quarta-feira, 25 de novembro de 2015

O RIO, A BIBLIOTECA E O TERREIRO QUE JÁ NÃO HÁ

Guardadas as devidas proporções e a amplitude das tragédias, há entre a morte do Rio Doce e o fechamento das bibliotecas-parque no Rio de Janeiro mais similitudes do que aparentemente podemos supor. 
Quando o crime contra o rio aconteceu, escrevi um texto (As duas mortes do Rio Doce) acusando o "homem da técnica" - a expressão é de Heidegger - pelo assassinato. A técnica enxerga o rio como mero objeto presentificado, que serve apenas para ser manipulado objetivamente, em virtude dos interesses materiais concretos dos homens. O rio visto pelo homem da técnica é desencantado. Ele deixa de ser o Danúbio de Hölderlin - um rio que peregrina e funda a ideia de natalidade, além de manifestar o sagrado (aquilo que Hölderlin chama de "festa em que os deuses vêm dançar como convidados"). 
O rio de lamas mata o rio de encantamento. Aqui o Danúbio de Hölderlim se encontra com a encantaria do tambor-de-mina maranhense. O povo do tambor diz que o encante é um fenômeno de transformação do profano em sagrado pelo pleno entrosamento com a natureza, aquele que se manifesta em interação absoluta. O encantado não é o espírito humano que morreu, perdendo seu corpo físico. Ele é aquele que se transformou, tomou outra feição, adquiriu nova maneira de ser. Essa maneira se manifesta em novas formas de vida: o encantado ajuremou-se numa planta, num animal, no vento, na folha, num rio. O encantado é o rio; o rio é o encantado. Entre o profano e o sagrado; a natureza e o homem, já não é possível estabelecer um corte. Os encantados, em algumas ocasiões, tomam os corpos das mulheres e dos homens para passear e conversar com os vivos.
Eu tenho a tendência de encarar bibliotecas (e várias outras coisas) como terreiros de encante. Cervantes encantou-se no Quixote; como João da Mata, o Rei da Bandeira, encantou-se na Pedra de Itacolomi. Machado encantou-se nas páginas do Dom Casmurro. Légua Boji Boa, com a caboclada de sua guma, encantou-se nas matas de Codó.  Carolina Maria de Jesus está no Quarto de Despejo. A Mãe d´Água vive na ponta da Caçacueira.
As bibliotecas-parque, além de tudo, também rompiam com a dicotomia entre o sagrado (o livro) e o profano (a leitora e o leitor). Meu filho pegava um livro para folhear com a naturalidade com que eu abraçava Mariana, a Bela Turca, em um terreiro.  A interação se estabelece pelo tato, pelo toque, pelo corpo que dança e pelo corpo que lê e brinca.
O rio e as bibliotecas são vítimas do desencantamento do mundo. Da mineradora que desencanta os metais de Ogum em armas de morte e do Estado que desencanta as bibliotecas em reengenharias financeiras ditadas pela mesma lógica empresarial, a do capital acumulativo deificado, que matou o rio e desanima (tira a alma) a cidade, o estado e o país.
Minhas percepções de mundo foram forjadas, desde a infância, em terreiros. Encantados, orixás, ajuremadas, desencarnados, caboclas e caboclos, conviveram comigo desde sempre. Enquanto meu filho nascia, eu cantava baixinho pontos do Caboclo Peri e do Seu Tranca-Rua, para que eles assistissem ao nascimento do garoto e cuidassem dele. E eu sei que cuidam. A universidade, em largo sentido, murchou para mim quando não consegui percebê-la como potência de encantamento dos saberes transmitidos e compartilhados, guiada, ela também, pelos homens da técnica. A palavra desencantada me enfada, o verbo desencantado me exaspera e o mundo desencantado me apavora em sua materialidade tacanha, desalentadora e desumana.
Tudo era (e pode ser) terreiro. Nada mais é terreiro. Sem a possibilidade do encante, seremos pra todo sempre aqueles que Fernando Pessoa (ao escrever um poema para Dom Sebastião, um encantado da Praia do Lençol) chamou de cadáveres adiados que procriam: os homens da técnica, vítimas ou algozes, tragados por ela em mar de merda ou dinheiro, e apenas isso. 



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