terça-feira, 21 de julho de 2015

MACUMBA É RITO E EXU É MATEMÁTICO

MACUMBA

A palavra "macumba" guarda diferentes sentidos. Já escrevi sobre isso, mas é impressionante como o próprio povo da curimba comete um equívoco - um erro básico de etimologia - sobre a expressão macumba. Confundem o instrumento musical com os cultos religiosos. Não aguento mais escutar a frase "macumba na verdade é um instrumento". Para esclarecer: macumba é instrumento e designa também um conjunto de rituais religiosos que bebem na fonte dos complexos culturais bantos. Parece até que o povo tem vergonha de dizer que é macumbeiro. Eu sou macumbeiro e ponto.Tento explicar.
O instrumento macumba designa uma espécie de reco-reco que se toca com duas varetas,uma fazendo o grave e outra o agudo. O termo tem provavel origem no quimbundo "mukumbu"; que significa som. Foi relativamente popular na época dos pioneiros do samba e eu nunca vi um.
Já a macumba como expressão que designa, algumas vezes de forma pejorativa, cultos afro-brasileiros e coisas que o envolvem, gera bons debates. Antenor Nascentes segue Raymundo Jacques (que escreveu a obra de referência "O elemento afro-negro na língua portuguesa", em 1933), e acha que vem do quimbundo "dikumba" - cadeado ou fechadura - referindo-se a cerimônias secretas de fechamento dos corpos. Nei Lopes - profundo conhecedor do assunto - acha que vem do quicongo "kumba"; feiticeiro (o prefixo "ma", no quicongo, forma o plural). Outros estudos indicam que a origem é mesmo essa, como menciona Robert Slenes em seu estudo sobre o jongo. Daí a expressão macumba designar tanto uma espécie de reco-reco como as cerimônias, por exemplo. A etimologia, porém, é distinta nos dois casos: uma deriva do quimbundo e outra do quicongo. Muda tudo.
Para as amizades sentirem como o bicho pega, dou mais um exemplo: kumba no quicongo, como citei, é feiticeiro. Já em umbundo, designa tanto o conjunto de serviçais domésticos como um grupo de familiares que moram num mesmo cercado. Kumbi é sol no quimbundo e gafanhoto no quioco, lingua que também forma o plural com o prefixo ma. Makumbi, portanto, designa um bando de gafanhotos. O complexo cultural banto não é mole.
Povo da curimba, vamos parar de repetir este equívoco. Macumba tanto pode designar o instrumento que ninguém mais conhece (termo de origem quimbundo), como os ritos religiosos (termo de origem quicongo). É nesse sentido que eu uso e afirmo meu pertencimento. Sou da macumba, vou para a macumba, faço macumba e não toco reco-reco.

EXU, O TEÓRICO DA MATEMÁTICA
O meu camarada Marco Carvalho, escritor da pesada, me passou dia desses o liame da ótima entrevista do matemático russo Edward Frenkel ao Globo. Na entrevista, o repórter trava o seguinte diálogo com o matemático:
"- Conte algo que não sei
- Entendíamos que a percepção de tempo é linear: um evento leva a outro. Isso está completamente errado. Experimentos recentes em mecânica quântica mostram que você pode mudar retroativamente o que você observa. De alguma maneira, eventos futuros podem influenciar o passado. Então a noção de tempo é mais sofisticada. A ciência diz isso, não é algo místico."
Acontece que isso que a ciência anda descortinando é coisa que muita gente já sabia, nos arrepiados do mistério, por causa de um oriki iorubá de Exu: Ele acertou o pássaro ontem com a pedra que atirou hoje.
Elegbara deve ter se amarrado na declaração insinuante do russo e pensado, com um gingado sacana, na encruza: eu não disse?
Certa feita escrevi, no texto do livro Pedrinhas Miudinhas em que falo de Xangô e do Círio de Nazaré, o seguinte: “A razão, quando observa a natureza, produz ciência. A poesia, quando faz a mesma coisa, vê deuses e orixás - e esses olhares para mim não se excluem”. É por aí que a minha banda toca.
E assim, ao lado de outras malungas e malungos de jornada, vou tentando mostrar, dentro dos limites do bocadinho que conheço e Ifá determinou, a complexidade de culturas vistas pejorativamente como instintivas, em oposição ao pensamento complexo europeu.
Aliás, chutemos o balde: cultura instintiva é uma ova! Há um repertório complexo e sofisticado de possibilidades de interpretação do mundo, nas fronteiras entre o saber, o espanto e a beleza, se insinuando na nossa cara. Ou continuaremos circulando apenas nos arcabouços teóricos viciados por um pensamento colonizado, mesmo quando se quer libertador?
Laroiê! Ou seria "Laroiovisk", no mais puro russo das esquinas?

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