quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

A POMADA CERTA

Vamos falar de coisas verdadeiramente relevantes. Em 1939, em plena ditadura do Estado Novo, o Brasil vivia a famosa guerra das pomadas. Explico.Os fãs da pomada Minâncora consideravam a Hipoglós uma farsa. A Minâncora - brasileiríssima e atuante no mercado desde 1915 - não se limitava simplesmente a eliminar assaduras. Servia também para acabar com espinhas, frieiras (as sinistras tinhas do pé), chulés e o futum nas axilas das moças e nos suvacos dos machos; o popular cecê. Esclareço , para quem estranhou o final da última frase, que sou de um tempo e um lugar em que mulher não tinha suvaco e homem não tinha axilas.
A Minâncora, enfim, é usada até hoje para qualquer coisa (tem inclusive propriedades terapêuticas veterinárias e eu já vi sendo elemento de ebó em encruzilhada ) e não por acaso seu nome mistura Minerva - a deusa grega da sabedoria - e a palavra âncora. Segundo o criador da fórmula , o português radicado em Santa Catarina Eduardo Gonçalves, o nome demonstra que a sabedoria de Minerva ancorou definitivamente no Brasil. E a Hipoglós, o que era? Nadica de nada, neca de pitibiriba , acusavam os minancoramaníacos.Para angariar a simpatia do povo nessa que foi uma das primeiras batalhas entre marcas da época contemporânea, a Hipoglós promoveu o concurso para escolher um bebê que representasse os atributos do medicamento - a criança, entre zero e dois anos, robusta, feliz e livre de assaduras. O vitorioso teria direito a um fim de semana no Grande Hotel de Lambari, duas mil e quinhentas fraldas, fornecimento da pomada até completar cinco anos de idade e seria o bebê propaganda da pomada em revistas e jornais. É mole?
A promoção virou uma coqueluche nacional. Mais de onze mil bebês foram inscritos no concurso. Cento e cinquenta foram selecionados para a final e, após acirradíssima disputa, um juri de grandes especialistas em assaduras ( o ministro da Guerra, Eurico Gaspar Dutra; o chefe do DIP, Lourival Fontes; o ministro das relações exteriores, Oswaldo Aranha; o chefe de polícia, Filinto Müller e o Cardeal Arcebispo do Rio de Janeiro, D. Sebastião Leme ) escolheu o bebê maranhense Getúlio Vargas Ribamar de Almeida, de oito meses e meio e impressionantes nove quilos, como o primeiro "bebê Hipoglós" da história do Brasil.
 
Viver é, enfim, optar pela pomada correta. Minâncora ou Hipoglós, eis a momentosa questão. A personalidade de um homem se define aí. O resto é balela.

2 comentários:

Pedro Lobato Moura disse...

Fantástico como sempre!

nanda toro disse...

Muito interessante a reviravolta!!