sexta-feira, 2 de maio de 2014

BARBA

Quando eu era um moleque com o diabo no corpo [apud minha tia Lita], passava uma propaganda da Gillette na televisão que me perturbava profundamente. Um sujeito aparecia em frente ao espelho do banheiro, besuntava creme no rosto e pegava a lâmina para começar a se barbear. Subitamente aparecia, de maneira fantasmagórica, uma loura gostosíssima, daquelas de fechar o comércio. O pedaço de mau caminho acariciava o caboclo por trás, agarrava o cabra pela nuca e dizia, com voz de relações públicas de lupanar da belle époque, algo do tipo:
- Você sabe quem sou eu? Eu sou a Platina da Platinum Plus. É graças a mim que você faz melhor a sua barba.
Era demais para meus dez anos. Comecei a delirar - e tome de cinco contra um - com a possibilidade de encontrar a loura da Platinum Plus em frente ao espelho. Movia-me, inclusive, a convicção de que a boazuda estava pelada. Até então, a única loura que um sujeito da minha idade arriscava encontrar no banheiro era a morta com algodões ensanguentados nas narinas.
Dotado de coragem tamanha, tomei uma daquelas decisões que transformam os meninos em homens: resolvi que era a hora de fazer a minha primeira barba, evidentemente com a lâmina platinum plus. Não tinha ainda um único pêlo no rosto, mas algo me dizia que o momento era aquele.
Juntei uns caraminguás que ganhava para ir ao colégio [cheguei a passar fome] e comprei numa farmácia de esquina meu primeiro aparelho de barbear; uma Gillette Platinum Plus.
Tranquei-me no banheiro. Tive o cuidado de avisar antes pra minha tia Lita :
- Vou demorar muito. Estou com uma dor de barriga terrível.
Emocionado, báculo episcopal ereto, enfiei o creme de barbear do meu avô no rosto, passei o pincel, abri a Gillette e, trêmulo, tive a certeza de que alguma coisa aconteceria. Eu, no mínimo, sentiria a presença da Platina de Platinum Plus.
Foi devastador. Passei o aparelho de forma demasiada, com a fúria de uma vara de javalis. Acho que me inspirei nos aparadores de grama. Era a minha primeira barba, tão escondida quanto a primeira punheta. Por pouco, muito pouco, não retalhei inteiramente meu rosto e precisei de uma plástica. Apavorado diante do sangue que jorrava, abri a porta e pedi socorro. Minha tia e minha avó correram para ver o que tinha ocorrido e lá estava eu, cheio de cortes na carinha de bunda.
As duas resolveram então me inundar com a loção após barba do meu avô - vagabundíssima. Nunca, confesso aos amigos, senti algo arder tanto como aquela loção de cangaceiro no meu rosto. Minha tia, previdente, ainda deu um banho de mertiolate nos cortes para evitar inflamações. Quem se lembra como ardia o mertiolate em antanhos sabe o que isso significa.
Foi um fiasco essa escanhoada inaugural. Tomei verdadeiro horror ao ato de fazer a barba, que desde então me parece de um primitivismo atroz. Não é coisa de gente civilizada.
Ao chegar do trabalho, meu avô soube da lambança e me deu um esporro básico. Com o vô, porém, abri o verbo. Falei da esperança de sentir a carícia da loura fatal e outros salamaleques. Ele entendeu e acho até que se orgulhou da merda que fiz; a causa era nobre.
Algumas pessoas identificam a perda da inocência no momento em que descobrem a inexistência do Papai Noel. Eu pouco me importei quando descobri que o Bom Velhinho era apenas uma conversa mole pra boi dormir e deixar a criançada na ilusão de que a vida é boa.
O que destruiu mesmo minhas fantasias mais inocentes foi saber - de forma dolorosa - que a Platina da Platinum Plus era uma ilusão sem vergonha, fomentada por uma propaganda desonesta. Eu nunca seria atacado no banheiro por uma mulher daquela.
Quero crer que foi ali, no meio do Amazonas de sangue que jorrou no rosto do moleque, que nasceu esse careca barbado que hoje sou.

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