sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

IMPROVISO DE NATAL

Brincadeira minha, de arteiro improvisado, para o Natal do meu filho:

O boi-calemba dançou
Na barra do meio-dia
Papai Noel estranhou
Mas rendeu-se aos brasileiros.
Livrou-se da bizarria
Das roupas do Pólo Norte
Virou nordestino forte
De lida de gado e festa
E também foi pro terreiro
Ver Lapinha e Pastoril
Cantou as canções de gesta
Perfumou-se de alfazema
Rezou para Santos Reis 
Sentiu cheiro de açucena
Trocou o gorro vermelho
Por quepe de marujada
Viu a chegança embarcada
Nas águas de Pirapora 
Bebeu cachaça curtida
No juazeiro de Lua
E quando chegou a hora
De voltar para as lapônias 
Disse putaquepariu
Que se danem minhas renas
Vou de jegue pras morenas
Brincar Natal no Brasil. 
(L.A.Simas)

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

NATAL DE BRASILIDADES

Chega dezembro e eu não me aprumo nas conveniências. Insisto em desejar um Natal de brasilidades; celebrado entre presépios precários, pastoris e lapinhas, saias rendadas das moças dos cordões, fandangos, calembas, marujadas, cheganças e folias. Tempo alumbrado de alegrias imorredouras, aquelas que desaguam nos fuzuês de janeiro e homenageiam - entre cachaças, cafés fortes e bolos de fubá - os Santos Reis.

Quem nasceu no meu Natal foi o Cristo das arrelias; aquele que se sentiria mais a vontade em um botequim de esquina do que nos salões e altares suntuosos. Um Cristo que joga na várzea, bebe nos subúrbios, rala nas fábricas, namora as morenas e, quando o sol vai quebrando lá pro fim do mundo pra noite chegar, descansa feito João Valentão e adormece como brasileirinho comum.


E que se dane esse mundo globalizado e desencantado, mundo feio da moléstia, que uniformiza padrões culturais e inibe a produção de novos conhecimentos e técnicas. Um mundo que não nos é pertencimento e não nos afaga em nossas precisões, as mais humanas, de apaziguar a alma.

No Brasil de meus sonhos imorredouros o Natal é tempo de cajus, cachaças, jabuticabas e castanhas. Tempo das pastorinhas rodarem saias azuis e encarnadas; dos marujos erguerem remos e espadas; dos foliões desfraldarem estandartes e afinarem violas de fita; dos gajeiros verificarem mastros, vergas e velas.

O Brasil é minha aldeia, minha alegria, minha dor e meu pertencimento. Meu país miudinho, meu modo amoroso de delirar sorrindo a subversão das mazelas e, entre as intangíveis belezas dos cantos e danças de sua gente, sonhar as alforrias do mundo.

Enraizado na terra de meus pais e do meu filho, não sei fazer ou sentir de formas diferentes nem aprendi de outras maneiras as estripulias formosas de inventar a vida.

Boas festas!



sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

UM MÉDIUM NO CARNAVAL

É de conhecimento público que o Manoelzinho Motta era dotado de impressionante mediunidade. A  primeira manifestação do sobrenatural aconteceu quando Manoelzinho recebeu um profeta de pedra sabão do Aleijadinho - Jeremias - após ser flagrado por sua senhora, Dona Alcione, em trajes sumários no lupanar de Consuelo, "La Índia" Paraguaia.

Acontece que a mediunidade do cabra, depois da primeira manifestação, não parou mais. Há relatos de que Manoelzinho virou cavalo de mais de cinquenta entidades, de todos os tipos e linhas. O que mais impressiona, do ponto de vista estritamente espiritual, é entender como as entidades chegavam no Motta em momentos decisivos.

Houve uma ocasião em que Dona Alcione convenceu o Manoelzinho a passar o carnaval fora do Rio de Janeiro. O destino traçado era Araruama, na modesta casinha de praia alugada  por Dona Saquarema Marta, que gentilmente convidou as amigas do Lins de Vasconcelos e adjacências para curtir um solzinho, tomar umas cervejinhas e fazer torneios de buraco e sueca durante o tríduo momesco.

Há que se ressaltar, em nome da veracidade do relato, que a casa de praia não era exatamente próxima à orla de Araruama. Ficava num loteamento um pouco distante - coisa de uns vinte minutos caminhando sem pressa. Um dos argumentos que Dona Alcione usou para convencer o Manoelzinho foi esse; eles poderiam passear na beira da lagoa, dar um bom mergulho numa praia mansa e levar um isopor com uns comes e bebes para economizar.

