quinta-feira, 12 de novembro de 2015

AS DUAS MORTES DO RIO DOCE

Pai Francelino de Shapanan, Abê Olokun, lembrava lindamente que para o povo do tambor-de-mina o encantado não é o espírito de um humano que morreu; perdeu seu corpo físico.  O encantado é aquele que se transformou, tomou outra feição, nova maneira de ser. Encantou-se em uma nova forma de vida, numa planta, num peixe, num animal, no vento, na folha, num rio.

Exemplifico citando o Maranhão: nas praias do Itaqui, de Olho d´Água e da Ponta d´Areia moram a Princesa Ína, a Rã Preta, e a Menina da Ponta d´Areia. A pedra de Itacolomi é a morada de João da Mata, o Rei da Bandeira. A Praia dos Lençóis é do Rei Sebastião; a Mãe d´Água passeia nas pontas de Mangunça e de Caçacueira. Nas matas de Codó vivem Dom Pedro Angasso e a Rainha Rosa. É lá que Légua Boji Boa comanda as caboclas e os caboclos de sua guma.

Heidegger adorava os Rios, de Hölderlin, sobretudo quando o poeta dizia que o rio peregrina e funda a ideia de natalidade. Pertencimento, em suma. Desta sensação de que pertencemos ao rio e ao lugar por onde o rio passa, e sempre fica, vem a sacralidade dos cursos das águas. Para aquele que Heidegger chama de homem da técnica, todavia, o rio é o objeto presentificado. Serve apenas para ser manipulado objetivamente, em virtude dos interesses materiais concretos dos homens.

O outro rio, o que vela e desvela, o que peregrina e manifesta o sagrado (aquilo que Hölderlin chama de “festa” em que os deuses vêm como convidados) , é detestado pelo homem da técnica; um desencantador por excelência.

Na encruzilhada em que escuto o tambor-de-mina e leio os alemães, concluo que o Rio Doce morreu duplamente. Ele certamente já agonizava em sua condição de rio que funda a natalidade e possibilita, no sagrado, a festa dos deuses.  Agora morreu também como o rio visto objetivamente pela técnica – implacavelmente assassinado pelos próprios homens da técnica.

Desencantado (para alguns) e imprestável (para outros), o Rio Doce já não é. Não tem nem as duas margens da técnica e nem a terceira margem, aquela do encantamento. Ali não moram mais os ajuremados do tambor brasileiro e nem os deuses da festa do poeta alemão. Pelo andar da carruagem, em breve não morarão nem mais as mulheres e os homens. O Rio Doce morreu duas vezes nos últimos dias.

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