segunda-feira, 7 de setembro de 2015

BIRIBA, UM HERÓI DE SETENTA ANOS

Acredito fielmente em desígnios misteriosos e insondáveis. Creio em tudo. Feito o rápido intróito, vamos ao tema de hoje: os poderes sobrenaturais de Biriba, o mascote vira-latas que honrou o Botafogo nas décadas de 1940 e 1950. Como costuma acontecer aos grandes personagens de epopéias, o mito e a história se confundem quando falamos do animal.
A chegada de Biriba ao Glorioso é digna dos maiores romances. Corría o ano de 1948. Penando em um deserto sem conquistas, o Botafogo não sabia o que era um título estadual desde 1935. Biriba morava perto de uma pensão em Copacabana, onde também vivia o zagueiro alvinegro Macaé. O defensor, aliás, era famoso por ter trocado o Botafogo pelo Bahia e marcado três gols contra em seu primeiro prélio com a camisa do tricolor da boa terra. Execrado pelos baianos, Macaé voltou ao Rio.
Um dia, um daqueles dias que marcarão para sempre a história, Macaé resolveu passear em General Severiano com Biriba, durante um jogo entre Botafogo e Bonsucesso. Subitamente, no meio de um ataque alvinegro, Biriba livrou-se de Macaé, invadiu o campo e mijou sem cerimônia em uma das traves do Bonsucesso.
Enquanto o vira-latas tirava a água da patinha, saiu o gol do Botafogo. Foi o suficiente para que Carlito Rocha, o supersticioso presidente botafoguense, descobrisse poderes místicos em Biriba e adotasse o cão como talismã do time. O Botafogo não perdeu mais, chegando mesmo a virar um jogo contra o Olaria depois que Carlito Rocha mandou Macaé soltar Biriba em campo.
Na semana da final do carioca de 48, disputada contra o Vasco, Biriba sofreu um atentado. Algum vascaíno apavorado tentou matar o talismã alvinegro com tiros de espingarda em plena sede de General Severiano. Apesar de Biriba não ter se ferido, o pânico tomou conta de Carlito Rocha e da torcida botafoguense. Boatos davam conta de que padeiros vascaínos pagariam uma fortuna para quem liquidasse Biriba antes do clássico. Os corações botafoguenses latiam.
A decisão de Carlito Rocha foi digna de grandes estadistas. Até a realização da partida, Macaé iria provar toda água e comida oferecidas ao cão. Se Macaé não caísse fulminado, vítima de veneno mortal, Biriba poderia beber e se alimentar com tranquilidade. Macaé cumpriu o seu papel, Biriba entrou em campo com o time e o Botafogo derrotou o Vasco por 3 X 1.
A performance de Biriba foi tão impressionante que levou, pouco depois da decisão de 1948, um delegado paulista a prender o cão, para evitar que o pé de coelho comparecesse a um Botafogo e Corinthians na terra do Borba Gato. Sem Biriba, o time sucumbiu por 2X1.
A trajetória do herói de quatro patas o transformou num dos animais mais significativos da história universal. Biriba pertence ao seleto grupo em que estão o jumento que levou Jesus, Maria e José ao Egito, o golfinho Flipper, o cavalo branco de Napoleão, o boi santo do Padre Cícero e a cadelinha Laika, o primeiro ser vivo a ir ao espaço sideral.
Biriba tinha poderes sobrenaturais. A ele todas as glórias são dispensadas. Assim sendo, ouso encerrar este texto com minha gratidão devota ao Macaé, zagueirão ruim de bola que, entretanto, está na galeria dos heróis botafoguenses.
Acendo minha vela no altar da pátria ao homem que teve o despreendimento de colocar a vida em risco para defender a integridade física de Biriba. Ao experimentar a comida e a água servidas ao imortal vira-latas, Macaé entrou para o time dos raros homens que sabem que de nada vale a existência do indivíduo diante da magnitude maior de uma causa coletiva. Foi ele o verdadeiro herói de 1948.
Lembro, por fim, que Biriba estaria completando setenta anos no próximo dia 14 de setembro. É nosso dever não deixar que a efeméride passe em branco. Viva Biriba!

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