quarta-feira, 6 de novembro de 2013

A MAIOR EPOPEIA DA HISTÓRIA

Em homenagem ao Santa Cruz do Recife, que garantiu acesso à série B do Brasileirão, republico um texto que escrevi, em 2010, sobre o clube. Longa vida ao Santinha!

Certa feita um aluno me perguntou sobre qual teria sido a maior epopeia da história humana. Dentre as aventuras cotadas, temos a expansão do Império de Alexandre Magno, a marcha da Coluna Prestes, a construção das pirâmides do Egito, as grandes navegações, as aventuras de Gengis Khan, as guerras de Napoleão, a chegada do homem à lua, a construção da muralha da China e outros babados. Pensei um pouco em todos esses fatos e emiti minha opinião:

- A maior aventura de todos os tempos foi uma excursão que o time de futebol do Santa Cruz de Recife fez aos confins da Amazônia, em 1943.

A épica excursão do Santa já se iniciou com um detalhe impressionante: a viagem começou na escuridão da noite, já que a Segunda Guerra Mundial pegava fogo e submarinos nazistas rondavam a costa brasileira afundando navios. A embarcação que levava a equipe tinha que navegar às escuras e com escolta da Marinha de Guerra.

Depois de alguns jogos em Belém, com vitória sobre a Tuna Luso, empate com o Paysandu e derrota para o Remo, o elenco seguiu viagem em direção a Manaus, de carona em um navio-gaiola que subia o Rio Amazonas, rebocando um batelão que levava alimentos ao Acre. O trajeto até Manaus durou simplesmente quinze dias, com direito a três dias em que a embarcação não pode seguir por um motivo muito simples: índios armados de bordunas, tacapes e zarabatanas sequestraram o elenco para pegar os alimentos.

Resolvido o entrevero com os índios, a equipe finalmente chegou à capital do Amazonas. Depois de uma derrota para o Olímpico [3x2] e uma vitória sobre o Nacional [6x1], o chefe da delegação, Aristófanes de Andrade, e seis jogadores foram atacados por uma infecção intestinal acompanhada de um piriri digno da pororoca. Ainda assim, e com a presença de alguns heróis que literalmente se borravam em campo, o Santa de despediu de Manaus enfiando 3 a 1 no Rio Negro.

Durante a descida do Rio Amazonas, o goleiro King e o centroavante Papeira pioraram da disenteria e receberam o diagnóstico de febre tifóide. De volta a Belém, e mesmo com a doença passando o rodo no grupo, o time derrotou o Remo [4x2]. O goleiro King morreu quarenta e oito horas depois do jogo e foi enterrado por lá mesmo. Três dias depois da morte de King,  Papeira também cantou pra subir.

Sem ter como voltar a Pernambuco, a delegação ainda ficou vinte e tantos dias perdida no Pará. O saldo era brabo: dois defuntos e outros tantos com a febre tifóide. Quando finalmente conseguiram transporte em uma embarcação para o Recife, com parada de quatro dias em São Luís, os jogadores tiveram que se contentar, sem um tostão furado, em embarcar na terceira classe, ao lado de trinta e cinco perigosos homicidas que a polícia paraense resolvera deportar para o Maranhão.

Durante os quatro dias de parada no Maranhão, para conseguir levantar algum dinheiro, o time realizou três amistosos. Com metade dos jogadores se recuperando do tifo e o goleiro titular e o centroavante mortos, até o cozinheiro e o massagista tiveram que entrar em campo para compor o elenco.

Pensam que acabou? Claro que não. Perto do Ceará, o comandante do navio recebeu a notícia de que havia submarinos alemães na área. O navio retornou ao Maranhão e os jogadores resolveram voltar a Pernambuco por terra. Pegaram carona em um trem de carga até Teresina (onde o time jogou mais amistosos em troca de comida e um jogador foi esfaqueado após uma confusão na zona do meretrício local) e de lá conseguiram embarcar em um ônibus até Fortaleza. Do Ceará, finalmente, deram um jeito de voltar a Pernambuco.

O furdunço todo durou exatos três meses, com vinte e oito partidas disputadas e a constatação de que, entre mortos e feridos, não se salvaram todos.

