quinta-feira, 30 de julho de 2015

O BODE E O MARECHAL

Relato verídico de 2007, que reproduzo atendendo a pedidos de uma amiga do personagem
O homem de imprensa Álvaro Costa e Silva, vulgo Marechal, defende curiosa tese sobre os cemitérios do Rio de Janeiro. Marechal prefere o Caju ao São João Batista, por uma questão de caráter e dignidade pessoal. A opção do meu amigo pelo Caju tem uma origem que, revelo agora , testemunhei . Aos fatos, pois.
Em certa ocasião, Costa e Silva cumpriu a dolorosa tarefa de ir ao enterro de uma figura queridíssima. Destruído pela morte do amigo, Marechal não conseguiu ficar cinco minutos no velório e foi beber umas geladas numa birosca em frente ao Caju. Arregimentou um grupo para a tarefa.
Lá pela décima ampola, Marecha resolveu tirar uma água do joelho. Ao iniciar os procedimentos da mijada, sentiu a presença , ao lado do vaso, de um bode preto, impoluto, silencioso, barba à Pedro II e olhar penetrante. O caprino manjava fixamente o jornalista .
Assustado com a presença do bicho, Marechal concluiu que se tratava de um óbvio fenômeno sobrenatural. O bode era uma aparição, não havia dúvidas. De volta aos trabalhos etílicos, Alvinho comunicou, em sussurrante gaguejar, aos amigos:
- Minha gente. O lugar aqui é sério. Não é pra apavorar ninguém, mas tem um bode preto perto da privada. É o espírito de alguém, não tenho dúvidas.
Intrigadíssimos, os bebuns começaram a ir, um por um para não disseminar o pânico , ao mictório verificar o fenômeno. Cada um que voltava tecia considerações sobre o bode, que de fato lembrava o caprino do Livro de Capa de Aço da Magia de São Cipriano
Alguém sugeriu que um Pai Nosso bem rezado poderia afastar a assombração. Marechal assumiu a tarefa de mandar o bicho de volta ao além. Entrou no banheiro, lembrou dos tempos de congregado mariano, fechou os olhos e mandou ver.
Marecha acabou a oração mais tranquilo, crente que o animal tinha desaparecido. Não funcionou. O bode continuava firme e forte, paradão, com pose de Capricórnio da Revista do Horóscopo da Zora Yonara. Marechal olhou nos olhos do bicho e apelou:
- Vai em paz. Deixa esse mundo, meu velho.
O bode finalmente se manifestou. Deu um berro profundo , longo, aterrorizante, que fez o nosso Marecha sair em desabalada carreira. O bicho foi atrás , enfurecido.
Marechal passou varado pelo salão, gritando, e o bode na cola dele . Atravessaram a rua e entraram pela alameda principal do campo santo, seguidos por uma legião de pinguços e pelo dono do boteco, que bradava em direção ao caprino :
- Volta aqui, Luiz Armando. Volta aqui, Luiz Armando. Quem foi o filho da puta que soltou você. Luiz Armando, porra ...
Marechal escalou , com impressionante agilidade, a sepultura do Barão do Rio Branco e colocou-se em um lugar a salvo do animal. Luiz Armando atendeu aos apelos do dono e acalmou-se, capturado por um coveiro que , diante da pequena multidão que se formara, esclareceu o fato:
- Esse negócio de criar bicho no quintal pra vender pra curimba em porta de cemitério é coisa séria. Tem que ser profissional. Semana passada foi a galinha d´angola que entrou bicando todo mundo num velório.
Após ser resgatado do cume da tumba do Barão (um espetáculo de sepultura - o homem de imprensa garante que conseguiu ver , lá de cima, as praias oceânicas de Niterói) Marechal declarou perante testemunhas - sou uma delas - que o Caju é o único cemitério viável para um carioca.
O episódio do bode Luiz Armando é a prova contundente disso. Concordamos todos e firmamos, ali mesmo, um pacto: o cemitério da Zona Portuária será a nossa derradeira morada.

