segunda-feira, 11 de maio de 2015

O DESENCANTO EM CAMPO

Acho que o hino de time de futebol mais bonito da cidade do Rio de Janeiro é o do São Cristovão, composto pelo Lamartine Babo (o mais bonito do mundo é o do Canto do Rio, de Niterói, também obra do Lalá). O hino do São Cri-Cri cita Dom Pedro II, louva a Zona Norte e o escambau.
Confesso, todavia, que escutar o hino do São Cristovão hoje em dia me causa uma melancolia danada em relação ao Rio de Janeiro. A sensação que tenho é a de que a cidade se desencantou. Pode estar melhor ou pior do que era; cada um que tire sua conclusão; o que me parece inquestionável é que ela está desencantada.
(Texto publicado no jornal O Dia, edição de 10/05/2015)

Os clubes de futebol de bairro - como o São Cristovão, Olaria, Bonsucesso, Portuguesa, Bangu, Campo Grande e Madureira - têm uma trajetória muito similar a das escolas de samba. Mais do que times de futebol, eles representavam espaços em que as comunidades dos bairros conviviam, expressavam anseios, festejavam e se integravam em espaços muitas vezes esquecidos pelo poder público. Não tinham a intenção prioritária de conquistar títulos; a vitória maior era simplesmente existir e proporcionar o encontro.
Os desfiles de carnaval chegaram ao ponto em que as alegorias e fantasias se transformam em parafernálias e o componente virou garoto-propaganda do patrocinador; além de coadjuvante do delírio visual de alguns carnavalescos. O futebol se transformou em negócio milionário, controlado por empresários, holdings, etc.
A identificação entre jogador e clube desapareceu e a paixão perdeu espaço para as estratégias de mercado. Os clubes que não apresentam potencial de retorno financeiro e capacidade de projeção na mídia (já que não possuem torcedores, ou melhor, clientes numerosos) correm o risco de acabar ou, quando muito, penar em campeonatos de divisões intermediárias.
 Para quem acha que falo apenas de futebol, aviso que o buraco é mais embaixo: é a vida de bairro que agoniza. Vivemos tempos estranhos, em que é mais fácil o sujeito saber o que está acontecendo em Londres do que descobrir o que ocorre na esquina, na feira, no bairro, no botequim, no açougue e no clube da localidade.
A míngua dos pequenos clubes, como o São Cristovão do lindo hino, é a perda de um modelo civilizatório mais humano, afável, destinado ao festejo e ao compartilhamento da alegria e da dor. Na cidade desencantada, agoniza o cotidiano dividido com o jornaleiro, a rezadeira, o barbeiro, a feirante, o portuga da birosca, o amolador de facas e o velho torcedor; aquele que frequenta sempre, até que morra ele ou o clube, o mesmo lugar na arquibancada.


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