domingo, 26 de abril de 2015

FRAGMENTOS DO MENINO

(Texto publicado no jornal O Dia, de 26/04/2015)

Sou daqueles que acham que somos moldados pelos espantos da infância. Trago comigo aqueles impactos que o menino sentiu e reverberam hoje nas implicâncias, delírios, gostos, temores, afetos e dissabores do adulto.

Lembro-me, por exemplo, que nos jogos de futebol eu era daqueles que acreditavam na resposta do balão. Não havia grandes jogos, com o Maraca entupido de gente, em que as torcidas não soltassem balões antes da peleja. Todo torcedor sabia que se o balão passasse da marquise a vitória seria certa. Se o balão lambesse antes de ganhar os céus, a má sorte estava mais que firmada.  O teste do balão era infalível e causava euforia e pânico em quem estava no estádio.  

Fui também um menino impressionado com a estátua do Cristo do Porto das Caixas, que sangrava e realizava prodígios fabulosos. Íamos em família, numa espécie de romaria farofeira que cruzava a Niterói-Manilha, reverenciar a imagem. As dezenas de cabeças, braços e pernas de cera, depositadas numa sala em louvor às graças alcançadas, causavam-me uma mistura de fascínio e temor. Ainda hoje a profusão dos ex-votos me espanta e a tapioca vendida numa barraquinha na entrada da igreja é insuperável.

O Cristo de Porto das Caixas convivia muito bem com as excursões que a umbanda da minha avó realizava a uma cachoeira em Japeri, perto da estação de trens onde o bando do Tião Medonho assaltou o trem pagador. Foi numa curimba na cachoeira que o caboclo Sete Flechas, com autoridade e cocar assombroso, me deu um esporro, entre baforadas de charuto, porque coloquei purgante no café de uma vizinha fofoqueira.

Fui ainda um menino apaixonado pela moça que virava a Konga, a mulher-gorila do parque de diversões. Ela é ainda hoje a minha referência dramática. Nenhuma atriz causou-me mais impacto que aquela moça de maiô cheio de lantejoulas que fechava os olhos e transformava-se em macaca feroz. O bilau do menino crescia enquanto a fera urrava.

Da infância trago, portanto, esse mosaico dos alumbramentos que me acompanham: o tibum na piscina Tone; a consistência do Calcigenol; o medo de encontrar o sujeito da propaganda gritando que ninguém segura o Kalil M. Gebara; a palma da mão cortada pela linha com cerol; o gol de bicicleta na pelada; o primeiro desfile de escola de samba; o primeiro baião que escutei na voz de Luiz Gonzaga; a epifania com um LP do Cartola.

A mesma infância, enfim, que ainda me faz buscar nos céus um balão japonês que vá além das marquises, anunciando as novidades da sorte em um Maracanã que já não há.


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