quarta-feira, 29 de julho de 2015

O BALUARTE E O SAMBA DE FUNDAMENTO: A MENINA DOS OLHOS DE OYÁ

As Escolas de samba surgiram, em larga medida, como instituições associativas de invenção, construção, dinamização e manutenção de identidades comunitárias, redefinidas no Brasil a partir da fragmentação que a diáspora negreira impôs. Cada escola de samba construiu, dentro de um território de referências comuns, elementos próprios de identidade, através das características das baterias, dos sambas-enredo, dos sambas de terreiro, etc.

Não há quem conheça as características identitárias da Estação Primeira de Mangueira como Tantinho, baluarte nascido e criado no morro e compositor consagrado da Verde e Rosa. 

É neste sentido que o samba de Tantinho e parceiros para o Carnaval de 2016 se apresenta como uma obra de identidade mangueirense. Ele escapa da armadilha de encarar a tradição como algo estático e trabalha o legado dos ancestrais de forma dinâmica, que aponta para novas possibilidades.

O samba em questão se estrutura a partir de uma linha melódica típica da Mangueira, adequando a melodia à batida do surdo de primeira e aos desenhos do surdo-mór, que normalmente tem a função de fazer o “corte”, realizando contratempos nos refrãos. Tal característica se evidencia, por exemplo, no trecho "ôô ô ô - abram caminhos pra filha de Dona Canô", com uma construção melódica que nos remete a José Ramos, um dos maiores melodistas da história da agremiação, e talhada para os desenhos do peculiar surdo-mór mangueirense.


É nítido também o diálogo que o samba de Tantinho estabelece com as linhas de composição de outros gigantes da agremiação, como Zagaia, Comprido, Cícero, Pelado, Hélio Turco, Darcy e Jurandir. Percebe-se isso, por exemplo, no recurso de não se deixar grandes espaços entre as frases melódicas, alongando as notas para que a melodia se encaixe com a batida característica dos surdos da escola, e na entrada da segunda parte, que nos remete a sambas marcantes da escola na década de 1960.


A melodia vai praticamente do início ao fim em tonalidade maior (como a grande parte dos melhores sambas mangueirenses), escapando disso apenas em uma pequena passagem no acorde relativo no trecho "seu canto reza”, como a enfatizar sutilmente a introspecção da oração. É a riqueza do detalhe.


Do ponto de vista da letra, Tantinho mais uma vez reinventa a tradição em diálogo constante com ela. Tal fato já se manifesta na opção por uma construção poética mais interpretativa do que descritiva do enredo. À exceção do clássico “O Grande Presidente”, de Padeirinho, os sambas da Mangueira sempre se caracterizaram por uma abordagem mais solta do enredo, não se atendo à narração de fatos e datas. Essa perspectiva interpretativa se apresenta em vários enredos nos quais a escola prestou homenagens a grandes personagens: Gonçalves Dias, Villa-Lobos, Jorge de Lima, Braguinha, Dorival Caymmi, Chico Buarque, Tom Jobim, etc.


Tantinho também utiliza o recurso das rimas emparelhadas, consagrado por grandes compositores da história do samba-enredo (desenvolvido notadamente pelo mestre imperiano Silas de Oliveira em sambas como Aquarela Brasileira e Heróis da Liberdade), e marca de grandes clássicos mangueirenses, como “Exaltação a Villa-Lobos” (1966). Ao invés da previsível e quadrada estrutura das rimas em A/B/A/B, as rimas emparelhadas, com uma estrutura A/A/B/B, garantem mais fluência e maior alternância na abertura e na conclusão das frases melódicas.


