quarta-feira, 27 de maio de 2015

SAMBA DE RODA PARA SÃO COSME

Agora danou-se! Acabei de abrir o email e tive uma alegria que me fez ficar comovido pra dedéu. Um menino de quatorze anos, que não conheço pessoalmente, me mandou uma mensagem linda dizendo que por causa de um texto meu perdeu a vergonha de assumir para as amizades do colégio que é umbandista. Os pais mandaram também um recado comovente. Só me resta abrir uma gelada, pensar que um dia, moleque ainda, também vivi esse dilema de assumir o meu chão diante de olhares desconfiados, e reproduzir o texto que nos proporcionou (ao garoto, aos pais e a mim) essa alegria. Foi escrito em um já distante dia de São Cosme e São Damião. Vai abaixo:
Sou devoto amoroso do Brasil e de seus encantamentos. Nesse ponto, e dou o braço a torcer, quem está certo é o velho compositor baiano: quem é ateu e viu milagres como eu. E nossos milagres, camará, são muitos, temperados por tambores e procissões; pela Virgem no andor, o caboclo na macaia e o preto velho no gongá.
Somos os filhos do mais improvável dos casamentos, entre o meu compadre Exu e a Senhora Aparecida - a prova maior de que o amor funciona. E Tupã, que se vestiu com o cocar mais bonito para a ocasião, celebrou a cerimônia entre a cachaça e a água benta.
Uma das nossas mãos está calejada pelo contato com a corda santa do Círio de Nazaré - a outra tem os calos gerados pelo couro do atabaque que evoca as entidades. As mãos do Brasil e do seu povo.
Nossos ancestrais passeiam pela vastidão da praia sagrada dos índios de Morená, retornam à Aruanda nas noites de lua cheia, silenciam no Orum misterioso das almas e florescem encantados nas folhas da Jurema.
Os guerreiros de nossas tropas trazem a bandeira do Humaitá, o escudo de Ogum e o estandarte da pomba branca do Divino Espírito Santo. A mesma pomba que pousou na ponta do opaxorô de Obatalá. São essas as nossas divisas de guerra e paz; exércitos do Brasil.
E digo isso porque está chegando o dia de Cosme e Damião. Dia brasileiro dos santos estrangeiros e orixás africanos. Dia de igreja aberta, missa campal, terreiro batendo, criança buscando doce, amigos bebendo saudades e aconchegos. Dia de comer caruru na rua.
A tradição brasileira de Cosme e Damião é a mais festiva do mundo. O bom, nessas horas que antecedem as folganças dos santos gêmeos, é vadiar no clima da folia, tomando pinga e ouvindo umas cantigas bonitas sobre os protetores das meninas e meninos.
E como gosto disso! Logo eu, que conversei com Seu Zé, recebi ordens de Seu Tranca Ruas, vi Tupinambá dançar encantado, fui seduzido pela beleza de Mariana e pela saudade de seu navio, temi a presença de Seu Caveira, cantei a delicadeza da pedrinha miudinha, respeitei o cachimbo velho de Pai Joaquim, me emocionei quando Cambinda estremeceu para segurar o touro bravo e amarrar o bicho no mourão. Os meus me entenderão.
É por isso, pelo meu encanto por Yara, pelo temor amoroso ao caboclo Japetequara - veterano bugre do Humaitá - pela reverência aos que correram gira pelo Norte, que me emociono com os santos brasileiros como nós. Por amor ao Brasil, camará! Amor bonito e dedicado, feito o cocar de Sete Flechas e o diadema da sucuri no limiar das luas.
Tenho, enfim, forte desconfiança de que ainda morro um dia de tanta belezura do lugar que é meu - um amor que não se explica, feito cachaça da boa, jabuticaba, sorvete de cupuaçu, beira de rio, gol do meu time, cerveja gelada, mulher amada, amigos do peito e caruru de Cosme.
A hora agora é de bater samba de roda pra Dois-Dois, na palma da mão e no ponteio da tirana. E que no dia de cantar pra subir, um samba de roda desses me carregue ao encontro dos meus pela Noite Grande.


A casa é sua, Dois-Dois, e a minha vida é essa!

terça-feira, 26 de maio de 2015

O SAMBA CORDIAL?

