sexta-feira, 4 de setembro de 2015

JOEL RUFINO DOS SANTOS


Eu era um moleque branco azedo (continuo desbotado, mas não sou mais moleque) que queria largar a academia e estudar samba, futebol, rua e macumba. O problema é que não sentia confiança em embarcar nessa canoa. Haja indefinição. Um pequeno gesto, todavia, alterou os rumos da minha vida.

O responsável foi Joel Rufino dos Santos, que nos deixou hoje. A pedido da querida Anita Mantuano (a quem devo muito e é saudade grande), Joel montou um grupo para participar de um encontro cultural em Casimiro de Abreu, falando sobre samba, futebol e educação. Para minha surpresa, Joel disse gostar das coisas que eu andava matutando e me convidou para ser o mascote da turma, ao lado de Nei Lopes, Zizinho (o Mestre Ziza) e Afonsinho.

O Joel confiou no moleque num momento em que eu não botava a menor fé no que fazia e me enfiou entre as cobras criadas. Eu fui em frente. Aquele fim de semana em Casimiro, certamente trivial para os mestres, foi crucial para o aprendiz. Coincidiu com o tempo da morte da minha avó e com a promessa que fiz de falar das histórias dela.

Na semana passada, poucos dias antes de se internar, Joel me chamou para uma conversa, falou da operação no coração e me convidou para coordenar um trabalho - um fuzuê dramatizado e cheio de samba- sobre a Lei do Ventre Livre e os dilemas do processo de abolição da escravatura no Brasil. Ele, em virtude da saúde, não poderia levar adiante o projeto e queria que eu assumisse isso. Me pareceu muito tranquilo e, como sempre, afetuoso. Prometi tocar o barco, agradeci pela confiança de sempre e desejei sorte na operação. Ele não falou nada e nos abraçamos simplesmente. Foi a despedida.

Continuo ciente de que meu trabalho não é tributário de qualquer talento especial (conheço minhas limitações, o tempo amansou vaidades e, por outro lado, não sou mais tão inclemente com as minhas falhas). Ouso dizer, todavia, que duas qualidades me acompanham e são elas que me amparam: eu sou feito profissionalmente de gratidão e esforço. 

Esse relato é apenas um registro simples da história de um homem comum que teve a sorte de encontrar um gigante.

Eu contarei um dia as histórias de Joel Rufino dos Santos para o meu filho.

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