O início do samba se estrutura a partir da proposta da escola de abrir o enredo sobre Maria Bethania falando da fé e da religiosidade da artista. Os primeiros versos (Sopra o vento de Iansã / Folhas verdes pelo céu / Cor de rosa da manhã) aludem ao mito iorubá em que os ventos de Iansã espalharam as folhas de Ossain, difundindo assim o segredo das plantas que curam. A Mangueira difundirá a beleza da arte de Bethania. Há ainda a referência ao amanhecer do dia, momento em que a Mangueira entrará na passarela. Vale lembrar que Iansã é a orixá que comanda o amanhecer e o entardecer; os horários em que o céu está rosado.


O trecho seguinte, evocando as baianas com colares e guias, bebe na fonte de José Ramos, ao fazer referência aos versos de “Capital do samba”, um dos maiores hinos de exaltação à escola: “Chegou a capital do samba / dando boa noite com alegria / viemos apresentar o que a Mangueira tem / Mocidade, samba e harmonia / Nossas baianas com seus colares e guias / Até parece que estou na Bahia”. A romaria citada neste ponto da letra estabelece a ligação com as procissões católicas e louvações a Nossa Senhora, elementos presentes no conjunto de devoções brasileiras da artista.


A letra evoca ainda as três mães de Bethania (a orixá-mãe de cabeça Iansã, a mãe carnal Dona Canô e a mãe espiritual Menininha do Gantois).


Depois do refrão do meio, que propõe a mudança do sujeito da narrativa, trazendo Bethania para a avenida, a letra passa a abordar a relação da cantora com duas de suas referências mais importantes: a poesia (a voz morena traz a flor da poesia), e o universo das culturas tradicionais (o Brasil criança das cantigas e o Brasil do voo do carcará – ave sertaneja na lembrança).


A terceira parte da letra introduz a força do Recôncavo, aludido a partir da ancestralidade da “Velha Bahia” (não custa lembrar que é Iansã também que comanda o bailado dos eguns – os espíritos ancestrais). A preparação para o refrão vem expressa nos versos que consagram a força do canto dramático e a evocação a Oxum, orixá de Mãe Menininha – ela borda de ouro a melodia – e homenageiam a artista, com a belíssima referência ao mar de fantasia (o mar baiano, o mar do mundo, o mar verde e rosa no asfalto), e a citação aos pés descalços (maneira como Bethania se apresenta). Tudo desemboca na afirmação do desejo da dupla conquista do Carnaval: o título na avenida e o reconhecimento do público.


O refrão final alude ao samba de roda, com a referência ao mote tradicional “entra na roda, oh Maria”. Na aparente simplicidade da conclusão da obra, Tantinho apresenta uma linha de refrão puxada para o partido-alto; gênero tradicional do samba que guarda relações profundas, em suas características definidoras, com o samba de roda baiano.


Temos um samba, enfim, que encara a tradição mangueirense com a perspectiva da metáfora famosa da árvore dos ancestrais: por ter as raízes mais profundas, é ela que tem os galhos mais altos; por estar sedimentada e revigorada pela profundidade do solo, é ela que aponta para novos horizontes e conquistas. Quem sabe de onde vem, ensinam os mais velhos, normalmente sabe para onde ir.