Recentemente o sociólogo Manuel Castells declarou, com grande repercussão, que a sociedade brasileira não é simpática; é uma sociedade que mata. Concordo em parte, ressaltando que o sociólogo arrematou com uma frase que, para muitos, passou desapercebida: “A sociedade  é bastante má. No Brasil e em todos os outros países”.  Sim, é claro que não é só aqui. A aventura da formação de Estados Nacionais é também – e em larga medida - uma matança e qualquer livro didático de ensino médio mostra isso.

Podemos em outra ocasião discutir os riscos de se quebrar um mito, o do brasileiro naturalmente simpático, para construir outro, o do brasileiro naturalmente violento. Eu já acho a expressão "naturalmente" complicadíssima. Por vício de formação acho que somos mais  históricos que naturais, mas isso é outro papo. Entre a flor e a faca, somos as duas coisas e tudo ao mesmo tempo: afago e porrada, festa e fuzil, Villa-Lobos e delegado Fleury, tortura e canto, horror e festa, roupa branca da libertação em Oxalá e roupa branca da repressão às babás, etc. E temos mesmo que falar sobre isso.

A Alemanha de Bach é a Alemanha de Hitler, a França das luzes é a França do Imperialismo, e por aí vai.  A sociedade brasileira é simpática, antipática, afaga e mata. Puxa a faca e toca a flauta, e a experiência do cativeiro está entranhada ainda em nós, seus algozes ou vítimas diárias. Produzimos beleza e violência (e que tal enfrentar a encrenca de entender a violência, em algumas instâncias, como forma de sociabilidade?). Mas não é isso que quero discutir aqui.

A tirada de Castells que, todavia, me incomodou foi outra: disse ele que “a imagem mítica do brasileiro simpático existe só no samba”. 

Ai, ai, ai. Aí o sociólogo demonstrou que conhece pouco da história do samba, complexa feito o diabo. Ao usá-lo como referência para contestar, justamente, o mito do brasileiro naturalmente afável, colabora para a perpetuação de outro; o do samba carnavalizado como a alegria do povão. Simplificação maior não há.

Neste ponto sou obrigado a dizer que a carnavalização do samba – aquele processo de vinculá-lo apenas ao perfil de música que borda a nossa suposta simpatia – foi e continua sendo em larga medida uma tentativa de domá-lo (seja por parte do Estado, da indústria fonográfica, da mídia, de alguns sambistas, etc.) exatamente, talvez, porque o samba é muito mais complexo e problemático - no sentido de não se domar a análises superficiais - do que isso.

Muito mais do que gênero musical ou bailado coreográfico, o samba é elemento de referência de um amplo complexo cultural que dele sai e a ele retorna, dinamicamente.   Nos sambas vivem saberes que circulam; formas de apropriação do mundo; construção de identidades comunitárias dos que tiveram seus laços associativos quebrados pela escravidão; hábitos cotidianos; jeitos de comer, beber, vestir, enterrar os mortos, amar, matar, celebrar os deuses e louvar os ancestrais. Reduzir o samba ao terreno imaginário onde mora o brasileiro afetuoso é um reducionismo perigoso e em nome da crítica a um mito se reforça outro.

Não custa recordar que o discurso do samba, e de toda a múltipla musicalidade oriunda da diáspora africana, também está no fundamento do tambor, que fala daquilo que nossas gramáticas não nos preparam para ler. O tambor - e são tantos! - vai buscar quem mora longe e isso é muito sério.

O samba - de cara podemos lembrar até da complexidade de experiências que o definem - é testemunho e fonte documental para constatar as nossas contradições poderosas; o nosso horror e as nossas escapadelas pelas frestas da festa. O beijo na cabrocha, o assassinato de Malvadeza Durão, a alvorada no morro, a prisão do Chico Brito que fuma a erva do norte, a ilusão de um olhar, o mulato calado que já matou um e se garante na inexistência do X-9 em Mangueira, os poderes do jongueiro cumba, o batizado do neguinho vestido de anjo em Pirapora, o preconceito racial no casamento do neguinho e da senhorita, as porradas que o delegado Chico Palha enfiava em macumbeiro nos tempos da vadiagem, a navalha no bolso, o revólver como maneira nossa de entrar no século do progresso, a mulher vitimada pela violência, submissa como Amélia, rebelde e altaneira como Gilda; o tiro de misericórdia no menino que cresceu correndo nos becos que nem ratazana e morreu como um cachorro, gemendo feito um porco... Tá tudo no samba.

Falo isso ressaltando que  não sou sambista. Também não sou – a despeito de ter lançado livros sobre o tema – exatamente um  pesquisador do samba.  Prefiro me definir como um pescador; fascinado pela dimensão oceânica dos batuques que unem, na vastidão do Atlântico Negro, praias das áfricas e do Brasil.

Reverente aos mestres das agulhas de marear, lanço no universo do samba minha rede para pescar peixes mais próximos da superfície e saboreá-los, na brasa, entre cervejas geladas e cangebrinas quentes. Não tenho a preparação e a vivência para mergulhos de maior fôlego, aqueles que permitem o acesso às profundidades escuras – como escuros eram os porões dos tumbeiros que cruzaram a calunga grande. Isso é coisa de fundamento. Por isso piso manso antes de falar sobre o samba. Escutemos a fala dos mestres.

Vem daí o meu estranhamento ao perceber que a frase do Castells, solta no meio de uma entrevista, passou batida. Afinal foram os sambistas que me ensinaram, exatamente ao contrário do que ele afirma,  que o brasileiro naturalmente simpático não passa de um mito.


segunda-feira, 11 de maio de 2015

O DESENCANTO EM CAMPO

Acho que o hino de time de futebol mais bonito da cidade do Rio de Janeiro é o do São Cristovão, composto pelo Lamartine Babo (o mais bonito do mundo é o do Canto do Rio, de Niterói, também obra do Lalá). O hino do São Cri-Cri cita Dom Pedro II, louva a Zona Norte e o escambau.
Confesso, todavia, que escutar o hino do São Cristovão hoje em dia me causa uma melancolia danada em relação ao Rio de Janeiro. A sensação que tenho é a de que a cidade se desencantou. Pode estar melhor ou pior do que era; cada um que tire sua conclusão; o que me parece inquestionável é que ela está desencantada.
(Texto publicado no jornal O Dia, edição de 10/05/2015)

Os clubes de futebol de bairro - como o São Cristovão, Olaria, Bonsucesso, Portuguesa, Bangu, Campo Grande e Madureira - têm uma trajetória muito similar a das escolas de samba. Mais do que times de futebol, eles representavam espaços em que as comunidades dos bairros conviviam, expressavam anseios, festejavam e se integravam em espaços muitas vezes esquecidos pelo poder público. Não tinham a intenção prioritária de conquistar títulos; a vitória maior era simplesmente existir e proporcionar o encontro.
Os desfiles de carnaval chegaram ao ponto em que as alegorias e fantasias se transformam em parafernálias e o componente virou garoto-propaganda do patrocinador; além de coadjuvante do delírio visual de alguns carnavalescos. O futebol se transformou em negócio milionário, controlado por empresários, holdings, etc.
A identificação entre jogador e clube desapareceu e a paixão perdeu espaço para as estratégias de mercado. Os clubes que não apresentam potencial de retorno financeiro e capacidade de projeção na mídia (já que não possuem torcedores, ou melhor, clientes numerosos) correm o risco de acabar ou, quando muito, penar em campeonatos de divisões intermediárias.
 Para quem acha que falo apenas de futebol, aviso que o buraco é mais embaixo: é a vida de bairro que agoniza. Vivemos tempos estranhos, em que é mais fácil o sujeito saber o que está acontecendo em Londres do que descobrir o que ocorre na esquina, na feira, no bairro, no botequim, no açougue e no clube da localidade.
A míngua dos pequenos clubes, como o São Cristovão do lindo hino, é a perda de um modelo civilizatório mais humano, afável, destinado ao festejo e ao compartilhamento da alegria e da dor. Na cidade desencantada, agoniza o cotidiano dividido com o jornaleiro, a rezadeira, o barbeiro, a feirante, o portuga da birosca, o amolador de facas e o velho torcedor; aquele que frequenta sempre, até que morra ele ou o clube, o mesmo lugar na arquibancada.