quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

PENHA, PADROEIRA DO CARNAVAL

Contam que, no início do século XVII, aqui no Rio, o português Baltazar de Abreu Cardoso saiu para caçar. Subitamente, apareceu diante dele uma cobra gigantesca. Apavorado, o portuga apelou: - Valei-me, minha Nossa Senhora da Penha! Feito o apelo, um lagarto botou a peçonhenta para correr. Comovido, Baltazar ergueu uma ermida no local do milagre e prometeu fazer anualmente uma festança para relembrar o fato. Surgia assim uma das maiores tradições cariocas: a Festa da Penha.
 
Feita a devida referência ao sagrado, constato que milagre maior do que o da santa foi o do povo carioca, que tomou para si a festa e a transformou, no início da República, numa espécie de folia pré-carnavalesca e espaço de exercício da cidadania informal.
 
A República das oligarquias criminalizava a cultura popular. A onda desse pessoal  era modernizar e higienizar o Rio de Janeiro em padrões europeus, adotando Paris, a capital francesa, como modelo. E tome de derrubar cortiços e criminalizar as referências culturais do povo mais humilde, sobretudo dos descendentes de escravos. Neste clima, as manifestações populares - o samba, a capoeira e a macumba, por exemplo - eram duramente reprimidas, vistas como símbolos do atraso e da barbárie.
 
Mas o povo deu o nó em pingo d´água. A rapaziada virou dona da festa e dela fez seu pertencimento. Os capoeiras cortaram o mato nas rodas de volta ao mundo, as baianas prepararam a comida do santo e os bambas mostraram os sambas que tinham acabado de compor. A festa transformou-se, depois do Carnaval, no maior evento popular do Rio de Janeiro.
 
Os poderosos fizeram de tudo para impedir o furdunço. Em 1904, 1907 e 1912, a prefeitura proibiu rodas de samba na Penha. A rapaziada foi lá, zombou da proibição e fez. Havia ordem de prisão para praticantes da capoeira. O berimbau puxou o toque de São Bento Grande  e o povo gingou. A baiana temperou o acarajé, a cerveja gelou e o Rio de Janeiro mostrou que o espaço da civilização da nossa cidade é a rua.
 
Acho, por tudo isso, que a cidade deveria zelar pelos festejos da Penha, zuelando tambores na ermida. A festa é parte integrante da História carioca. A decadência dos festejos - por uma série de motivos que demandariam inúmeras discussões – é emblemática dos paradoxos de uma cidade que, vez por outra, parece querer negar seus traços culturais mais fecundos.
 
A maioria da população pode ter, enfim, se esquecido de Nossa Senhora da Penha. Que ela, todavia, não se esqueça do Rio de Janeiro e nos proteja. A santinha, afinal, sempre anunciou por aqui, fuzarqueira como ela só, a proximidade do Carnaval.
 


 

 

4 comentários:

Silvana Moura disse...

Prezado Luiz,que belíssimo texto!
Gostaria de saber se o mesmo pertence a algum de seus livros.E qual seria?
Poderia usá-lo em minhas aulas de História?

Silvana Moura disse...

Prezado Luiz,
Ainda que nunca tivesse tido a oportunidade de assistir suas aulas,de certa forma , confesso e agradeço, aprendo com seus escritos.
Belíssimo texto!
Gostaria de saber se tal texto faz parte de algum de seus livros.Qual , então, seria este livro?
Posso utilizar este texto em minhas aulas?
Abraços.

Rosangela Terreri disse...

Ary Cordovil , grande cantor e compositor da Música Popular Brasileira e meu pai!!!

Anônimo disse...

Simas,
Sobre um texto seu sobre o Bafo da Onça, você fala que o Cacique de Ramos, foi criado pelo Bira para suplantar as onças pintadas. No Bafo da Onça- o filme, tem um ex-folião do Bafo diz que o Bira era folião do Bafo e brigando com o bloco, cria o Cacique. Qual a verdade?
Sérgio Aguiar