segunda-feira, 2 de junho de 2014

ALTOS!

Várias brincadeiras de criança envolvem algum tipo de perseguição. Penso no pique pega (há quem diga que a brincadeira vem da Idade Média européia, chega ao Brasil com os portugas e é popularizada pelos escravos, simulando no fuzuê a fuga do feitor). Fulano sai correndo atrás dos beltranos com o intuito de pegar alguém. O bocó alcançado troca de função com quem o capturou e passa a correr atrás dos outros. Os perseguidos, entretanto, têm uma alternativa para se safar: pedir altos e sair de fininho.
 
Existem várias maneiras de se pedir altos. Levantar a mão fazendo o V da vitória e anunciar que ninguém pode te pegar é a mais comum. O altos também é conseguido colocando-se em um plano superior em relação ao oponente (a expressão viria daí). É só subir num banco, numa pedra ou pendurar-se num galho de árvore.
 
O altos está para as folganças infantis como o cessar fogo para os conflitos militares. Ao sair da condição, com a bateria recarregada, é hora de meter bronca, engatar a quarta marcha e continuar a brincadeira.
Lembro-me que nos meus tempos de moleque rolava a polêmica no meio de um polícia e ladrão. Sempre havia o cara de pau que dava o migué de pedir altos no momento de ser capturado e saía caminhando como se nem estivesse aí. Começava, então, o clássico diálogo:
 
- Altos!
 
- Que? Não vale!
 
- Vale! Ninguém toca em mim.
 
- Mas eu toquei antes!
 
- Não tocou nem a pau. Eu pedi altos primeiro.
 
Penso nas brincadeiras infantis para defender que todo ser humano tenha o direito de pedir altos de vez em quando. Não há quem aguente os atropelos da vida sem a pausa para o cochilo, a pelada de fim de semana, a roda de samba, a novela, a fofoca de portão, a paquera, o amasso apaixonado, o churrasquinho, o jogo de damas, o bolo de fubá e o chá de macaco no boteco.
 
Somos diariamente espremidos por uma lógica maluca que nos faz trabalhar muito, dormir pouco, mofar em engarrafamentos e não brincar mais. O pique é sério na cidade desencantada. Corremos em círculos para escapar do monstrinho da vida urbana, cheio de braços para nos alcançar, nessa fábrica de insanos movida a antidepressivos e bordoadas diárias. O bicho assusta. Há, porém, uma solução para recuperar o fôlego: vez por outra é bom fazer cara de paisagem e ficar um pouquinho de flozô, passeando nos aros da lua.
 
Quando a angústia do perrengue quer pegar sem piedade, nada melhor que levantar o braço, parar de correr, abrir o sorriso malandro e a cerveja gelada, dar uma banana para os compromissos, chutar o balde dos deveres e dizer para o tempo que escraviza, o trabalho que acorrenta e os chatos que incomodam:
 
- Altos!

 

 

 

Nenhum comentário: