sábado, 26 de setembro de 2015

SOBRE IBEJI, COSME E DAMIÃO, COM DOUM SE METENDO NA PARADA

Wo mi mo mejeeji fi gbe. Enikan kii fowo kan gbe ibeji (Eu carrego os gêmeos com as duas mãos. Ninguem pode carregar Ibeji com uma mão só)
O dia das crianças no Brasil, 12 de outubro, foi criado em 1924, em projeto de lei proposto pela Câmara Federal e sancionado pelo presidente Arthur Bernardes. A data foi ignorada por mais de três décadas.
Em 1960, uma fábrica de brinquedos aliou-se a uma multinacional de produtos de higiene para crianças e promoveu a “Semana do Bebê Robusto”, com incentivos de propaganda para troca de presentes e concurso de beleza infantil. Com o sucesso da empreitada, fabricantes de brinquedos resolveram divulgar o dia das crianças como uma data com potencial para aquecer as vendas.
No calendário de afetos de muitos brasileiros, todavia, a festa das crianças é a de Cosme e Damião, os médicos anargiros (inimigos do dinheiro, já que não cobravam consultas) martirizados durante a perseguição aos cristãos na antiguidade.
Aqui ocorreu o encontro entre os santos gêmeos do catolicismo e Ibeji – o orixá dos iorubás que protege as crianças e representa os mistérios das dualidades que, sem se anular, se integram. O sincretismo entre os santos católicos e o orixá africano (encaro o sincretismo aqui mais como acréscimo de força vital que como disfarce para permitir o culto) transformou Cosme e Damião nos donos de todos os doces e carurus. Festa de Dois-Dois.

A coisa virou pertencimento nosso e no Brasil até Doum apareceu. Entre os iorubás da Nigéria, quando nascem gêmeos, a primeira criança gerada recebe o nome de Taiwo; a segunda é chamada de Kehinde. Idowu é o nome dado à criança que nasce após o parto de gêmeos. A etimologia é incerta. É possível que o nome venha de owú, ciúme em iorubá (Vivaldo da Costa Lima sugere isso no precioso ensaio "O culto aos santos gêmeos no Brasil e na África"). Idowu seria o pestinha com ciúme dos irmãos mais velhos. Por aqui, o irmão mais novo dos gêmeos africanos virou Doum e passou também a ser cultuado, especialmente nos terreiros de umbanda.
A festa das crianças também é repleta de sabores. Além da tradicional distribuição de doces, que muitas vezes ocorre em virtude de promessas feitas aos gêmeos, há ainda o caruru dos meninos, profundamente marcado por fundamentos da religiosidade afro-ameríndia.
O caruru (prato de origem indígena que se africanizou no Brasil e abrasileirou-se nas áfricas) deve ser ofertado no dia de Cosme e Damião inicialmente a sete crianças. Encontra vínculo simbólico, desta forma, com o ekuru (bolinho de feijão), a comida ofertada ao orixá Ibeji. Manuel Querino, em seu ensaio “Arte Culinária na Bahia”, dá a receita do ekuru de Ibeji dos candomblés tradicionais: “Preparado com feijão fradinho, como se faz com o acarajé, coloca-se pequena quantidade em folha de bananeira à maneira do acaçá, cozinha-se em banho-maria, isto é sobre gravetos colocados no interior de uma panela com água. Depois de pronta, a massa é diluída em mel de abelhas ou num pouco de azeite de cheiro com sal”.

William Bascom, no Yoruba Food and Cooking, descreve a receita que recolheu na Nigéria: “Feijões de qualquer tipo, mas preferencialmente o erê, posto de molho numa gamela com água. Tirar a casca quando mole. Joga-se fora o excesso da água e deixa-se descansar os feijões descascados, por duas ou três horas, até ficar bem macio. São então ralados na pedra e feitos em bolas, amaciados com água e enrolados em folhas, e cozidos em vapor d´água”.
Alguns terreiros preparam o ekuru com feijão fradinho ralado, cebola e camarão. O acepipe é cozido em banho-maria e enrolado em folhas de bananeira. Antônio Olinto e Costa Lima registraram, em suas andanças pela África, que o ekuru, entre os iorubás, representa a multiplicidade de filhos, pela quantidade de feijão utilizada, desejada numa casa nagô.
Gosto muito do oriki de Ibeji que escolhi para abrir este texto. Wo mi mo mejeeji fi gbe. Enikan kii fowo kan gbe Ibeji. Em tradução livre: Eu carrego os gêmeos com as duas mãos. Ninguém pode carregar Ibeji com uma mão só. Diz Ifá que Ibeji nos ensina a necessidade de se assumir tarefas, reconhecer responsabilidades e limites e compartilhar o peso - e as imensas alegrias - do mundo. 



quarta-feira, 16 de setembro de 2015

EXILADO NA ALDEIA

Nunca encarei o futebol como um mero espetáculo, uma brincadeira, um jogo ou uma guerra; ele pode ser tudo isso e muito mais. Futebol no Brasil é cultura, faz parte de um campo de elaboração de símbolos, projeções de vida, construção de laços de coesão social, afirmação identitária e tensão criadora. Nossas maneiras de jogar bola e assistir aos jogos dizem muito sobre as contradições, violências, alegrias, tragédias, festas e dores que nos constituíram. A mesmíssima coisa vale para a cultura dos botequins e das escolas de samba. O problema é que não ando vendo muitas razões para otimismos.

O processo de falência do futebol e do botequim como cultura reduz o jogo e a ida ao bar aos patamares de meros eventos; para delírio das caravanas que parecem percorrer os bares com a curiosidade dos antigos imperialistas em incursões civilizadoras e dos espectadores que ficam fazendo selfies em estádios de futebol enquanto a bola rola. Me espanta ainda como isso se reflete no vocabulário, que perde as características peculiares do torcedor e do bebum (o correto agora é chamar de "butequeiro") e se adequa ao padrão aparentemente neutro do jargão empresarial.


O craque se transforma em "jogador diferenciado", o reserva é a "peça de reposição", o passe vira "assistência", o campo é a "arena multiuso" e o torcedor é o "espectador". Ir ao bar virou "butecar" e agora temos "lascas", "reduções", "camas de rúcula", "confit", "toques cítricos" e outros salamaleques semânticos, que os velhos frequentadores de biroscas jamais saberão do que se trata. 

Ando agora sabendo dos food-trucks. Por enquanto é mais uma novidade que me parece com cheiro de truque matreiro de intervenção nas ruas, com recorte higienizador.  Em última análise, essas novidades se sustentam em discursos de ordenação urbana que, normalmente, desconsideram articulações locais. Oxalá eu esteja errado.

Eu fico na minha. Sedimentei a alma suburbana, alumbrada pelos contornos  da cidade e regada pelas ampolas geladas feito cu de foca. Sinto-me hoje tão distante das mesuras elegantes dos sofisticados, da maneira descolada dos meninos e meninas da tal de carioquice, quanto um pinguim pode se sentir distante do verão de Teresina. Só para constar: falo de um subúrbio carioca que não é geografia. Ele pode estar no Cachambi e em Ipanema.

A minha pátria é um gole de cerveja para comemorar um gol; coisas capazes de aconchegar um homem no seu quinhão de mundo; aquele que lhe é pertencimento. Eu só não quero me sentir exilado na minha própria aldeia.

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

TUNA, TUNA, TUNA!

Licínio, Setenta, Cinco, Aldomário e Pellado ; Setenta e Sete e Lulu; Conega, Jango, Pitoca e Patesko. Esse é o imortal esquadrão da Tuna Luso Brasileira que conquistou de forma invicta, derrotando na final o Paysandu por 2 x 1, o campeonato paraense de futebol de 1937 - o primeiro na história da equipe da cruz de malta.

A Tuna Luso Brasileira, na verdade, ainda não se chamava assim naquele ano em que Getúlio Vargas deu o golpe do Estado Novo. A agremiação, fundada por vinte e um portugueses no primeiro dia do ano de 1903, chamava-se originalmente Tuna Luso Caixeiral (os da terrinha eram todos caixeiros viajantes que gostavam de se reunir para tomar vinho e cantar músicas portuguesas para seduzir as morenas paraenses). Manuel Nunes da Silva, o líder dos caixeiros, teve a ideia de fundar o grupo quando da visita do cruzador português Dom Carlos à cidade de Belém.

Em 1915, por iniciativa do portuga Francisco Vasquez, a Tuna passou a ter um time de futebol. No mesmo ano a equipe ganhou o primeiro troféu. A colônia portuguesa de Belém preparou uma rega-bofe dos grandes para festejar o 5 de outubro, aniversário da proclamação da República de Portugal. A pândega foi boa e a festa teve como momento maior um jogo entre a Tuna e o Grêmio Luzitano, que acabou 1 x 0 para os caixeiros cantores.

