sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

A CIDADE É O TERREIRO

Ando meio cismado com uma ideia: a cidade do Rio de Janeiro pode ser pensada como um grande terreiro de encantaria, encravado entre a montanha e o mar. Baixam por aqui as falanges ameríndias, européias e africanas (e se bobear dança todo mundo na mesma canjira). De vez em quando, eu diria até que muito frequentemente, os encantados de falanges diferentes saem no cacete e a curimba esquenta. Eventualmente, porém, as entidades se abraçam - e é aí que a gira (a roda ritual bordada pelos tambores) fica mais bonita e os pontos são firmados mais altos.

Os encantados, segundo a tradição, não tiveram morte física. Transmutaram-se em pedras de rio, areias e conchas de praias, troncos de sucupira, cipós de jitiranas, ondas do mar e cumes de montanhas. Imagino, portanto, um Estácio de Sá encantado no Pão de Açúcar, mil tupinambás encantados nas praias da Guanabara e um Zé Pilintra ajuremado numa esquina perto da subida do São Carlos.

Vou mais longe na canjira: Pereira Passos está encantado numa águia daquelas do Theatro Municipal. Cartola ajuremou numa pedrinha miúda da subida do Pendura Saia. Noel encantou-se em alguma garrafa de cerveja, com maestria. Jamelão virou jequitibá do samba. Estão todos por aí, prontos para baixar, dançar, dar conselhos, passes e o escambau. Registre-se que o terreiro também é cheio de encosto de capitão do mato, de fardas e ternos bem cortados, querendo atrapalhar a firmeza do riscado da pemba.

Para entender o Rio de Janeiro, portanto, é necessário compreender e vivenciar as giras dos encantados - e a maior delas é o Carnaval. Para esclarecer melhor: não penso o Carnaval apenas como um fuzuê determinado pelo calendário. Vejo as festas como um conjunto de ritos de inversão onde as relações tensas e intensas entre as diferentes camadas sociais disputam espaços e criam formas de vida. A cidade vira território de afeições e ódios, entre batuques, meneios de corpo, beijos, furtos, comidas e cantos. Morte e vida cariocas.

Como escrevi dia desses, entrudos, corsos, batalhas de confetes e flores, festa da Penha, rodas de capoeira, blocos de arenga, rodas de pernada, ranchos, cordões, grandes sociedades, bailes de mascarados, escolas de samba, onças do Catumbi e caciques de Ramos, dão pistas para se entender como as tensões sociais - disfarçadas ou exacerbadas em festas - bordam as histórias da cidade-terreiro; ou das cidades que formam o grande terreiro.

A festa foi espaço de subversão da cidadania roubada. Inventou-se na rua a cidade negada nos gabinetes. Disciplinar a rua, ordenar o bloco e enquadrar a festa, por sua vez, foi a estratégia do poder instituído na maior parte do tempo. Do embate entre a tensão criadora e as intenções castradoras - e o jogo está longe de terminar - a roda dos encantados continua girando enquanto o coro come.

Daqui, às margens do Maracanã, meu grito: Desce a lenha na curimba, ogã. Bombogiro, meu compadre, o primeiro gole é teu. A canjira, ninguém tasca, é nossa. Simbora rodar!
 

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

NÃO SOU SAMBISTA

Não sou sambista. Essa coisa de chamar o sujeito de sambista é, aliás, complicada. Há quem cante samba, componha, estude, escute. Ser sambista, todavia, é outro papo. O buraco é bem mais embaixo.

Muito mais do que gênero musical ou bailado coreográfico, o samba é elemento de referência de um amplo complexo cultural que dele sai e a ele retorna. No samba vivem saberes que circulam; formas de apropriação do mundo; construção de identidades comunitárias; hábitos cotidianos; jeitos de comer, beber, vestir, enterrar os mortos, celebrar os deuses e louvar os ancestrais.