O Manoelzinho, que nunca discordava da Dona Alcione, aceitou o convite e se mostrou o mais entusiasmado com a programação. Não aguento mais essa confusão do carnaval, argumentou com a pinta de chefe de família exemplar.

Meu avô não entendeu picas. O Manoelzinho era folião lendário, sócio remido do Bola Preta, neto de um benemérito dos Tenetes do Diabo, compadre do Tião Maria Carpinteiro -o fundador do Bafo da Onça- , ativo participante do Berro da Paulistinha e organizador, ao lado do zagueiro Moisés Xerife, do bloco das piranhas de Madureira. Como se não bastasse, fechava a quarta-feira de cinzas brigando com a polícia durante o desfile do Chave de Ouro.

O casamento, porém, exigia alguns sacrifícios, disse o Motta. Uma emocionada Dona Alcione ouviu o marido argumentar a favor da ideia de que numa relação de companheirismo era necessário abrir mão de algumas coisas em nome de outras mais importantes. Em tom de discurso parlamentar, Manoelzinho encerrou o assunto em grande estilo e levou a mulher às lagrimas:

- Alcione significa mais para mim do que qualquer carnaval. É a minha quinta mulher, mas meu primeiro amor. Parto feliz para aquele que será o melhor carnaval da minha vida!

Acontece que é difícil controlar algumas espiritualidades mais fortes. Na hora da partida, com as malas devidamente preparadas, o Caladril, o Vic Vaporubi , a Minâncora, O sal de frutas Eno e o Colobiasol formando a linha de frente da sacolinha de remédios, o Manoelzinho deu três murros fortes no peito, um brado de levantar defunto e caiu de joelhos na clássica posição de um índio preparado para flechar alguém.

O Nilton, que era uma espécie de cambono pra toda obra do Manoelzinho e também estava na trupe da folia em Araruama, imediatamente gritou ao ver a cena:

- Okê, caboclo!

Assim que o caboclo do Manoelzinho chegou, com urros impactantes de bugre, a Dona Alcione - que nutria pela mediunidade do marido uma mistura de respeito e temor - estendeu as mãos espalmadas à frente e abaixou levemente a cabeça em forma de reverência. Todos os que assistiam a cena fizeram o mesmo gesto. 

A entidade indígena continuou gritando por uns cinco minutos. Nesse espaço de tempo a fila de gente para tomar passes se formou e os palpites sobre que caboclo era aquele começaram. A lista de possibilidades era enorme: Seu Tupiara, Seu Tupaíba, Seu Aimoré, Caboclo Roxo, Seu Sete Flechas, Seu Cachoeirinha, Seu Tupinambá, Caboclo Lírio, Seu Junco Verde, Seu Rompe Mato, Seu Peri, Caboclo Sultão das Matas, Seu Mata Virgem, Seu Sete Pedreiras... Houve quem apostasse até num boiadeiro, apesar da pinta de bugre com que a entidade se apresentou.

O Nilton, cumprindo com a maior seriedade as funções de cambono, aproximou-se do índio e fez a clássica pergunta:

- Qual é a sua graça, meu pai? O senhor quer dizer o seu nome aos filhos de Zâmbi? Quer riscar seu ponto com a pemba de fé?

O caboclo murmurou alguma coisa incompreensível. O Nilton se aproximou e o índio cochichou algo ao cambono, que anunciou ao povo:

- Ele disse que se chama Seu Cacique de Ramos.

Meu avô retrucou na lata, com a habitual elegância da gente de Guararapes :

- Não sacaneia, Nilton. Seu Cacique de Ramos? Não fode que isso nunca foi caboclo nem aqui nem na casa do caralho.

Na mesma hora o índio se ofendeu, deu um berro enfurecido, começou rodopiar feito doido e deu flechadas imaginárias em todo mundo, com cara de puto dentro da tanga. Alguém sugeriu cantar um ponto pra acalmar a entidade. Mas qual? Uma voz desconhecida mandou de prima: Sim, é o Seu Cacique de Ramos/ Planta onde em todos os ramos/ Cantam os passarinhos da manhã... O caboclo gostou e ficou mansinho.

Dona Alcione, nessa altura do campeonato, só queria que o índio fosse oló para retomar os planos do carnaval em Araruama. O bugre, então, pediu silêncio e anunciou:

- Caboclo só vai deixar cavalo na quarta-feira de cinzas. Num sobe antes, que caboclo vai salvar seus filho de Aruanda na fé de Zâmbi. Caboclo veio traze axé de pemba no carnaval.

- Não faz isso, meu pai. Seu cavalo tem que viajar. Retrucou o cambono.

