domingo, 15 de março de 2015

ENCRUZILHADAS (Publicado no jornal O Dia, em 15/03/2015)

Luís da Câmara Cascudo ensina que as encruzilhadas são lugares de encantamentos para todos os povos.   Basta beber na fonte do conhecimento do mestre para se perceber que as encruzas sempre espantaram e seduziram as mulheres e os homens. E dariam, fica a dica, um ótimo enredo para qualquer escola de samba.
Os gregos e romanos ofertavam a Hécate, a deusa dos mistérios do fogo e da lua nova, oferendas nas encruzilhadas. No Alto Araguaia, era costume indígena oferecer-se comidas propiciatórias para a boa sorte nos entroncamentos de caminhos. O padre José de Anchieta menciona presentes que os tupis ofertavam ao curupira nas encruzilhadas dos atalhos. O profeta Ezequiel viu o rei da Babilônia consultando a sorte numa encruzilhada. Gil Vicente, no Auto das Fadas, conta a história da feiticeira Genebra Pereira, que vivia pelas encruzilhadas evocando o poder feminino.
Para os africanos, o Aluvaiá dos bantos, aquele que os iorubás conhecem como Exu e os fons como Legbá, mora nas encruzas. Conta o povo do Congo que Nzazi imolou em uma encruzilhada um carneiro para fazer, esticando a pele do bicho num tronco oco, Ingoma, o primeiro tambor do mundo.
No universo fabuloso da música, dizem que Robert Johnson, um lenda do blues, negociou a alma com o Tinhoso numa encruzilhada do Mississipi. No Brasil caipira, há mitos sobre a destreza que alguns violeiros conseguiam ao evocar o sobrenatural num cruzamento de caminho.
O violeiro Paulo Freire (músico e  historiador do instrumento) conta que um dos babados era enfiar a mão no buraco de uma parede de taipa de uma igreja deserta, localizada em uma encruzilhada, à meia-noite. Bastava então invocar o Sete Peles e sentir uma mão agarrar e quebrar todos os seus dedos. Após a recuperação das fraturas, o dom para fazer miséria com o instrumento iria aflorar.  Para quebrar o pacto, o violeiro deveria virar devoto de São Gonçalo do Amarante, enfeitar o instrumento com fitas coloridas e mandar o Coisa Ruim de volta às profundas.
O fato é que a humanidade sempre encarou os caminhos cruzados com temor e encantamento. A encruzilhada, afinal, é o lugar das incertezas das veredas e do espanto de se perceber que viver pressupõe o risco das escolhas. Para onde caminhar? A encruzilhada desconforta; esse é o seu fascínio.  
O que posso dizer dessa historia toda é que minha vida eu mesmo encanto. Ritualizo; peço licença ao invisível e sigo, herdeiro miúdo do espírito humano, fazendo do espanto o fio condutor da sorte. Eu, que sou das encruzilhadas, desconfio é das gentes do caminho reto.


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