segunda-feira, 23 de junho de 2014

O DIA EM QUE TEIXEIRINHA MATOU CHACRINHA

(Texto publicado na coluna Coisas Nossas, do jornal O Dia, de 22/06/2014)
Em seus primeiros tempos no Rio de Janeiro (era pernambucano de Surubim) Abelardo Barbosa foi locutor de vendas da loja "O Toalheiro".  Descoberto por um diretor da Rádio Clube de Niterói, emissora que tinha como sede uma chácara em Icaraí, comandou um programa de carnaval cujo nome fazia referência ao local de onde era transmitido: O Rei Momo na Chacrinha. A pequena chácara de onde a Rádio Clube transmitia sua programação virou o apelido definitivo de Abelardo.
 
O programa fez sucesso em razão das extravagâncias de Chacrinha, que recebia convidados de toalhas de banho, fraldas e babador. Dependendo da marchinha que estivesse nas paradas, aparecia de árabe, colombina, índio, pirata ou tirolês. Certa feita ameaçou tirar a roupa na frente da atriz Zezé Macedo. A polícia invadiu a chácara para evitar o streaptease. Vêm desta época alguns bordões (Terezinha! Vocês querem bacalhau?) que posteriormente marcaram a atuação de Chacrinha na televisão.
 
Curioso foi o papel exercido pelo comunicador nos anos de chumbo do regime militar. Os críticos do regime acusavam Chacrinha de promover a alienação política das massas, jogando bacalhaus para a platéia, buzinando calouros e divulgando astros da música cafona.
 
O regime, por sua vez, investigou Chacrinha, que prestou esclarecimentos ao departamento de censura federal sobre a acusação de que promovia pornografia barata, expunha mulheres seminuas no palco e fazia macumba ao vivo (referiam-se ao dia em que o exu Seu Sete da Lira baixou no programa, deu passes na plateia e foi entrevistado).
 
Minha história predileta do Chacrinha é dos tempos da rádio. Um dia, enquanto o gaúcho Teixeirinha cantava Coração de Luto, canção popularmente conhecida como “churrasquinho de mãe”, Chacrinha simulou um enfarto sob forte emoção.
 
Boatos sobre a morte de Chacrinha no ar - fulminado pelo impacto da música, que contava a história de uma mãe morta num incêndio na ótica do filho órfão - levaram uma multidão à sede da emissora. O próprio apresentador ligou clandestinamente para uma funerária para que enviassem um caixão para o "comunicador Chacrinha". A confusão terminou com a rádio patrulha levando o menino levado da breca para a delegacia, por subversão da ordem.
 
Chacrinha, como se percebe, fundiu a cuca dos revolucionários de esquerda e dos reacionários de direita. Não era fácil mesmo entender o maluco genial que preferia confundir; velho guerreiro e palhaço do pastoril, síntese ambulante das nossas cafonices bacanas. 

 

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