Que me desculpem Alexandre, Gengis Khan, Napoleão, Cristovão Colombo e outros mais. Perto da epopeia do Santa Cruz na Amazônia, seus grandes feitos guardam a mesma dramaticidade de um piquenique na Ilha de Paquetá, com direito a passeio de pedalinho nas águas da Guanabara.

Abraços

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

FELIZ DIA DOS MORTOS

Sou um finadista. Explico. Nasci em um dia dois de novembro, consagrado aos fiéis defuntos da cristandade - o popularíssimo dia de finados. Os senhores, que não nasceram em data tão significativa, não imaginam o impacto que é uma criança dizer aos amiguinhos que faz aniversário no dia dos mortos.
Ano passado mesmo, logo cedo, recebi uma ligação da minha mãe para os parabéns.... Entre desejos de felicidades e que tais, a velha me disse o seguinte:
- Parabéns, tudo de bom. Já acendi as velas pelos defuntos de sua avó, seu avô e sua Tia Lita.
Cresci ouvindo a história de que minha mãe repetia, perto do meu nascimento, sempre a mesma ladainha : Só não pode nascer dia dos mortos. Vai ser menina e não vai nascer em finados; não pode nascer.
O resultado é que nasci balançando o pinto e no dia dos mortos, às onze e meia da manhã - horário indisfarçável, pra marcar posição. Minha avó ficou tão abalada que deu a notícia à minha tia Lita da seguinte maneira : Lita, que horror. Acabou de nascer no dia de finados e é menino. E agora ?
[A tia querida adorava repetir essa sentença e a vó, rindo matreira, apenas silenciava. Eu, de forma obsessiva, pedia o tempo todo : Como é a frase do meu nascimento, tia Lita? A frase do horror... ]
Lembro-me bem de um aniversário - eu devia ter uns seis anos - em que fomos almoçar em família. Vesti minha melhor roupinha para a ocasião. Ao nos ver saindo, o jornaleiro vizinho ao prédio onde morávamos foi direto : Estão indo a que cemitério?
Eis aí, amigos , uma verdade definitiva - meu caráter foi moldado por essa frase. Acho mesmo que minha personalidade pode ser definida com essa única sentença; nunca deixei de ser a criança que, ao querer comemorar o aniversário, descobriu que o procedimento normal era ir ao cemitério.
Em outra ocasião o negócio foi mais sério. Estava já na faculdade quando minha namorada à época resolveu me mandar flores no dia do aniversário. O entregador disse ao porteiro que ia levar as flores ao apartamento 307, endereçadas a Luiz Antonio Simas.
Tudo muito bonito, romântico, nos conformes. Acontece que o porteiro, ao ouvir falar em flores para Luiz Antonio Simas no dia de finados, concluiu que eu tinha morrido. Atentem para o troço. Minha namorada me manda flores no aniversário e o camarada acha que morri.
Mas vamos voltar à infância. O fato é que, aos poucos, passei a achar ótimo esse negócio de ser finadista. Comecei a divulgar isso com uma empáfia quase aterrorizante. Alguém me perguntava qual era o dia do meu aniversário e eu não tinha dúvidas em responder feliz, quase excitado. Chegava mesmo, admito, a falar do nada para as pessoas : Você sabe em que dia eu nasci? Quer que eu diga mesmo?
Fazia então uma expressão de homicida alucinado, ensaiava um tom de voz diferente, esbugalhava os olhos e mandava na lata : Dia dois de novembro; o dia dos mortos, dos vampiros e dos lobisomens [ sim, resolvi acrescentar, lá pelos oito anos, esse negócio de vampiros e lobisomens porque dava um tom mais firme e assustador à coisa ].
Ah, me permitam uma última confissão, daquelas que o sujeito só costuma fazer ao médium de mesa branca depois de fixar residência no Nosso Lar. É o seguinte: ainda hoje, homem barbado e pouca telha, volto a ter subitamente oito anos quando uma criança me pergunta sobre o dia do meu aniversário. Me vejo como um pirralho de cabelos encaracolados, calço meu kichute imaginário e respondo com sinistra entonação:
- Nasci no dia dois de novembro. É o dia dos mortos, dos vampiros e dos lobisomens. Você sabia ?
Se o fedelho faz cara de choro, fico sinceramente feliz.