segunda-feira, 31 de março de 2014

A PELEJA DE SEU SETE CONTRA O GENERAL

Texto publicado originalmente no jornal O Dia, de 30/03/2014)
 
Conheço poucos fuzuês brasileiros que se comparem ao que acontecia, na década de 1970, em Santíssimo, pertinho de Bangu. Em um galpão transformado em terreiro de umbanda, a médium Cacilda de Assis recebia Seu Sete da Lira, um exu fuzarqueiro e sedutor. Os pontos eram tocados em ritmo de samba, ao som de tambores, pandeiros, chocalhos, cavaquinho e acordeão. Seu Sete, ao lado de dois mil médiuns e de multidões de clientes, aparecia em grande estilo, de cartola, capa, colete, garrafa de marafo na mão e o escambau. Dava passes, cuspia cachaça em todo mundo e atendia o povão, artistas e autoridades.
O sucesso foi tanto que Seu Sete baixou, ao vivo, nos programas do Chacrinha, na TV Globo, e de Flávio Cavalcanti, na TV Tupi. O jornal O Estado de São Paulo (03/09/1971) noticiou o babado da seguinte maneira: “A disputada mãe-de-santo Dona Cacilda de Assis transformou os estúdios da Globo e da Tupi em verdadeiros terreiros de macumba. Embora as apresentações diferissem, o espetáculo em si foi o mesmo: os umbandistas de 'Seu Sete' invadiram o palco (baianas, cantores, pessoas bem vestidas) num tumulto indescritível.”
Os leitores imaginem o furdunço: Chacrinha e Flávio Cavalacanti entrevistavam Seu Sete da Lira enquanto a curimba comia solta. Consta que câmeras, assistentes de palco, chacretes e mulheres da plateia recebiam entidades e davam passes via satélite.
Resultado da brincadeira: Os homens do regime militar interferiram no babado, a Globo e a Tupi tiveram que assinar um acordo de auto-censura e os milicos baixaram um decreto de censura prévia aos programas ao vivo. Criou-se um orgão federal controlador da umbanda e o governo abriu uma sindicância que culminou com o fechamento do terreiro e o fim da carreira de Dona Cacilda, sob acusação de exploração da crendice popular e propaganda do charlatanismo.
Correu à boca miúda que o verdadeiro motivo da cassação do exu teria sido outro. A primeira-dama do país, Cyla Médici, teria rodado na canjira e recebido Seu Sete enquanto assistia ao programa do Chacrinha, chegando a pedir cachaça e dar consultas para os empregados da residência oficial do governo.
Acho, por tudo isso, que os estudiosos da ditadura deveriam incluir o Rei da Lira na lista dos cassados. A dupla dinâmica Seu Sete e Abelardo Chacrinha  foi demais para os sizudos censores e os carrancudos militares. Nem a esquerda, com seus materialismos importados da Europa, entendeu.  O Brasil, todavia, desafiador em suas subversões pela festa, estava inteirinho ali.
 

quarta-feira, 26 de março de 2014

EXUSÍACO E OXALUFÂNICO

Dia desses, matutando no ócio sobre uma aula que dei a respeito da Festa da Penha e as artimanhas de sacralizar o profano e profanar o sagrado, resolvi ensaiar uma traquinagem brasileira: não usarei mais os conceitos de apolíneo e dionisíaco para falar de impulsos fundamentais do homem, ordem e caos, festa e labuta, inversão e controle e outros salamaleques. Para todos os efeitos, utilizarei os conceitos de oxalufânico e exusíaco. Nietzsche, que se tivesse conhecido um babalorixá e raspado o orixá de cabeça resolveria boa parte dos problemas pessoais, aprovaria.
 
Oxalufã é o senhor do pano branco, da paciência, do método, da ordem, da retidão de conduta e do cumprimento rigoroso dos afazeres. Tudo que é contrário a isso representa a negatividade que pode prejudicar seus filhos. Diz um mito do corpo literário de Ifá que, quando se desviou da missão a ser executada e se entregou aos deleites do vinho de palma, Oxalufã quase comprometeu a própria tarefa da criação do mundo. Tomou uma porranca e, por muito pouco, a criação não foi para a cucuia. Em outra ocasião, quando também tentou agir por instinto e teimosia, não seguindo as recomendações do babalaô, Oxalufã foi preso ao fazer uma viagem ao reino de seu filho Xangô, acusado injustamente de furtar o cavalo do Obá. Curtiu uma cana de sete anos por causa disso.
 
A dança de Oxalufã é  alquebrada, solene, marcada pelo ritmo lento e constante do toque do igbin nos atabaques. Apoiado em um cajado sagrado, o opaxorô, coberto por um pano branco, o alá funfun, o grande orixá exige respeito e é reverenciado por todos os outros orixás. Sua propalada lentidão, porém, é apenas aparente, feito o futebol de Ademir da Guia, límpido, clássico, objetivo e sem firulas, na direção inexorável do gol adversário. Quando o rum dobra na batida do aguidavi, Oxalufã mostra o vigor de sua majestade séria.  
 
Seus filhos devem evitar as bebidas alcoólicas, não podem nem chegar perto de cachaça, e são submetidos a uma série de tabus alimentares que envolvem, por exemplo, os alimentos que levam dendê. É a ele, reverente, que ofereço canjica sem sal, peço a ordem para minha casa, dedico a minha comoção silenciosa e guardo o branco nas primeiras sextas-feiras. Oxalufã é, enfim, o maestro de solenidades, que não toca sem partitura e não quer firulas que driblem o rigor bonito e sério do que vai escrito na pauta.
 
Já Exu vive no riscado, na fresta, na casca da lima, malandreando no sincopado, desconversando, subvertendo no arrepiado do tempo, gingando capoeiras no fio da navalha.  Exu é o menino que colheu o mel dos gafanhotos, mamou o leite das donzelas e acertou o pássaro ontem com a pedra que atirou hoje; é o subversivo que, em um verso de Ifá, quando está sentado bate com a cabeça no teto e em pé não atinge sequer a altura do fogareiro. Exu é Jackson do Pandeiro arrastando Sebastiana para o salão e mandando ver nos ipicilones que ninguém supunha. Mavambo, pai do meu filho e irmão do meu pai, é fuzuê nas tabocas. 

Como eu acho, feito o poeta das irrelevâncias, que só não é falso aquilo que o homem inventa, faço dessas brasileirices africanas o meu desfazer do nó do mundo e me proclamo exusíaco e oxalufânico: é assim, galhofeiro como o compadre e sério feito o pai maior, que tento compreender as nossas ritualizações do tempo.
 
Abraços