domingo, 5 de outubro de 2014

ROCINANTE DE PEDAIS


(Texto publicado no jornal O Dia, edição de 05/10/2014)

Dia desses acordei com a disposição de escrever uma daquelas confissões que só cogitava fazer depois de morto, diretamente do beleléu, usando como aparelho um médium de mesa espírita. Admito que a coisa seja impactante: tenho particulares saudades do período do milagre econômico brasileiro, na década de 1970.

 Antes que me acusem de conivência com as barbaridades do regime militar (eu era um moleque que ainda tomava mamadeiras enquanto o pau quebrava), esclareço a razão de minha afetuosa relação com aqueles tempos. Graças ao milagre a minha família teve condições de presentear-me com o meu primeiro e inesquecível veículo: um velotrol de última geração. E o primeiro velotrol, é claro, ninguém esquece.

 Foi com ele, o meu valente Rocinante de pedais, que sonhei atravessar a ponte Rio-Niterói. Nem a pororoca amazônica mostrada no programa do Amaral Neto seria páreo para meu possante vermelho com encosto móvel. Para completar o quadro, ganhei de aniversário imensos óculos escuros iguais aos do Emerson Fittipaldi, um capacete com meu nome e um macacão verde e amarelo de piloto.

 O velotrol estava presente, inclusive, em meus devaneios sentimentais. Era com ele que eu pretendia fugir com minha primeira paixão - a mocinha do Tivoli Parque que se transformava na Konga, a mulher gorila. Quando a mocinha, vestida com um sensual maiô cheio de lantejoulas douradas, fechava os olhos para virar a macaca, meu bilau de menino ensaiava um crescimento similar ao dos índices da economia brasileira. Imaginei um dia colocá-la na garupa do velotrol e me empirulitar pela Transamazônica, para que ela só virasse a Konga para mim e mais ninguém.

 Entre os sonhos românticos com a Konga e a vida de piloto de velocidade, a minha infância corria feliz. João Nogueira louvava o mar das duzentas milhas, Zé Ketti fazia samba para o Mobral, Jorge Ben louvava o país abençoado por Deus, Benito di Paula mostrava ao Charlie Browm as maravilhas da Bahia de Caetano e a Beija Flor desfilava com um samba de exaltação aos milicos.

 Sem desconfiar que o país vivesse anos de chumbo, delirando a vida feliz sem conceber a dor dos porões, eu acreditava mesmo que ninguém segura a juventude do Brasil, ainda mais a bordo de um velotrol mais rápido que o Concorde.

 Noves fora os delírios do menino que fui, hoje é dia de eleição e meu filho ganhou recentemente o primeiro velotrol dele. E que bom saber que, ao contrário do pai, o moleque poderá inventar um mundo encantado em tempos de democracia.

 Bons votos.

 

Um comentário:

Marcos Alvito disse...

S-e-n-s-a-c-i-o-n-a-l, como sempre, aliás.