Seu Cacique de Ramos não quis conversa. Armou uma beiçola enfurecida, enrugou a testa, cruzou os braços e balançou a cabeça em forma de negação. E arrematou:

- Mulé de cavalo vai, que caboclo não quer ver mulé triste. Caboclo fica com cambono nas encruzas. Caboclo vai fazê trabalho forte, vai riscá ponto em mil e duzentas esquinas e depois vai embora. Ordem de Zâmbi. E caboclo quer cocar e tanga!

Dona Alcione fez de tudo para demover a entidade. Chorou, ameaçou se separar do cavalo, duvidou da mediunidade do marido, se arrependeu da dúvida, pediu desculpas ao Seu Cacique, acabou tomando passe e o escambau. Ficou até comovida quando a entidade disse algo como meu cavalo ama muito mizifia e acabou partindo para Araruama com a turma do Lins. O Nilton prometeu cambonar Seu Cacique de Ramos enquanto ele estivesse na terra. Meu avô, muito sério, disse também que ia comprometer o próprio carnaval para ser o cambono assistente.

Do jeito que Seu Cacique veio, ficou. Ficou e cumpriu a promessa - durante os dias de carnaval trabalhou duro, percorreu mil e duzentas esquinas com a pemba de fé - de cocar e tanga em vermelho, preto e branco - bebeu marafo e cerveja na cuia da jurema, comeu feijoada para louvar Seu Ogum Beira Mar, fumou charuto e bateu o recorde de passes nas filhas de pemba em toda a história da Aruanda.

Seu Cacique de Ramos foi oló na quarta feira de cinzas, depois de cumprir com êxito sua missão de paz na terra.



quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

MEDIUNIDADE DE RESPONSA

Minha tia Lita era, além de católica praticante, chegada nos balacobacos do além. Falava mal de macumba, mas na hora do pega pra capar recorria a praticamente todo o estafe da Aruanda. Num desses dias em que estava com o misticismo aflorado, a velha virou-se para meu avô e declarou-se impressionada com a mediunidade do Manoelzinho Mota.O vô, evidentemente, achou que era cascata e redarguiu com delicadeza jagunça; desde quando o cachaça do Motta é médium de alguma coisa? Vou averiguar que merda é essa.

O melhor lugar para checar a informação era o bazar de artigos religiosos O Cantinho da Padilha, na entrada da Dias da Cruz, no Méier. Devo dizer, antes de retomar o fio da meada, que o referido estabelecimento era conhecido no mundo inteiro por possuir na porta uma estátua de Seu Tranca Rua com chifres, rabo, capa, tridente e o fogo dos infernos incluídos. A escultura do Seu Tranca era mais alta que a do Padre Cícero, em Juazeiro do Norte, e só um pouquinho mais baixa que o monumento ao Cristo Redentor e a sepultura do Barão do Rio Branco, no cemitério do Caju.

Meu velho sondou a rapaziada da curimba e soube, de fato, que o Mota tinha deixado aflorar recentemente o dom de incorporar todo tipo de espíritos. A informação era impressionante; parece que cinquenta e tantas entidades tinham usado o homem como aparelho em pouco menos de um mês e meio.

A notícia que deixou meu avô basbaque, entretanto, foi dada pelo Nilton. O Motta, além de incorporar espíritos, estava recebendo os profetas de pedra sabão do Aleijadinho.

Olha, Seu Luiz, ele não tem incorporado só espíritos não. Parece que anda recebendo também os profetas do Aleijadinho. As estátuas? Ele recebeu as estátuas de pedra sabão? Isso. Já recebeu todas elas. E o transe costuma durar um tempão. Foi assim que o dom se manifestou pela primeira vez. Não fode. É sério. Vou contar pro senhor como foi.

 As incorporações começaram num dia em que a Alcione, senhora do Manoelzinho, cometeu tremenda injustiça com o cachaça. Uma dessas línguas ferinas que não podem ver a felicidade de ninguém bateu para a Alcione que o Mota estava sendo visto com certa frequência numa casa de amores urgentes - vulgarmente conhecida pelos sem poesia como puteiro - na esquina da Rua das Marrecas com a Evaristo da Veiga, no Centro.

Não sabia, a Alcione, que o Manoelzinho - um faz tudo de mãos cheias - estava apenas cuidando da manutenção da parte elétrica do lupanar, e só não a deixou inteirada do fato porque, sempre romântico, pretendia fazer uma surpresa pra patroa e aplicar os vencimentos obtidos no serviço em utensílios para o lar; mais especificamente na aquisição de uma geladeira nova. Ademais, o Mota achou que o lugar era um pensionato para moças oriundas do interior.

