sexta-feira, 3 de outubro de 2014

POLÍTICA

Ando convencido faz tempo da necessidade de ao menos ousarmos questionar os modelos ocidentais de interpretação do mundo, aqueles que produzem um radical desencantamento da vida. É disso que falo e escrevo no meu ofício.

Nasci em uma família que cultuava os orixás e encantados. A avó que me criou era uma yalorixá pernambucana radicada no Rio de Janeiro e comandava um terreiro de xambá e encantaria em Nova Iguaçu. Para os que não sabem, o xambá é um culto de origem nagô, como os candomblés da Bahia, fortemente mesclado com elementos bantos e ameríndios.

Cresci no terreiro, fascinado pela dança magnífica dos orixás, impressionado pela imponência dos caboclos e seduzido pelo toque misterioso dos tambores que enchiam de encantamento as minhas madrugadas.

Quando entrei para a faculdade de História, com a arrogância clássica de alguns estudantes das ciências humanas, achei que eu seria capaz de entender o mundo, compreender os anseios do povo e apresentar soluções políticas messiânicas para os males sociais negando o legado da minha avó ( o ópio do povo, ora bolas). Declarei com vigor meu ateísmo.

Um dia reencontrei o toque dos tambores. Mergulhei sem receios, compartilhei da mesa farta das comidas de santo e fui consagrado, sob a condução de Ogum, meu pai, sacerdote de Ifá na tradição afro-caribenha, reestruturando o elo de ancestralidade que a minha velha avó teceu.

Se eu faço política? Claro que sim. Eu faço política quando canto, toco, danço, imolo animais, respeito os mistérios do rio, evoco meus ancestrais na casa de egun e digo aos arrogantes de plantão que cultuo os deuses que atravessaram o Atlântico nos porões imundos dos tumbeiros para inventar a vida onde amiúde ela não poderia existir. Eu faço política quando rezo as folhas e encanto com meu canto a jurema da matas do Brasil.

Orunmilá, o senhor do Ifá, conhecedor dos destinos, determinou que assim fosse. Ogum autorizou. Obatalá é o dono da minha casa - meu ilê. Exu, o compadre, mora na minha varanda, vive na minha esquina e me acompanha nas cervejas e batuques; ele bate comigo palmas ritmadas no compasso do partido alto. É dele, sempre será dele, Exu Odara, o senhor da alegria, o primeiro gole de cada entardecer da minha vida.

E não admito andar de cabeça baixa e nem me envergonhar do legado dos meus ancestrais (quando criança, tive em certa ocasião vergonha de dizer no colégio que era do santo; dessa fala que não saiu da minha boca eu nunca mais esqueci e o silêncio constrangido do menino ainda grita no homem que sou).

Como escrevi dia desses, a minha vida eu mesmo encanto. Ritualizo. Nas encruzilhadas, peço licença ao invisível e sigo, herdeiro miúdo do espírito humano, fazendo do espanto o fio condutor da boa sorte.

Eu, que sou de encruzilhadas, desconfio é das gentes do caminho reto.

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