quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

BAR LUIZ: CRÔNICA DE UMA MORTE ANUNCIADA.

Em 2006 escrevi um trecho afirmando que a cidade do Rio de Janeiro acabaria perdendo o Bar Luiz, fundado em 1887, na rua da Carioca, que dava evidentes sinais de decadência e patinava na administração. Agora soube que o estabelecimento será administrado pela rede que comanda o Belmonte, especializada (a expressão não é minha) em repaginar os botequins e restaurantes cariocas. Continua a nossa sina de cidade nos tempos do desencantamento do mundo; em que os botequins são reformulados por programadores visuais, a rua colonial é asfaltada, o velho sobrado é vendido para a imobiliária, a camisa do time de futebol ganha novo desenho para valorizar a marca do patrocinador, a panificadora vira butique de pães, o açougue vira butique de carnes, a pequena livraria é engolida pela megastore, o cinema de rua vira igreja, o barbeiro da esquina fica obsoleto, a quitanda é engolida por redes de hortifrutis, e o lambe-lambe some da pracinha. Em breve , do jeito que a coisa anda, a pracinha sumirá também. Somos os sacralizadores do carro e os profanadores do Rio. O Carioca morre.
O perverso de tudo isso é que se bobear, anotem, a nova fase do Bar Luiz - instituição carioca com quase 130 anos que dava sinais há tempos de que iria para as cucuias - será anunciada com um baile em que todos estarão a caráter, com roupas do Rio antigo e o escambau. É a tradição não mais como legado que se transmite e renova, mas como a alma do negócio (rompa-se a tradição com o aval dela mesma, em suma). O Bar Luiz continuará recebendo dezenas de amestrados frequentadores em busca de um simulacro do Rio antigo, encherá as burras e é isso que interessa.
Diante dessa notícia, não me comovem os antigos administradores, que devem ter recebido uma grana alta e vinham esculhambando o bar. Só me resta mesmo pensar no cliente tradicional; aquele que, como escrevi certa feita, no fim de tarde cumpria, numa mesa de canto, diante de um chope gelado, um ritual dos tempos do avô de seu avô.
Mas isso é cultura, não enche o caixa do bar ou os cofres das redes, franquias e similares. Em breve ninguém falará mais do caso e plantarão duas ou três notinhas nos jornais elogiando o novo empreendimento. Que o velho frequentador bote a viola no saco, se acostume com um bar repaginado ou procure outro canto para cumprir os rituais cotidianos dos homens comuns.
Eu esperarei por ele, com uma cerveja gelada, um samba no peito e ao lado dos meus camaradas, em algum botequim de esquina, daqueles bem vagabundos, para celebrar nossos avós, chorar um pouco e recriar a vida.