quarta-feira, 30 de abril de 2014

FESTA DE CAYMMI

Amanhece no Brasil. Deliro yaôs cobrindo com folhas de pitangas o nosso solo fértil, macaia das solidões compartilhadas. Ogãs preparam o balaio das iabás, aquele que será ofertado às moças  na quebrada do sol, onde o mar afaga o céu e o mundo acaba. O presente encontrará seu destino naquela hora em que os valentes sonham, feito o sinhozinho que escuta de Zefa as histórias da coca do mato.
 
Osain preparará um banho com as jinsabas mais cheirosas; Vunji convidará as crianças; Angorô, que é também Oxumarê, inventará improváveis arco-íris; Gongobira encherá de peixinhos coloridos a lagoa de águas escuras, densa como as florestas de onde Odé trará a carne saborosa das caças. O senhor da guerra forjará no ferro em brasa cimitarras, adagas e, sobretudo, ferramentas de inventar o mundo. Um cortejo de cabras, pombas e caramujos precederá o aconchego trazido pelo pano branco de Lemba-Dilê, Obatalá dos Nagôs. Tem amalá no fogo.
 
E soberanamente chegará, ladeado por um cortejo de jangadas, o Criador. O pai de Marina, Adalgisa, Dora, Maurino, Dadá, Zeca, João e Lino. Da morena do mar. O menino travesso das viagens pequenininhas, o boêmio das noites de Copacabana e o ancião que ouviu o canto de Nanã. O homem que respeitou o sono do rio, hora sagrada em que o mundo sossega, os mortos voam e a Mãe D´Água canta.
 
Eu participarei da festa de algum modo, na minha cidade que não é a da Bahia. Há por aqui, todavia, como lá, a memória dos batuques, flechas e fados. Louvo Caymmi, para mim o maior de todos, na terra dos sambas de Noel, choros de Pixinguinha, gols de Zizinho e dribles de Mané. Cidade de amores desvairados, serestas ao luar, rodas de capoeira, cervejas geladas, mãos calejadas, rios imundos, suicídios das putas, fogueiras acesas, copos quebrados, beijos partidos, cantos dos fudidos e passos gingados. A cidade que é dele também, ainda que não tenha 365 igrejas.

E como acontece que eu não sou baiano, ficarei por aqui. Já me escapam das palavras as artimanhas para xaxar com elas, como Jackson fez na Paraíba com os picilones de Sebastiana. Aldir Blanc falou tudo e matou a charada: deságua o Rio na Bahia, o céu abraça a terra e Caymmi, na companhia de Silas, conversa com Oxum. Vou na jangada do poeta da Muda e imagino, no meu canto de mar do mundo, que Dorival receba da Mãe do Ouro o dengo mais faceiro do centenário; um leve afagar das mãos sagradas em seus para sempre veneráveis cabelos brancos.

Mojubá!

quarta-feira, 16 de abril de 2014

O FANTASMA DO LARGO DA SEGUNDA-FEIRA

Pertinho das águas caudalosas do Trapicheiro, na encruza da São Francisco Xavier com o ponto em que a Conde de Bonfim vira Hadocck Lobo, estende-se soberano o Largo da Segunda-Feira.

Ensina o velho Brasil Gérson que ali, em 1762, existia um canavial mequetrefe, herança dos tempos em que os jesuítas ocuparam o pedaço, cortado por um riachinho sobre o qual havia uma ponte. Em certa segunda-feira, ao lado da ponte, mataram um sujeito (coisa de traição à sorrelfa), jogaram a cabeça do presunto, com os olhos furados, nas águas e enterraram o resto do corpo no local. Uma cruz foi erguida para encomendar o defunto (foi retirada em 1880) e o larguinho passou a ser chamado pelo dia do sinistro: da Segunda-Feira.

Considero, por tudo isso, o Largo da Segunda-Feira um ponto ideal para feitiços e mandingas de todos os tipos: encruzilhada, assassinato, defunto enterrado, olhos vazados, cabeça jogada no arroio. É tiro e queda, como diria minha avó.

Dizem que o defunto de nome desconhecido, cujo dia do assassinato nomeou o lugar, vez por outra percorre, às madrugadas cortadas pelo vento que sopra da Floresta da Tijuca, as prateleiras do Mundial, já que a morte não exime ninguém, nem mesmo os desencarnados sem cabeça, de buscar o melhor preço.