segunda-feira, 26 de agosto de 2013

GERALDO ASSOVIADOR, PASSARINHO DO BRASIL


 Uma das coisas que mais me fascinam no Brasil - e que desconfio estar sendo solapada pela supremacia desencantada do futebol-empresa - é a impressionante capacidade que o povo brasileiro teve de se apropriar do jogo europeu, o tal do violento esporte bretão, e lidar com o mesmo não como simulacro, mas como reinvenção. Esse talvez seja o traço distintivo mais importante de um certo modo de ser brasileiro; a capacidade de apropriação de complexos culturais estranhos e o poder de os redefinir como elementos originais. Coisas nossas, como disse o menino Noel Rosa.

Não consigo pensar, em suma, o Brasil sem refletir sobre o futebol e a criação de um modo brasileiro de jogar bola completamente diferente do jogo inventado pelos britânicos. Isso vale para a música, a dança, a culinária, as formas de amar, sofrer, chorar, enterrar os mortos e celebrar a vida. Amamos, dançamos, morremos, choramos, celebramos, comemos e tomamos cachaça, enfim, da mesma forma como gostamos, um dia, de jogar bola.

Digo isso e penso, imediatamente, na figura maior de um craque que, infelizmente, não tive a oportunidade de ver nos gramados. Falo de Geraldo Assoviador, meio-campista do Flamengo de meados da década de 1970. Eu era bem menino, doido pela bola, e ouvia impressionado meu avô contar sobre uma mania que Geraldo tinha durante as partidas, a de assoviar enquanto realizava as jogadas mais inusitadas em campo.

Esse hábito de jogar assoviando deu a Geraldo a fama de irresponsável, irreverente, descompromissado, chupa-sangue e outras baboseiras do gênero. Queriam que o neguinho Geraldo, mineiro de Barão de Cocais, se comportasse como um respeitável centro-médio europeu, de cenho franzido e olhar de touro brabo, uma espécie de candidato a meia direita da seleção da Escócia. Mas Geraldo era brasileiro.

Não percebiam, os senhores críticos, que Geraldo jogava bola com a mesma naturalidade com que cruzava uma esquina, comia um tutu com torresmo ou tomava uma abrideira para chamar o apetite. Geraldo jogava como vivia - ou vivia como jogava, sei lá. Já cansei de sonhar com uma cena ( será que ocorreu?) que é a seguinte: durante um clássico no Maracanã, estádio lotado, uma pipa cai no meio do campo; Geraldo captura, com jeito moleque, o papagaio e começa a empiná-lo, enquanto dribla os adversários e assovia em direção ao gol.

Lembro-me, impressionadíssimo, quando na tarde de 26 de agosto de 1976 recebi a notícia de que Geraldo, o craque que assoviava, tinha acabado de morrer, aos 22 anos de idade, em consequência de uma parada cardíaca sofrida durante uma operação de amígdalas. Quero crer que aquela foi a primeira notícia de morte que recebi, muito menino ainda, na minha vida. Nunca mais esqueci. Meu avô, chorando copiosamente, repetia apenas:

- Cracaço! cracaço! Que pena. Você, que gosta tanto de futebol, não viu esse garoto jogar.

Muito tempo depois disso, eu estava no terreiro de minha avó para participar de um xirê em homenagem a meu pai Ogum, o orixá dos metais e da guerra. Eu tocava o lumpi, um dos atabaques sagrados. Durante a festança, com o coro comendo solto,  Exu tomou o corpo de um yaô para participar da alegria de Ogum, seu dileto irmão. Imediatamente, para se fazer reconhecido na terra, Exu gingou como exímio capoeirista e deu o seu ilá - o som que o orixá emite quando sai do Orum, o país do mistério, e vem ao Ayê , o nosso mundo, para comungar com os homens.

O ilá de Exu, meus camaradas, era um assovio longo e afinado, como quem silva para chamar o vento e enfeitiçar o mundo com a precisão do passe.

Quem disse que eu não vi Geraldo em campo?



sexta-feira, 2 de agosto de 2013

A METAFÍSICA DO FRANGO



Albert Camus disse certa vez que nada o ensinou mais na vida do que a experiência de ter sido goleiro. Arrematou a reflexão com célebre sentença: o que eu finalmente mais sei sobre a moral e as obrigações do homem, devo ao futebol. Vladimir Nabokov, por sua vez,  definiu o arqueiro como a águia solitária, o homem misterioso, o último defensor.

O grande Gilmar dos Santos Neves, goleiro do escrete canarinho campeão das copas do mundo de 1958 e 1962, considerava que um dos atributos para a formação de um bom goleiro era tomar pelo menos um frango inacreditável, de deixar as penosas soltas no ar por um bom tempo.

Marcos Carneiro de Mendonça, o fitinha roxa, que defendeu o Fluminense e foi o primeiro arqueiro da seleção brasileira - campeão da Copa Roca de 1914 e dos Sul-Americanos de 1919 e 1922 - se gabou durante anos de nunca ter falhado. Um dia, feito filósofo cartesiano na grande área do improvável, experimentou o frango.

Marcos acreditava numa tal de teoria da cobertura dos ângulos, receita infalível para evitar gols. Com toda a teoria a lhe garantir a segurança debaixo da baliza, foi traído pela soberba em um jogo entre o Fluminense e o  Vila Isabel. Em certa altura da peleja, que ia morna, o zagueiro Chico Netto atrasou a bola; o keeper se abaixou desatento e deixou a criança passar por entre os dedos. Foi o gol que deu a vitória ao Vila e impediu o tricolor de ganhar o título de 1918 invicto.

Waldir Peres tomou um frango de tragédia grega na Copa do Mundo de 1982, na vitória do Brasil contra a União Soviética. Um atacante soviético arriscou um chute da intermediária. Peteleco inofensivo. Waldir preparou-se para a defesa com a confiança de um jovem operador do mercado financeiro. Se esqueceu apenas da bola, que passou caprichosa, feito a mulher faceira e inatingível, ao lado do seu corpo. Mais do que um frango, uma granja inteira.

E o que dizer de Moacir Barbosa, que morreu como o homem mais injustiçado ddo Brasil? Barbosa, o gigante, está na  história como o  frangueiro do frango que nem sabemos se frango foi. Condenado à pena de vida, viu o mundo ignorar suas defesas milagrosas e lembrar apenas do gol de duzentos mil silêncios.

Pois eu digo que o frango é  a redenção do futebol e a metáfora mais poderosa das coisas da vida. É a antítese do eu sou foda, que tantos boleiros andam a vociferar na comemoração de um gol. É a mais acabada demonstração de que o homem pode falhar sob o peso desgastante da batalha.

O frango é  a prova de que debaixo das traves não está a máquina, mas o homem humano, aquele da travessia, que não sabe bem se os deuses e os diabos ouviram seu chamado solitário na noite grande. O sertão, lugar de todos os desafios, é a  pequena área.

É ele - tragédia do goleiro - a mais bela demonstração estética da fraqueza humana. Certos frangaços deveriam estar expostos em fotos, vídeos e pinturas; nos museus, praças e ruas, a nos lembrar: somos falíveis, camaradas. Pedagogia de bola e gol.

Memento mori - lembra-te que és mortal. A saudação entre os trapistas cristãos deveria ser o mote maior do grande goleiro. Todo Marcos Carneiro de Mendonça, monumento ao homem infalível, deveria ter ao seu lado um zagueiro que, a cada defesa, cochicharia:

- Memento mori. És apenas um mortal. Vem aí o próximo chute, e outro, e outro...

É por isso que, dado a engolir uns gols inacreditáveis de quando em vez, execro os que ficam gritando que são fodas, derramando pelos gramados suas felicidades virtuais, e elevo essa prece pagã a todos os goleiros da história do futebol que tenham, entre prodígios debaixo das traves, tomado seus frangos.

É redentor que cada homem, ao menos uma vez na vida, tenha a plena consciência de sua humanidade e grite aos maracanãs lotados de paixão e  mundo:

- Eu sou um fodido!

São eles que entrarão no reino dos céus, onde certamente haverá grama verde, traves, chuteiras, luvas e bolas.