terça-feira, 26 de maio de 2015

O SAMBA CORDIAL?

Recentemente o sociólogo Manuel Castells declarou, com grande repercussão, que a sociedade brasileira não é simpática; é uma sociedade que mata. Concordo em parte, ressaltando que o sociólogo arrematou com uma frase que, para muitos, passou desapercebida: “A sociedade  é bastante má. No Brasil e em todos os outros países”.  Sim, é claro que não é só aqui. A aventura da formação de Estados Nacionais é também – e em larga medida - uma matança e qualquer livro didático de ensino médio mostra isso.

Podemos em outra ocasião discutir os riscos de se quebrar um mito, o do brasileiro naturalmente simpático, para construir outro, o do brasileiro naturalmente violento. Eu já acho a expressão "naturalmente" complicadíssima. Por vício de formação acho que somos mais  históricos que naturais, mas isso é outro papo. Entre a flor e a faca, somos as duas coisas e tudo ao mesmo tempo: afago e porrada, festa e fuzil, Villa-Lobos e delegado Fleury, tortura e canto, horror e festa, roupa branca da libertação em Oxalá e roupa branca da repressão às babás, etc. E temos mesmo que falar sobre isso.

A Alemanha de Bach é a Alemanha de Hitler, a França das luzes é a França do Imperialismo, e por aí vai.  A sociedade brasileira é simpática, antipática, afaga e mata. Puxa a faca e toca a flauta, e a experiência do cativeiro está entranhada ainda em nós, seus algozes ou vítimas diárias. Produzimos beleza e violência (e que tal enfrentar a encrenca de entender a violência, em algumas instâncias, como forma de sociabilidade?). Mas não é isso que quero discutir aqui.

A tirada de Castells que, todavia, me incomodou foi outra: disse ele que “a imagem mítica do brasileiro simpático existe só no samba”. 

Ai, ai, ai. Aí o sociólogo demonstrou que conhece pouco da história do samba, complexa feito o diabo. Ao usá-lo como referência para contestar, justamente, o mito do brasileiro naturalmente afável, colabora para a perpetuação de outro; o do samba carnavalizado como a alegria do povão. Simplificação maior não há.

Neste ponto sou obrigado a dizer que a carnavalização do samba – aquele processo de vinculá-lo apenas ao perfil de música que borda a nossa suposta simpatia – foi e continua sendo em larga medida uma tentativa de domá-lo (seja por parte do Estado, da indústria fonográfica, da mídia, de alguns sambistas, etc.) exatamente, talvez, porque o samba é muito mais complexo e problemático - no sentido de não se domar a análises superficiais - do que isso.

Muito mais do que gênero musical ou bailado coreográfico, o samba é elemento de referência de um amplo complexo cultural que dele sai e a ele retorna, dinamicamente.   Nos sambas vivem saberes que circulam; formas de apropriação do mundo; construção de identidades comunitárias dos que tiveram seus laços associativos quebrados pela escravidão; hábitos cotidianos; jeitos de comer, beber, vestir, enterrar os mortos, amar, matar, celebrar os deuses e louvar os ancestrais. Reduzir o samba ao terreno imaginário onde mora o brasileiro afetuoso é um reducionismo perigoso e em nome da crítica a um mito se reforça outro.

Não custa recordar que o discurso do samba, e de toda a múltipla musicalidade oriunda da diáspora africana, também está no fundamento do tambor, que fala daquilo que nossas gramáticas não nos preparam para ler. O tambor - e são tantos! - vai buscar quem mora longe e isso é muito sério.

O samba - de cara podemos lembrar até da complexidade de experiências que o definem - é testemunho e fonte documental para constatar as nossas contradições poderosas; o nosso horror e as nossas escapadelas pelas frestas da festa. O beijo na cabrocha, o assassinato de Malvadeza Durão, a alvorada no morro, a prisão do Chico Brito que fuma a erva do norte, a ilusão de um olhar, o mulato calado que já matou um e se garante na inexistência do X-9 em Mangueira, os poderes do jongueiro cumba, o batizado do neguinho vestido de anjo em Pirapora, o preconceito racial no casamento do neguinho e da senhorita, as porradas que o delegado Chico Palha enfiava em macumbeiro nos tempos da vadiagem, a navalha no bolso, o revólver como maneira nossa de entrar no século do progresso, a mulher vitimada pela violência, submissa como Amélia, rebelde e altaneira como Gilda; o tiro de misericórdia no menino que cresceu correndo nos becos que nem ratazana e morreu como um cachorro, gemendo feito um porco... Tá tudo no samba.

Falo isso ressaltando que  não sou sambista. Também não sou – a despeito de ter lançado livros sobre o tema – exatamente um  pesquisador do samba.  Prefiro me definir como um pescador; fascinado pela dimensão oceânica dos batuques que unem, na vastidão do Atlântico Negro, praias das áfricas e do Brasil.

Reverente aos mestres das agulhas de marear, lanço no universo do samba minha rede para pescar peixes mais próximos da superfície e saboreá-los, na brasa, entre cervejas geladas e cangebrinas quentes. Não tenho a preparação e a vivência para mergulhos de maior fôlego, aqueles que permitem o acesso às profundidades escuras – como escuros eram os porões dos tumbeiros que cruzaram a calunga grande. Isso é coisa de fundamento. Por isso piso manso antes de falar sobre o samba. Escutemos a fala dos mestres.

Vem daí o meu estranhamento ao perceber que a frase do Castells, solta no meio de uma entrevista, passou batida. Afinal foram os sambistas que me ensinaram, exatamente ao contrário do que ele afirma,  que o brasileiro naturalmente simpático não passa de um mito.


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