Há, entretanto, quem se aproprie do samba para submeter sua complexidade aos limites da indústria cultural (incluídos aí os meios de difusão de massa e o carnaval, cada vez mais reduzido ao mero entretenimento; distante da potência de uma festa de reinvenções do mundo pela subversão da vida). O samba, que poderia ser o difusor de uma poderosa economia da cultura, termina limitado pela cultura da economia, aquela que só concebe legitimar a arte pelo valor de mercado e circulação de capitais que ela permite.

Não sou sambista. Também não sou pesquisador do samba. Prefiro me definir como um pescador; fascinado pela dimensão oceânica do batuque que une, na vastidão do Atlântico Negro, praias das áfricas e do Brasil.

Reverente aos mestres das agulhas de marear, lanço no universo do samba minha rede para pescar peixes mais próximos da superfície e saboreá-los, na brasa, entre cervejas geladas e cangebrinas quentes. Com tremoços, por favor.

Não tenho a preparação e a vivência para mergulhos de maior fôlego, aqueles que permitem o acesso às profundidades escuras, como escuros eram os porões dos tumbeiros que cruzaram a calunga grande. Isso é coisa de fundamento.

Humildemente, por isso, venero o samba, pesco meu sustento, manifesto a alegria de viver, educo meu filho e expresso minhas dores em suas águas. Os que reinventaram a vida no escuro – sambistas! – me ensinaram a viver nas claridades bonitas do sol.

Eu apenas presto  reverência e bato cabeça aos que rasparam o fundo do tacho, enquanto atiro ao mar a jangada ligeira e afetuosa de minhas viagens curtas.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

FESTA NA RUA

Em uma cidade como o Rio de Janeiro, com forte presença de descendentes de escravos, as relações entre o carnaval de rua e o poder público foram marcadas, desde o início da República, por tentativas de disciplinar a festa. As camadas populares foram vistas como classes perigosas e suas manifestações culturais, tratadas como coisas de bárbaros. Evitar que a barbárie tomasse as ruas no tríduo era, portanto, fundamental na ótica do poder. Essa postura, não raro, descambava em repressão violenta. Era o cacete comendo e os poderosos colocando água no chope da rapaziada. A cidade, todavia, cantava, cuspia na cara do feitor, dava o nó na caninana e inventava a pequena morte de três dias.
Acontece que o carnaval de rua é Exusíaco (quem tem Exu não precisa de Dioníso) e tem duas características que, com maior ou menor intensidade, prevalecem em qualquer canto do mundo onde um pierrô morra de amores: a espontaneidade do folião e a subversão dos valores sociais e morais vigentes.
O sentido da festa é esse.
Qualquer tentativa de se estabelecer critérios mais rígidos de controle dos foliões deve, portanto, ser vista com cuidado. É compreensível que o poder público busque garantir o mínimo de segurança e ordem urbana ao carnaval de rua. O risco de se comprometer o sentido da folia não pode, porém, ser desprezado.
Qualquer política pública que queira interagir com a festa deve ser pensada por quem conheça o carnaval, saiba da dimensão cultural do furdunço entre nossa gente e reconheça o tênue e perigoso limite entre ordem e repressão, como se a primeira só pudesse ser garantida pela segunda. É função do poder público, e aí ele é importante, ser o fiscal da cláusula pétrea do reino de Momo: ao folião é garantido o direito de se esbaldar em paz, de forma espontânea e original, no meio da multidão ou no bloco do eu sozinho.
O legítimo folião não programa o carnaval, não gasta seus caraminguás em abadás duvidosos e não se isola dentro de cordas. Sabe apenas que vai para a rua imolarse nos blocos e cordões, receber a extrema-unção com água benta de teor alcoólico e morrer até a Quarta-Feira de Cinzas, quando ressuscitará como burocrata, marido, professor ou operário, para o longo e medíocre intervalo entre um carnaval e outro.
Nós temos o direito a essa pequena morte. É ela que torna mais suportável a vida.
Evoé!