quinta-feira, 15 de outubro de 2015

CULTURAS DE SÍNCOPE

A base rítmica do samba é africana e o seu fundamento – segredo do babado - é a síncope. Sem cair nos meandros da teoria musical, basta dizer que a síncope é uma alteração inesperada no ritmo, causada pelo prolongamento de uma nota emitida em tempo fraco sobre um tempo forte. Na prática a síncope rompe com a constância, quebra a sequência previsível e proporciona uma sensação de vazio que logo é preenchida de forma inesperada.

Digo isso porque ando matutando sobre a necessidade de se pensar uma cultura de síncope (ouso o conceito) contra a tendência de normatização, unificação e planificação dos modos de ser das mulheres e dos homens no mundo contemporâneo. Por mais que alguns botem a boca no trombone, o que se percebe é ainda a apologia ao ser monoétnico. Até mesmo setores progressistas parecem não conseguir superar a ideia da missão civilizadora de cunho iluminista, que deve consistir na generalização do acesso das camadas populares aos padrões de representatividade, consumo e educação sugeridos pelo cânone. Inclusão normativa e domesticada, em suma.

Surpreende-me como esse discurso, muitas vezes revestido de um sincero viés libertador e cheio de boas intenções, é empobrecedor das potencialidades humanas. Educados na lógica normativa, somos incapazes de atentar para as culturas de síncope, aquelas que subvertem ritmos, rompem constâncias, acham soluções imprevisíveis e criam maneiras imaginativas de se preencher o vazio, com corpos, vozes e cantos. O problema é que para reconhecer isso temos que sair do conforto dos sofás epistemológicos e nos lançar na encruzilhada da alteridade, menos como mecanismo de compreensão apenas (normalmente estéril) e mais como vivência compartilhada.

É com essa perspectiva de atenção para os saberes sincopados que retomo o conceito de "Nkubi" para falar de cultura/culturas (entendida como o conjunto de padrões de comportamento, visões de mundo, elaboração de símbolos, crenças, anseios, hábitos, tradições e demais formas de inventar a vida que distinguem determinados grupos sociais.)

Nkubi é uma expressão do quicongo (língua falada pelos bacongos do Congo-Angola) que define um odor forte e estranho na floresta, produzido por várias árvores em flor. O mistério é que cada uma exala um cheiro próprio, ao mesmo tempo em que do florescer em conjunto emana um aroma cruzado novo, agradável para uns e quase repulsivo para outros. Os cheiros brigam, se harmonizam, se anulam, prevalecem, cruzam, somem, saltam, agridem e inebriam. Há quem prenda a respiração, há quem celebre a vida. Cultura é para mim feito floresta em explosão de cheiros; tempo de Nkubi. 

Sigo tentando ver as coisas da guma das encantarias, de onde venho. Nelas busco desconforto, alegria e conceito. Fui educado pelos meus avós dentro de um complexo cultural que envolve práticas não normativas; que alguns chamariam de periféricas.  Faço disso legado porque é vivência; jamais simulacro.

Outros olhares, outras narrativas e outras vivências, fora do cânone, me interessam como experiência vital de ensino e aprendizado. Curiosamente, esse processo se aprofundou quando descobri que tenho glaucoma e constatei que perdi parte da visão periférica. Eu passei a ver mais quando comecei a ver menos. Os tambores sincopados certamente explicam - em suas gramáticas de toques sofisticados que falam sem palavras para que os corpos dancem  - a minha viração.

Eu ando me desiluminando das luzes para seguir, nos escuros, o clarão vital das fogueiras que não se apagam.
 


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