terça-feira, 21 de julho de 2015

MACUMBA É RITO E EXU É MATEMÁTICO

MACUMBA

A palavra "macumba" guarda diferentes sentidos. Já escrevi sobre isso, mas é impressionante como o próprio povo da curimba comete um equívoco - um erro básico de etimologia - sobre a expressão macumba. Confundem o instrumento musical com os cultos religiosos. Não aguento mais escutar a frase "macumba na verdade é um instrumento". Para esclarecer: macumba é instrumento e designa também um conjunto de rituais religiosos que bebem na fonte dos complexos culturais bantos. Parece até que o povo tem vergonha de dizer que é macumbeiro. Eu sou macumbeiro e ponto.Tento explicar.
O instrumento macumba designa uma espécie de reco-reco que se toca com duas varetas,uma fazendo o grave e outra o agudo. O termo tem provavel origem no quimbundo "mukumbu"; que significa som. Foi relativamente popular na época dos pioneiros do samba e eu nunca vi um.
Já a macumba como expressão que designa, algumas vezes de forma pejorativa, cultos afro-brasileiros e coisas que o envolvem, gera bons debates. Antenor Nascentes segue Raymundo Jacques (que escreveu a obra de referência "O elemento afro-negro na língua portuguesa", em 1933), e acha que vem do quimbundo "dikumba" - cadeado ou fechadura - referindo-se a cerimônias secretas de fechamento dos corpos. Nei Lopes - profundo conhecedor do assunto - acha que vem do quicongo "kumba"; feiticeiro (o prefixo "ma", no quicongo, forma o plural). Outros estudos indicam que a origem é mesmo essa, como menciona Robert Slenes em seu estudo sobre o jongo. Daí a expressão macumba designar tanto uma espécie de reco-reco como as cerimônias, por exemplo. A etimologia, porém, é distinta nos dois casos: uma deriva do quimbundo e outra do quicongo. Muda tudo.
Para as amizades sentirem como o bicho pega, dou mais um exemplo: kumba no quicongo, como citei, é feiticeiro. Já em umbundo, designa tanto o conjunto de serviçais domésticos como um grupo de familiares que moram num mesmo cercado. Kumbi é sol no quimbundo e gafanhoto no quioco, lingua que também forma o plural com o prefixo ma. Makumbi, portanto, designa um bando de gafanhotos. O complexo cultural banto não é mole.
Povo da curimba, vamos parar de repetir este equívoco. Macumba tanto pode designar o instrumento que ninguém mais conhece (termo de origem quimbundo), como os ritos religiosos (termo de origem quicongo). É nesse sentido que eu uso e afirmo meu pertencimento. Sou da macumba, vou para a macumba, faço macumba e não toco reco-reco.

EXU, O TEÓRICO DA MATEMÁTICA
O meu camarada Marco Carvalho, escritor da pesada, me passou dia desses o liame da ótima entrevista do matemático russo Edward Frenkel ao Globo. Na entrevista, o repórter trava o seguinte diálogo com o matemático:
"- Conte algo que não sei
- Entendíamos que a percepção de tempo é linear: um evento leva a outro. Isso está completamente errado. Experimentos recentes em mecânica quântica mostram que você pode mudar retroativamente o que você observa. De alguma maneira, eventos futuros podem influenciar o passado. Então a noção de tempo é mais sofisticada. A ciência diz isso, não é algo místico."
Acontece que isso que a ciência anda descortinando é coisa que muita gente já sabia, nos arrepiados do mistério, por causa de um oriki iorubá de Exu: Ele acertou o pássaro ontem com a pedra que atirou hoje.
Elegbara deve ter se amarrado na declaração insinuante do russo e pensado, com um gingado sacana, na encruza: eu não disse?
Certa feita escrevi, no texto do livro Pedrinhas Miudinhas em que falo de Xangô e do Círio de Nazaré, o seguinte: “A razão, quando observa a natureza, produz ciência. A poesia, quando faz a mesma coisa, vê deuses e orixás - e esses olhares para mim não se excluem”. É por aí que a minha banda toca.
E assim, ao lado de outras malungas e malungos de jornada, vou tentando mostrar, dentro dos limites do bocadinho que conheço e Ifá determinou, a complexidade de culturas vistas pejorativamente como instintivas, em oposição ao pensamento complexo europeu.
Aliás, chutemos o balde: cultura instintiva é uma ova! Há um repertório complexo e sofisticado de possibilidades de interpretação do mundo, nas fronteiras entre o saber, o espanto e a beleza, se insinuando na nossa cara. Ou continuaremos circulando apenas nos arcabouços teóricos viciados por um pensamento colonizado, mesmo quando se quer libertador?
Laroiê! Ou seria "Laroiovisk", no mais puro russo das esquinas?