A Alcione - com o apoio de quatro falsas amigas que não viam um báculo episcopal há tempos - seguiu o Mota em uma tarde de meio de semana e, ao vê-lo adentrar o recinto suspeito, preparou-se para uma invasão. O estratagema era similar ao utilizado pela swat norte-americana para resgatar reféns sequestrados em embaixadas no Oriente Médio.

No que entrou de forma arrasadora na casa, no estilo blitzkrieg, Alcione encontrou o marido quase pelado, portando apenas um discreto roupão azul bebê. Teve um piripaque, começou a quebrar tudo e, na hora em que retirou da sacola da Imperatriz das Sedas a faca de cozinha com que planejara capar o cônjuge, foi interrompida por uma senhora com fortíssimo sotaque latino, que mais parecia um mistura da Índia Bartira com o Ted Boy Marino :






- Calma, mi senhora. Jo conheço isso. Este hombre está incorporado !
A cena era, de fato, impressionante. O Mota estava absolutamente paralisado, queixo pro alto e olhos cerrados. Para quem conhece, era mesmo uma manifestação espiritual, não havia a menor dúvida.
Dona Alcione, desconfiadíssima, ameaçou continuar o chilique, mas se tinha coisa que respeitava era isso de mexer com as entidades. E era evidente demais que ali, paralisado, não estava o Manoelzinho. Até as falsas amigas - surucucus da pior espécie - admitiram isso. Não era mesmo ele.
Hora e meia depois, o Mota continuava estático. Enquanto isso, a dona do pedaço, uma senhora de seus sessenta e poucos anos conhecida pela alcunha de Consuelo, la Índia Paraguaia, esclareceu tudo e acalmou dona Alcione com dois copinhos d’ água com açúcar. No fim das contas a mulher se convenceu do sacrifício que o Manoelzinho estava fazendo para comprar a geladeira de última geração que ela queria tanto. A paraguaia disse ainda que o roupão azul fora um pedido expresso da entidade, assim que o Mota entrou em transe.

La Índia Paraguaia - segundo ela mesma, com o assentimento de suas funcionárias, sensitiva desde os doze anos - e dona Alcione - com um misto de temor e respeito - aproximaram-se do Manoelzinho e tentaram estabelecer um diálogo. Consuelo indagou a suposta entidade:

- Quien és el senhor ?

- Profeta Jeremias

- Señor Jeremias, o senhor teve la vida terrena ?

- Não. Não tá vendo que eu sou um profeta.

- De la bíblia ?

- De Minas Gerais. Do Aleijadinho, uai. Estou parado porque sou de pedra sabão. Aliás, estátua não fala. Não falo mais nada.

E continuou rigorosamente paralisado.

Na mesma hora dona Alcione entendeu tudo. Ficou comovida. Lembrou-se das estátuas dos profetas que o casal conhecera numa excursão às cidades históricas mineiras - prêmio cobiçadíssimo que o Manoelzinho arrebatara numa rifa, organizada por ele mesmo, para auxiliar a reconstrução da casa paroquial da igreja do Sagrado Coração de Maria.

Após algum tempo, passado o transe, o Mota não se lembrava de rigorosamente nada. Voltou para casa com dona Alcione, que fez apenas uma admoestação ao amado. Nhonhô (era esse o carinhoso tratamento na intimidade), você não podia escolher um outro lugar para realizar esses serviços elétricos? Nhanhá, foi o sonho da geladeira. Eu queria te fazer um agrado. Nem reparei, com toda a sinceridade, a natureza do estabelecimento. Achei que era mesmo um pensionato.

E assim começou a impressionante trajetória sobrenatural do Manoelzinho, que deu pra incorporar uma plêiade de entidades, estátuas, árvores e animais em momentos os mais delicados. Meu avô, até então homem de pouca fé, acreditou piamente na história e começou a cogitar de também dar passagem pr’uma rapaziada lá de cima. É que o velho estava fazendo um bico discretíssimo, como bombeiro hidráulico, numa pensão de normalistas na Sacadura Cabral, cheia das boas energias.

domingo, 1 de dezembro de 2013

DELENDA DEZEMBRO!

