sexta-feira, 19 de junho de 2015

BRANCO NA CANJIRA


Recentemente escrevi um texto sobre a pedra lançada contra a menina Kaylanne, adepta do candomblé, que teve alguma repercussão. Por causa dele recebi um pedido complicado, mas não escaparei pela tangente: escrever algo simples sobre a minha experiência de ser branco, criado por uma avó yalorixá, entre o xambá e a encantaria, e ter seguido um caminho até a consagração como babalaô; a partir do meu contato com a religiosidade afro-caribenha.

Não tomem esse depoimento como um texto teórico. Algumas referências, todavia, são necessárias. No livro “Pele negra, máscaras brancas”, Frantz Fanon chama atenção para um fato fundamental: o racismo herdado do colonialismo se manifesta explicitamente - e com mais furor - a partir de características físicas, mas não apenas aí. A discriminação também se estabelece a partir da inferiorização de bens simbólicos daqueles a quem o colonialismo tenta submeter: crenças, danças, comidas, visões de mundo, formas de celebrar a vida, enterrar os mortos, educar as crianças, etc.

O discurso do colonizador europeu em relação ao índio e ao africano consagrou a ideia de que estes seriam naturalmente atrasados, despossuídos de história. Apenas elementos externos a eles – a ciência, o cristianismo, a democracia representativa, a economia de mercado, a escola ocidental, etc. – poderiam inseri-los naquilo que imaginamos ser a história da humanidade. É a tentativa, em suma, de impor um olhar homogêneo sobre o mundo. 

A partir desses pressupostos, vamos aos fatos. É evidente que quando falo em raça não uso o conceito biológico. Penso, e não há novidade nisso, a raça como categoria política-social-cultural historicamente constituída. Em resumo: para a biologia eu pertenço a uma única raça, a humana. A maioria da polícia, todavia, me trata como branco mesmo e não me cria problemas.

A minha posição é, portando, ambígua: eu sou potencial vítima de discriminação naquele segundo sentido que Fanon aborda. Criado numa casa de santo, partilho de bens simbólicos considerados bárbaros ou, na melhor das hipóteses, exóticos. Não sou um simples simpatizante do culto aos orixás (conheço inúmeros simpatizantes e muita gente que gosta de bater um tambor na encolha): tenho meus ritos iniciáticos feitos, sou consagrado ao orixá e, posteriormente, a Orunmilá. Tenho meus igbás em casa e cuido deles. Escrevo sobre isso porque Orunmilá determinou. Não tive a experiência da conversão, já que cresci com essas referências desde o berço. 

Vejamos o outro lado. Se sou um potencial discriminado no sentido dos bens simbólicos que compartilho, do ponto de vista das características físicas sou eu que me encontro na posição do potencial discriminador. Não sou, afinal, apenas filho do tambor. Sou também filho de uma sociedade escravocrata, que naturalizou a violência das senzalas e é marcada até hoje por aquilo que Joaquim Nabuco chamou de obra da escravidão. Dentro de mim – branquinho azedo apelidado de russinho nas peladas de infância - certamente mora um sinhozinho; minha luta é contra ele. Saber que ele existe é fundamental para que, com a espada de Ogum, eu possa ao menos intimidá-lo.  Estou sempre alerta e a tarefa é árdua.

Alguns negros do candomblé – poucos - já me lançaram olhares desconfiados (e acho isso absolutamente compreensível). Muitos brancos já desconfiaram dos meus fios de contas e dos meus dias de vestir branco. Há quem ache que sou um intruso falando de legados que não me pertencem. Há quem ache que sou intelectualmente frágil e não considere o que escrevo porque conheço mais os mitos de Ifá que o cânone ocidental.

Não posso fazer nada além de dar a cara a tapa. Inscrito na História como potencial opressor do ponto de vista físico e potencial oprimido do ponto de vista simbólico, me amparo nas lições de Exu. Inimigo das dualidades e essencialismos, poderoso e brincalhão senhor das encruzilhadas, Bará me guia para que eu viva bem o meu odu: eu escrevo e falo para mostrar que os bens simbólicos e percepções de mundo que chegaram nos tumbeiros, e aqui se reinventaram nas florestas, são os legados que me constituem desde sempre. Por eles eu fui moldado e civilizado. Branco na canjira, é pela gramática dos corpos que dançam ao discurso do tambor que aprendo a mirar, da encruzilhada em que moro, a vida. 

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