quarta-feira, 29 de julho de 2015

O BALUARTE E O SAMBA DE FUNDAMENTO: A MENINA DOS OLHOS DE OYÁ

As Escolas de samba surgiram, em larga medida, como instituições associativas de invenção, construção, dinamização e manutenção de identidades comunitárias, redefinidas no Brasil a partir da fragmentação que a diáspora negreira impôs. Cada escola de samba construiu, dentro de um território de referências comuns, elementos próprios de identidade, através das características das baterias, dos sambas-enredo, dos sambas de terreiro, etc.

Não há quem conheça as características identitárias da Estação Primeira de Mangueira como Tantinho, baluarte nascido e criado no morro e compositor consagrado da Verde e Rosa. 

É neste sentido que o samba de Tantinho e parceiros para o Carnaval de 2016 se apresenta como uma obra de identidade mangueirense. Ele escapa da armadilha de encarar a tradição como algo estático e trabalha o legado dos ancestrais de forma dinâmica, que aponta para novas possibilidades.

O samba em questão se estrutura a partir de uma linha melódica típica da Mangueira, adequando a melodia à batida do surdo de primeira e aos desenhos do surdo-mór, que normalmente tem a função de fazer o “corte”, realizando contratempos nos refrãos. Tal característica se evidencia, por exemplo, no trecho "ôô ô ô - abram caminhos pra filha de Dona Canô", com uma construção melódica que nos remete a José Ramos, um dos maiores melodistas da história da agremiação, e talhada para os desenhos do peculiar surdo-mór mangueirense.


É nítido também o diálogo que o samba de Tantinho estabelece com as linhas de composição de outros gigantes da agremiação, como Zagaia, Comprido, Cícero, Pelado, Hélio Turco, Darcy e Jurandir. Percebe-se isso, por exemplo, no recurso de não se deixar grandes espaços entre as frases melódicas, alongando as notas para que a melodia se encaixe com a batida característica dos surdos da escola, e na entrada da segunda parte, que nos remete a sambas marcantes da escola na década de 1960.


A melodia vai praticamente do início ao fim em tonalidade maior (como a grande parte dos melhores sambas mangueirenses), escapando disso apenas em uma pequena passagem no acorde relativo no trecho "seu canto reza”, como a enfatizar sutilmente a introspecção da oração. É a riqueza do detalhe.


Do ponto de vista da letra, Tantinho mais uma vez reinventa a tradição em diálogo constante com ela. Tal fato já se manifesta na opção por uma construção poética mais interpretativa do que descritiva do enredo. À exceção do clássico “O Grande Presidente”, de Padeirinho, os sambas da Mangueira sempre se caracterizaram por uma abordagem mais solta do enredo, não se atendo à narração de fatos e datas. Essa perspectiva interpretativa se apresenta em vários enredos nos quais a escola prestou homenagens a grandes personagens: Gonçalves Dias, Villa-Lobos, Jorge de Lima, Braguinha, Dorival Caymmi, Chico Buarque, Tom Jobim, etc.


Tantinho também utiliza o recurso das rimas emparelhadas, consagrado por grandes compositores da história do samba-enredo (desenvolvido notadamente pelo mestre imperiano Silas de Oliveira em sambas como Aquarela Brasileira e Heróis da Liberdade), e marca de grandes clássicos mangueirenses, como “Exaltação a Villa-Lobos” (1966). Ao invés da previsível e quadrada estrutura das rimas em A/B/A/B, as rimas emparelhadas, com uma estrutura A/A/B/B, garantem mais fluência e maior alternância na abertura e na conclusão das frases melódicas.


O início do samba se estrutura a partir da proposta da escola de abrir o enredo sobre Maria Bethania falando da fé e da religiosidade da artista. Os primeiros versos (Sopra o vento de Iansã / Folhas verdes pelo céu / Cor de rosa da manhã) aludem ao mito iorubá em que os ventos de Iansã espalharam as folhas de Ossain, difundindo assim o segredo das plantas que curam. A Mangueira difundirá a beleza da arte de Bethania. Há ainda a referência ao amanhecer do dia, momento em que a Mangueira entrará na passarela. Vale lembrar que Iansã é a orixá que comanda o amanhecer e o entardecer; os horários em que o céu está rosado.


O trecho seguinte, evocando as baianas com colares e guias, bebe na fonte de José Ramos, ao fazer referência aos versos de “Capital do samba”, um dos maiores hinos de exaltação à escola: “Chegou a capital do samba / dando boa noite com alegria / viemos apresentar o que a Mangueira tem / Mocidade, samba e harmonia / Nossas baianas com seus colares e guias / Até parece que estou na Bahia”. A romaria citada neste ponto da letra estabelece a ligação com as procissões católicas e louvações a Nossa Senhora, elementos presentes no conjunto de devoções brasileiras da artista.


A letra evoca ainda as três mães de Bethania (a orixá-mãe de cabeça Iansã, a mãe carnal Dona Canô e a mãe espiritual Menininha do Gantois).


Depois do refrão do meio, que propõe a mudança do sujeito da narrativa, trazendo Bethania para a avenida, a letra passa a abordar a relação da cantora com duas de suas referências mais importantes: a poesia (a voz morena traz a flor da poesia), e o universo das culturas tradicionais (o Brasil criança das cantigas e o Brasil do voo do carcará – ave sertaneja na lembrança).


A terceira parte da letra introduz a força do Recôncavo, aludido a partir da ancestralidade da “Velha Bahia” (não custa lembrar que é Iansã também que comanda o bailado dos eguns – os espíritos ancestrais). A preparação para o refrão vem expressa nos versos que consagram a força do canto dramático e a evocação a Oxum, orixá de Mãe Menininha – ela borda de ouro a melodia – e homenageiam a artista, com a belíssima referência ao mar de fantasia (o mar baiano, o mar do mundo, o mar verde e rosa no asfalto), e a citação aos pés descalços (maneira como Bethania se apresenta). Tudo desemboca na afirmação do desejo da dupla conquista do Carnaval: o título na avenida e o reconhecimento do público.


O refrão final alude ao samba de roda, com a referência ao mote tradicional “entra na roda, oh Maria”. Na aparente simplicidade da conclusão da obra, Tantinho apresenta uma linha de refrão puxada para o partido-alto; gênero tradicional do samba que guarda relações profundas, em suas características definidoras, com o samba de roda baiano.


Temos um samba, enfim, que encara a tradição mangueirense com a perspectiva da metáfora famosa da árvore dos ancestrais: por ter as raízes mais profundas, é ela que tem os galhos mais altos; por estar sedimentada e revigorada pela profundidade do solo, é ela que aponta para novos horizontes e conquistas. Quem sabe de onde vem, ensinam os mais velhos, normalmente sabe para onde ir.



Nenhum comentário: