sábado, 6 de setembro de 2014

DECLARAÇÃO DE VOTO


Já que os amigos insistem numa declaração pública sobre quem eu apoio nessas eleições, resolvi sair do muro: sempre fui e continuarei sendo Emilinha Borba. Não, eu não vivi a Era do Rádio, mas cresci numa família que me deu boas referências musicais; suficientes para que a Favorita da Marinha seja a minha cantora de Carnaval predileta. E a coisa é séria.

Ganhe Dilma ou Marina, é Emilinha que continuará presente em todos os dias da minha vida. Quando menos espero, alguma marchinha que a Emilinha cantou atravessa meu caminho. Exemplifico com uma história curtinha.

Toda vez que subo num avião tenho a firme convicção de que o bicho vai cair. Me preparo para fazer algumas orações aos deuses. Ocorre, porém, estranho fenômeno, daqueles que o sujeito só deveria confessar ao médium de mesa branca depois da morte: invariavelmente, na hora em que tento rezar, esqueço as palavras sagradas e troco o pai nosso, a oração do livro da capa de aço de São Cipriano, o ponto de caboclo, o mantra indiano, pelo refrão :

Se a canoa não virar
Olê Olê Olá
Eu chego lá

Houve uma ocasião em que o bicho pegou. Estava indo à Cuba - missão macumbal - em um avião da Cubana de Aviacion que mais parecia o irmão do meio do 14 Bis. A geringonça, um Antonov de fabricação soviética, era, para usar o termo apropriado, uma banheira. Embarquei motivado por uma quantidade industrial de álcool, que eu não sou trouxa de chegar de cara limpa pro acerto de contas com o Zé Maria.

Mal aquela espécie de carro de boi alado começou a se preparar para a decolagem, veio o sinal de alerta. Problemas no combustível. Saiu todo mundo. Mais bebida, que ninguém é de ferro.

Voltamos ao avião. O piloto, com voz de dublador de filme de vampiro, anunciou uma pane no sistema de refrigeração. Aeromoças que mais pareciam personagens do Almodóvar se entreolhavam. Descemos novamente. Fui tomar um negocinho pra descontrair.

Voltamos ao avião mais uma vez, depois de algumas horas. O clima entre os passageiros era de comoção absoluta. Pairava entre as poltronas a sombra da indesejada das gentes. Uma dona, que tentava manter a calma, sugeriu que os passageiros orassem pelo sucesso da empreitada. Ela mesma puxou um pai nosso e uma ave maria.

Me pareceu, confesso, que aquilo estava mais para extrema-unção coletiva que outra coisa. Em desespero, um cidadão ao meu lado jurou que a velha tinha terminado a reza com um profético "agora é a hora de nossa morte, amém".

Ela perguntou, então, se alguém gostaria de orar representando algum outro credo religioso. Cheio de goró, considerei minha função evocar os orixás, caboclos e encantados. Com o arrojo de um Garrincha deixando o João estatelado, gritei: eu rezo!

Concentrei-me e mandei na lata. Quem disse que saiu alguma rogação? Nem a pau. Como por encanto, da minha boca saíram os versos da Marcha do Remador, cantados, inclusive, com a modificação singela que as torcidas faziam no Maracanã:

Se essa porra não virar
Olê Olê Olá
Eu chego lá!

Subitamente, em completo descontrole e impactado pela lembrança da voz da Emilinha, comecei a pular como se estivesse na matinê do baile do Municipal aos sete anos de idade, cantando a marcha aos berros. Pensam que fui seguido por um coro? Nadica. Pelo contrário. Fracasso absoluto.

A senhora ficou puta dentro da roupa, os passageiros me chamaram de palhaço pra baixo e eu, solitário, encolhido como pinto no ovo, afundei-me na poltrona e fechei os olhos. Um sujeito ao meu lado disse apenas: você tem sérios problemas.

É, talvez tenha. Como acredito, porém, que maiores são os poderes do povo, desisti de lutar contra o que é mais forte que eu. Hoje, se a onça ameaça beber água, não tem pai nosso, ave maria, ponto de macumba, pajelança ou coisa que o valha. Mando logo uma pra dentro em honra do compadre, seguro firme a guia do azulão e digo na lata, caprichando no gogó, a Marcha do Remador.

É que nem São Longuinho, rapaziada. Ninguém leva fé, mas funciona que é uma beleza.


Abraços.