terça-feira, 10 de junho de 2014

A SARAMANDAIZAÇÃO CHACRINIANA E SUCUPIRESCA DO JOGO

Eu já vi coisas no Brasil da rebimboca da parafuseta. O fato de ser nascido e criado num terreiro me fez, desde pequeno, achar que as coisas mais extraordinárias são perfeitamente normais neste extremo ocidente. Cresci na encruzilhada das maravilhas. Vi um curupira incorporado numa dona; vi turista japonês virado no seu Sete Cachoeiras; vi seu Zezé Macumba imitar bode para amarrar time adversário na várzea; cruzei com presunto desovado pelo Mão Branca que, soube  depois, ressuscitou e pediu um chá de macaco; assisti Toninho Itabaiana incorporar o Barão Langsdorff; tive uma tia carola (única católica praticante da família) que deixou expresso em testamento que queria ser enterrada com um bonequinho de seu Tranca Rua; vi um padre parapsicólogo alemão exorcizar um filé de peixe depois de tomar  uns birinaites e ser aplaudido.
 
Não me surpreendem, portanto, as maluquices extraordinárias que já ocorreram na Copa do Mundo, antes mesmo de o certame começar: índios pataxós cantaram parabéns para Miroslav Klose; três pés de cana fizeram Manoel Neuer e Bastien Schweinsteiger gritarem, dando saltinhos, Bahêa! durante o hino do tricolor; baianos foram a um amistoso da Croácia levando toalhas de mesa como bandeiras; um aracnídeo atacou um australiano; um maníaco sacou a peixeira durante o treino da Colômbia.
 
Tem mais. Cinco mil gaúchos, vestidos como se fossem para a Guerra dos Farrapos, receberam a delegação do Equador dançando o "bota aqui o seu pezinho"; um português ciclista, descrito por quem o conhece como completamente maluco, comunicou que vai se atirar de bicicleta na frente do ônibus de Portugal; Arjeen Robin quase se afogou na praia de Ipanema; o bebê Drogbinha invadiu o treino da Costa do Marfim para conhecer Drogba.
 
Não parou aí: Eto´o citou Obina; os mexicanos usaram 99 táxis para ir ao treino em Santos; chilenos trouxeram terra de uma mina soterrada para estimular a seleção; os ingleses esqueceram um jogador trancado no hotel; a Rússia pediu um amistoso e arrumou um jogo contra o Ituano; os croatas perderam a hora do treino porque foram à praia; um mineiro disse que ia envenenar a seleção argentina; hondurenhos resolveram acampar em um cemitério e quase mataram um coveiro de susto; Mário Balotelli, inspirado pelo cenário de Mangaratiba, pediu a namorada em casamento; o cara de pau do tradutor da seleção espanhola revelou finalmente, depois de surtar num coletiva, que tem uma limitação para o trabalho, a de não falar espanhol.
 
Desde já defini este momento como o de "sucupirização saramandaiesca e chacriniana" do padrão FIFA. No meio da venalidade do capo Blatter e seus comparsas, é perfeita a definição do Impedimento, o melhor blog de futebol que conheço. Cito:  Antes mesmo de o torneio começar já temos uns causos tão sensacionais que fazem lembrar que por trás dos cartolas, dos desmandos e das politicagens ainda persistem o futebol e as pessoas.
 
É essa dimensão humana, ponto de viração do mundo, que sempre me interessou. Os que me conhecem sabem que meu olhar é o da fabulação das miudezas; distante das análises sociológicas (não tenho instrumental para fazê-las), das exortações nacionalistas furiosas (não tenho convicção para calçar as chuteiras da pátria), das militâncias diretas contra os canalhas que roubaram o jogo; e posturas similares.
 
Relevem. Cresci na fronteira do extraordinário, conversando com pretos velhos de duzentos anos, malandros do início do século XX, prostitutas sevilhanas assassinadas a facadas que viraram pombagiras no Brasil; bugres combatentes da Guerra do Paraguai, mestres juremeiros e personagens do gênero.
 
Minha avó, quando nasci, entregou-me no meio de uma noite grande aos cuidados da dindinha lua, para que ela cuidasse dos meus passos. É a dindinha (ela nunca me faltou) que ilumina com a luz que não tem as coisas que clareiam o mundo deste que vos digita.

Termino profetizando: em breve, se o ritmo dos acontecimentos continuar assim, teremos algum craque alemão virando na Padilha em alguma arena afrescalhada .

Tomara.
 
 

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