - Talvez falte certa ousadia. Mas é, sem dúvidas, um vinho que tem alma e notas de madeira de demolição. Harmoniza com a minha própria personalidade. Esse vinho, esse frio, esse fondue, sou eu.
 
Quando ouço essas barbaridades, pergunto aos meus botões velhos de guerra: Como pode uma bebida ser tímida, agressiva, acanhada, arrojada, sensível, excêntrica, corajosa, de caráter, ousada e possuir alma?
 
As mesmas malas de plantão estão começando a invadir o reino das cervejas. Nada contra conhecer e beber bem. O siricotico público e as divagações existenciais típicas de quem não come ninguém é que incomodam.
 
A acreditar nessas avaliações, qualquer bebida é um ser humano mais complexo do que eu. Não me surpreenderei se um dia souber que algum médium incorporou uma garrafa de vinho ou uma cerveja frutada do Cazaquistão em um centro de mesa branca e saiu dando consultas. É o caminho natural. Só não contem comigo para bater cabeça para as entidades.

segunda-feira, 1 de julho de 2013

DONA MUNDICA E EU


 
Essa foto, que muito me comove, foi tirada quando, aos dois anos de idade, fiz meus primeiros ritos de consagração no Xambá (o candomblé do Recife) de Mãe Deda, que, por sua vez, foi iniciada na casa de Mãe Zefa, no candomblé da Água Fria, uma das casas que surgiram a partir da matriz de Pai Adão. Estou no colo de dona Raimunda de Deus Leal, a Mundica, paraense versada nos ritos de pajelança e encantaria de jurema.

Esse é meu pertencimento, mora em mim. Minha infância foi assombrada pelo rufar dos tambores brasileiros e pelo alumbramento com os caboclos de pena e os marujos e boiadeiros da minha macaia querida. Quem viu, viu - e sabe do que eu falo.

É por isso, pelo meu encanto por Mariana, bela turca, pelo temor amoroso ao caboclo Japetequara, veterano bugre do Humaitá encantado no tronco da sucupira velha, pela reverência aos que correram gira pelo norte, que me emociono com esse Brasil afro-ameríndio, civilizado pelos tambores de seu povo. Amor bonito e dedicado, feito o cocar de Sete Flechas e o diadema da sucuri no limiar das luas.

Dona Mundica me civilizou de alforrias.