Dezembro chegou. Tenho umas mil e duzentas razões para querer despachar o mês  feito um ebó pesado na encruza. É por isso que sempre deixo aqui a  minha bronca contra essa modorra natalina da moléstia. Este espaço, enfim, tem por tradição estabelecida abrir o final do ano com um texto defenestrando o período. Aos fatos:

- Não dá pra ir com tranquilidade a bares e restaurantes em dezembro. O perigo é encontrar uma festa de encerramento de ano do pessoal da repartição. Em meia hora os bebuns amadores - os bebuns de dezembro - chamam urubu de meu louro e começam a gritar. A funcionária padrão, que passou o ano todo tímida, solta a franga, enche a cara e ameaça fazer striptease pro chefe do almoxarifado, ao som do funk da moda. No ápice do fuzuê alguém grita que vai começar o amigo oculto. Não satisfeitos com a troca de presentes em público, os participantes ficam, aos berros, dando palpites sobre quem fulaninho tirou. Vômitos no final do furdunço estão incluídos na conta.

- Em dezembro o sujeito corre o risco de receber dezenas de emails com um poema sobre a simplicidade da vida, criminosamente atribuído a Jorge Luis Borges. O poema fala do sujeito que na velhice se arrepende de não ter andado descalço, tomado banho de chuva, amado mais, cativado crianças, comido maçãs ao entardecer, soltado os cabelos ao vento e sorrido ao nascer do sol. Imaginem se Jorge Luís Borges escreveria uma baboseira dessas.

- Toda família tem pelo menos uma tia velha e carola que, no auge da festa de Natal, cai em prantos, anuncia que vai morrer e estraga a ceia. A frase é um clássico: - Eu quero dizer pra vocês que esse é meu último Natal; ano que vem eu não estou mais aqui . No ano seguinte lá está ela, vivinha da silva, anunciando a morte próxima e preparada, sordidamente, para enterrar a família inteira.

- O sujeito jura que nunca mais entrará em amigo oculto; vai romper com o consumismo e os cacetes. Balela. Tem sempre pelo menos um amigo oculto de família cuja participação é irrecusável. Para esculhambar tudo mais ainda, só mesmo a cena clássica do parente agregador; aquele que insiste em transformar a troca de presentes em um ritual fraterno e descontraído. O parente agregador é a maior praga dezembrina. 

- O futebol entra em recesso em dezembro. Não há campeonatos no Brasil. As noites de quarta e as tardes de domingo, sem uma partidinha pra justificar a cerveja, são tão emocionantes quanto uma corrida de cágados sob efeito de Rivotril.

- Shoppings são sucursais do inferno e os adultos realmente acham que as crianças gostam de tirar fotos - pagas, diga-se - com o Papai Noel. Os moleques abrem o berreiro, os pais insistem, o Papai Noel tá doido para enfiar a porrada no capeta, mas tem que manter a pose para garantir os caraminguás da santa ceia. Dezembro é o mês em que, como diria o Vinícius, "a criançada toda chega / e eu chego a achar Herodes natural".

- Acabaram com a festa de Iemanjá durante a virada do ano, nas praias do Rio. As areias não têm mais terreiros na noite do dia 31. Periga o sujeito querer bater cabeça pra rainha do mar e acabar se deparando com um show de Lulu Santos, Jota Quest, Carlinhos Browm, Naldo, Perla e Maria Gadú, com participação especial da bateria da Grande Rio. A grande atração costuma ser algum dj fresco, moderninho e antenado com a cena musical inglesa. Eu quero de novo macumba na areia, com direito a Praianinha, charuto Índio, perfume de alfazema, leite de rosas pra mamãe sereia, cidra de macieira e barquinho comprado no Mercadão de Madureira.

- Dezembro é o mês em que os namorados se sentem mais a vontade para trocar juras de amor em público; geralmente com vozes infantis de erês de umbanda. Dá vontade de chegar junto e cantar pra criança subir. Poucas coisas despertam mais os meus piores instintos do que compartilhar o espaço com casais tagarelando como crianças, berrando publicamente seus apelidos e trocando o r pelo l, feito o Cebolinha.

- Eu insisto, protesto todo ano, esperneio, faço ebó, escrevo denunciando, mas não tem jeito: Dezembro é o mês em que todas as lojas do mundo colocam em promoção o cd que a Simone gravou, ao lado dos meninos cantores de Petrópolis, com músicas natalinas. O destaque é Então é Natal , a versão em português de uma música do John Lennon mais desagradável do que tratamento de canal no dentista e mais melosa que pudim de guaraná Jesus. Simone termina de cantar de forma apoteótica, gritando, por alguma razão que desconheço, Feliz Natal, Hiroshima e Nagasaky. Como tudo pode piorar, Luan Santana regravou a canção para as festas de 2013. O bom senso manda se cogitar o suicídio.

- Só em dezembro, enfim, um homo sapiens tem a coragem de se prestar a isso: