domingo, 19 de abril de 2015

A VOZ DO BANGU


(Texto publicado no jornal O Dia, de 19/04/2015)

Na última sexta-feira, dia 17 de abril, o Bangu Atlético Clube, o alvirrubro da Zona Oeste, completou 111 anos de serviços prestados ao futebol e ao Rio de Janeiro. Sou daqueles que acham que o bairro de Bangu está para o futebol brasileiro como certa estrebaria de Belém para os cristãos; tudo começou ali. Há referências de que partidas de futebol já eram disputadas em Bangu desde 1894, de forma pioneira no Brasil.
Das inúmeras histórias – épicas, trágicas, engraçadas ou comoventes – que marcam o Bangu, uma das minhas prediletas envolve o empresário zoológico Castor de Andrade, que durante muito tempo bancou o time pelo qual era apaixonado.
Conto o milagre, mas não dou o nome do santo. O sujeito era juiz de futebol e apitava um Bangu e Goytacaz em Moça Bonita. Estádio vazio, final de tarde em uma quarta-feira de sol, a charanga tocando "Maria Sapatão"; tudo nos conformes no Proletário Guilherme da Silveira. O Bangu ganha por um gol e o jogo está perto de acabar. Gilmar, goleiro banguense, enseba na hora de bater um tiro de meta. O árbitro ordena da intermediária:
- Vamos, Gilmar. Não complica. Repõe essa merda.
Diante da demora, Sua Senhoria levanta o amarelo e corre de peito estufado, cartão em riste e cabeleira ao vento, em direção ao goleiro. Nisso ressoa assombrosa, berrada e certeira, a voz do Doutor Castor de Andrade, que assistia ao jogo à beira do campo, na agradável companhia de dois capangas trepados:
- Cartão pra ele não. Ele tem dois e vai ser suspenso, porra. Domingo é contra o Fluminense. Ele não.
O árbitro escuta a voz de dublador de Deus no filme Os Dez Mandamentos (aquele do Cecil B. DeMille) e muda, com destreza, o curso da corrida, partindo em direção ao zagueiro. Não deu certo:
- Esse também não pode! Tem dois.
E Sua Senhoria passa a girar feito caboclo de umbanda em cavalo novo, com o cartão na mão, até parar na frente do lateral esquerdo. Doutor Castor manda de prima:
- Esse pode. Amarela ele, que além de tudo não joga nada.
E assim foi feito. Cartão para o lateral, que entrou nessa de gaiato, como Pilatos no credo e fruta no cardápio do Comida Di Buteco. Aguardava-se apenas a súmula do juiz rodante para saber a razão da advertência.

Precavido, e com grande talento literário, o árbitro não teve dúvidas e escreveu cheio das convicções: “Aos 88 minutos de jogo fui acometido de grave crise de labirintite e comecei a rodar em campo. Ofendido pelo atleta de camisa número 6 do Bangu, que zombou do meu súbito problema de saúde, apliquei a regra e dei ao referido jogador, assim que me recuperei, o cartão amarelo”.

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