sábado, 31 de maio de 2014

A HONESTIDADE DO LELÉ DA CUCA

Gosto de andar de táxi no banco da frente, para ir conversando com o motorista. Há algumas figuras impagáveis que trabalham na praça; gente que tem histórias da rebimboca da parafuseta para contar.

Outro dia fui conduzido por um coroa que viveu, certa feita, um perrengue dos diabos. Contou-me ele que, quando ainda estava começando na praça, ao pegar a Avenida Pasteur, na Urca, foi parado por um senhor grisalho, vestido com impecável uniforme branco. O distinto pediu para ir ao hospital Souza Aguiar. Dava a pinta de ser um médico da melhor qualidade.

No que o táxi desceu o Aterro do Flamengo, melhor caminho para se chegar ao centro, o motorista reparou que um furgão seguia o carro. Para piorar, assim que o táxi se aproximou do monumento aos mortos da Segunda Guerra Mundial , no final do Aterro, o passageiro, até então gentil e pacífico como um periquitinho de realejo, bateu continência e gritou:

- Sentido! Avante! Avante! Repita comigo, motorista. Repita comigo.

Acuado, o taxista foi obrigado a dirigir com uma única mão, enquanto a outra batia continência, conforme as determinações do passageiro. O sujeito continuou :

- Agora, paisano, eu vou dizer uns nomes e você, batendo sempre a continência, responde "presente"!

E começou a gritar :

- Marechal Mascarenhas de Moraes; Marechal Zenóbio da Costa; Marechal Cândido Mariano Rondon; Marechal Floriano Peixoto; Marechal Deodoro... E desfilou uma cacetada de nomes de milicos de alta patente.

Só aí, enquanto respondia presente, o taxista reparou que o furgão que seguia o carro era uma ambulância do Pinel, o hospício da Praia Vermelha.

Numa manobra arriscada, ligou o alerta, diminuiu a velocidade e parou o carro no acostamento. A ambulância do Pinel encostou atrás, já com uns camaradas saltando com a camisa de força. O doido, aos berros, exigia a presença do chefe do Estado-Maior das tropas inimigas para negociar a rendição.

Passado o susto, o taxista foi comunicado da fuga espetacular que o tantã, que roubara o jaleco de um médico, executou. Na hora de entrar na ambulância, o da pá virada, recomposto e com modos de um perfeito gentleman, disse:

- Minhas escusas, motorista. O ataque frontal das colunas inimigas impede que eu honre agora meus compromissos e pague pelo serviço o preço justo. Decorei, porém, a placa do seu veículo e farei o possível para quitar, em futuro próximo, a dívida que contraí. Fique tranquilo.

Três semanas depois o motorista recebeu pelo correio um envelope com o dinheiro da corrida e uns caraminguás como gorjeta.

A honestidade do lelé da cuca, e repito aqui as palavras do taxista, foi a prova de que o ser humano tem jeito.

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