quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

NÃO SOU SAMBISTA

Não sou sambista. Essa coisa de chamar o sujeito de sambista é, aliás, complicada. Há quem cante samba, componha, estude, escute. Ser sambista, todavia, é outro papo. O buraco é bem mais embaixo.

Muito mais do que gênero musical ou bailado coreográfico, o samba é elemento de referência de um amplo complexo cultural que dele sai e a ele retorna. No samba vivem saberes que circulam; formas de apropriação do mundo; construção de identidades comunitárias; hábitos cotidianos; jeitos de comer, beber, vestir, enterrar os mortos, celebrar os deuses e louvar os ancestrais.

Há, entretanto, quem se aproprie do samba para submeter sua complexidade aos limites da indústria cultural (incluídos aí os meios de difusão de massa e o carnaval, cada vez mais reduzido ao mero entretenimento; distante da potência de uma festa de reinvenções do mundo pela subversão da vida). O samba, que poderia ser o difusor de uma poderosa economia da cultura, termina limitado pela cultura da economia, aquela que só concebe legitimar a arte pelo valor de mercado e circulação de capitais que ela permite.

Não sou sambista. Também não sou pesquisador do samba. Prefiro me definir como um pescador; fascinado pela dimensão oceânica do batuque que une, na vastidão do Atlântico Negro, praias das áfricas e do Brasil.

Reverente aos mestres das agulhas de marear, lanço no universo do samba minha rede para pescar peixes mais próximos da superfície e saboreá-los, na brasa, entre cervejas geladas e cangebrinas quentes. Com tremoços, por favor.

Não tenho a preparação e a vivência para mergulhos de maior fôlego, aqueles que permitem o acesso às profundidades escuras, como escuros eram os porões dos tumbeiros que cruzaram a calunga grande. Isso é coisa de fundamento.

Humildemente, por isso, venero o samba, pesco meu sustento, manifesto a alegria de viver, educo meu filho e expresso minhas dores em suas águas. Os que reinventaram a vida no escuro – sambistas! – me ensinaram a viver nas claridades bonitas do sol.

Eu apenas presto  reverência e bato cabeça aos que rasparam o fundo do tacho, enquanto atiro ao mar a jangada ligeira e afetuosa de minhas viagens curtas.

Um comentário:

Ricardo Delezcluze disse...

Apenas um mestre para expressar algo que tentamos falar e não conseguimos. Sempre desejei dizer isso mas nunca consegui me fazer entender. Talvez compartilhando seu texto as pessoas entendam.