sábado, 13 de setembro de 2014

PÁTRIA

O menino me pergunta o que é a pátria. Fosse numa mesa de cientistas sociais, dissecaríamos o conceito e os perigos que dele emanam. Quem pergunta, todavia, é um menino de calças curtas.  E logo para mim, pouco afeito aos hinos, bandeiras, heróis e fronteiras defendidas.

A pátria, o menino quer saber, é o que me arrepia e pinga de luz incerta a escuridão do mundo. E aí eu digo ao menino que tenho pátria, como não? A pátria é o chão em que piso, a língua que falo e a canção que ouço. O menino entende.

O que fazer, senhores, se fui picado por essa víbora irracional do amor pelo meu chão modesto e sua gente miúda? A minha razão é internacionalista; meu coração, todavia, balança numa redinha da terra da minha avó, lá nos cafundós das Alagoas. O que fazer se escuto ainda os pregoeiros de Caruaru e sinto o cheiro do fumo de rolo, exatamente como da primeira vez que cruzei a feira nos braços do meu pai?

O que fazer se o encanto com os ijexás, o assombros com os transes dos caboclos de pena e as mãos calejadas que seguram a corda de Nossa Senhora de Nazaré produzem em mim a inarredável sensação de pertencimento?

O que fazer quando o repique anuncia a entrada da bateria, quando o sax fraseia Pixinguinha, quando o baque virado dos tambores misteriosos desperta a hora grande, quando o rum vira para Oyá domar o afefé e pairar, soberana entre relâmpagos, sobre o resto do mundo?

Vez por outra desconfio que a humanidade fracassou. Basta, todavia, uma simples canção de Caymmi para que se restaure em mim a espantosa crença na vida. Basta Luiz Gonzaga para que a beleza intangível do fole de Lua me reconcilie com o Espírito do Homem, aquele mesmo que se perdeu na noite que não se acaba.

A minha pátria, bem distante do patriotismo tonto, último reduto dos canalhas, é o delírio que me conforta. É aquilo que ilumina meus olhos, rega meu peito e acaricia as minhas palavras, para que eu conte as histórias que ouvi do meu avô ao meu filho, no contínuo descortinar da vida; arte maior de tremer o chão com o ixan sagrado e reverenciar o mistério intuído dos ancestrais.

A minha pátria, menino, é a Légua Tirana.

 

Nenhum comentário: