terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

FESTA NA RUA

Em uma cidade como o Rio de Janeiro, com forte presença de descendentes de escravos, as relações entre o carnaval de rua e o poder público foram marcadas, desde o início da República, por tentativas de disciplinar a festa. As camadas populares foram vistas como classes perigosas e suas manifestações culturais, tratadas como coisas de bárbaros. Evitar que a barbárie tomasse as ruas no tríduo era, portanto, fundamental na ótica do poder. Essa postura, não raro, descambava em repressão violenta. Era o cacete comendo e os poderosos colocando água no chope da rapaziada. A cidade, todavia, cantava, cuspia na cara do feitor, dava o nó na caninana e inventava a pequena morte de três dias.
Acontece que o carnaval de rua é Exusíaco (quem tem Exu não precisa de Dioníso) e tem duas características que, com maior ou menor intensidade, prevalecem em qualquer canto do mundo onde um pierrô morra de amores: a espontaneidade do folião e a subversão dos valores sociais e morais vigentes.
O sentido da festa é esse.
Qualquer tentativa de se estabelecer critérios mais rígidos de controle dos foliões deve, portanto, ser vista com cuidado. É compreensível que o poder público busque garantir o mínimo de segurança e ordem urbana ao carnaval de rua. O risco de se comprometer o sentido da folia não pode, porém, ser desprezado.
Qualquer política pública que queira interagir com a festa deve ser pensada por quem conheça o carnaval, saiba da dimensão cultural do furdunço entre nossa gente e reconheça o tênue e perigoso limite entre ordem e repressão, como se a primeira só pudesse ser garantida pela segunda. É função do poder público, e aí ele é importante, ser o fiscal da cláusula pétrea do reino de Momo: ao folião é garantido o direito de se esbaldar em paz, de forma espontânea e original, no meio da multidão ou no bloco do eu sozinho.
O legítimo folião não programa o carnaval, não gasta seus caraminguás em abadás duvidosos e não se isola dentro de cordas. Sabe apenas que vai para a rua imolarse nos blocos e cordões, receber a extrema-unção com água benta de teor alcoólico e morrer até a Quarta-Feira de Cinzas, quando ressuscitará como burocrata, marido, professor ou operário, para o longo e medíocre intervalo entre um carnaval e outro.
Nós temos o direito a essa pequena morte. É ela que torna mais suportável a vida.
Evoé!

Um comentário:

Fernando Szegeri disse...

BRAVO!!! BRAVO!!! BRAVO!!! Obrigado, Velho!
Com um terrível agravante: o "enquadramento" do Carnaval e do folião não partem mais só do estado repressor. Parte dos blocos "privados" que se apoderam do espaço público, das festas patrocinadas para promover interesses comerciais, dos blocos monocromáticos, dos blocos temáticos, dos blocos "institucionais" (ligados a "movimentos", instituições, partidos políticos etc.) que querem fazer da festa militância, etc. etc. etc. Não tá fácil.