Dizem os portugueses da velha guarda de Belém que o maior feito da história da Tuna foi ganhar o torneio Rainha Guilhermina, em 1949 ( com o nome de Tuna Luso Comercial). Vejam vocês se não é mesmo para se gabar. A Rainha Guilhermina, da Holanda, foi visitar o Suriname; ocasião propícia para a realização de um torneio em homenagem à velha. A Tuna foi convidada para representar o futebol do norte do Brasil.

A Tuna disputou o certame contra times da Holanda, das Guianas e a Seleção do Suriname. Os luso-paraenses fizeram uma campanha arrasadora: sapecaram os holandeses do M.V.V. por 4 X 1; ganharam do selecionado do Suriname por 2X0; e do Robin Hood, potência do futebol das Guianas, por 3 x 1.

Ofendidíssimo com a derrota, o escrete do Suriname exigiu revanche. O jogo se transformou em uma questão de estado. Pressionada por uma multidão e enfrentando uma arbitragem criminosa, a Tuna arrancou um empate de 1 x 1 e ficou com a taça. A linha de meio do time daquele ano é uma das maiores da história do futebol do Pará: Nonato, Biroba, Juvenil, China e Palito ( experimentem recitar essa linha em voz alta, fazendo breve pausa após Juvenil. É quase um verso alexandrino).

Enfim, camaradas, nesses tempos em que o futebol-empresa - o estranho jogo gourmetizado praticado em arenas assépticas -  ameaça a sobrevivência de agremiações tradicionais do esporte canarinho, ergo minha taça de vinho do Porto em homenagem aos caixeiros viajantes que, ao criar a Tuna Luso, perceberam de fato o que interessa nessa vida: a música, o futebol, a festa e o amor pela aldeia.

BIRIBA, UM HERÓI DE SETENTA ANOS

Acredito fielmente em desígnios misteriosos e insondáveis. Creio em tudo. Feito o rápido intróito, vamos ao tema de hoje: os poderes sobrenaturais de Biriba, o mascote vira-latas que honrou o Botafogo nas décadas de 1940 e 1950. Como costuma acontecer aos grandes personagens de epopéias, o mito e a história se confundem quando falamos do animal.
A chegada de Biriba ao Glorioso é digna dos maiores romances. Corría o ano de 1948. Penando em um deserto sem conquistas, o Botafogo não sabia o que era um título estadual desde 1935. Biriba morava perto de uma pensão em Copacabana, onde também vivia o zagueiro alvinegro Macaé. O defensor, aliás, era famoso por ter trocado o Botafogo pelo Bahia e marcado três gols contra em seu primeiro prélio com a camisa do tricolor da boa terra. Execrado pelos baianos, Macaé voltou ao Rio.
Um dia, um daqueles dias que marcarão para sempre a história, Macaé resolveu passear em General Severiano com Biriba, durante um jogo entre Botafogo e Bonsucesso. Subitamente, no meio de um ataque alvinegro, Biriba livrou-se de Macaé, invadiu o campo e mijou sem cerimônia em uma das traves do Bonsucesso.
Enquanto o vira-latas tirava a água da patinha, saiu o gol do Botafogo. Foi o suficiente para que Carlito Rocha, o supersticioso presidente botafoguense, descobrisse poderes místicos em Biriba e adotasse o cão como talismã do time. O Botafogo não perdeu mais, chegando mesmo a virar um jogo contra o Olaria depois que Carlito Rocha mandou Macaé soltar Biriba em campo.
Na semana da final do carioca de 48, disputada contra o Vasco, Biriba sofreu um atentado. Algum vascaíno apavorado tentou matar o talismã alvinegro com tiros de espingarda em plena sede de General Severiano. Apesar de Biriba não ter se ferido, o pânico tomou conta de Carlito Rocha e da torcida botafoguense. Boatos davam conta de que padeiros vascaínos pagariam uma fortuna para quem liquidasse Biriba antes do clássico. Os corações botafoguenses latiam.
A decisão de Carlito Rocha foi digna de grandes estadistas. Até a realização da partida, Macaé iria provar toda água e comida oferecidas ao cão. Se Macaé não caísse fulminado, vítima de veneno mortal, Biriba poderia beber e se alimentar com tranquilidade. Macaé cumpriu o seu papel, Biriba entrou em campo com o time e o Botafogo derrotou o Vasco por 3 X 1.
A performance de Biriba foi tão impressionante que levou, pouco depois da decisão de 1948, um delegado paulista a prender o cão, para evitar que o pé de coelho comparecesse a um Botafogo e Corinthians na terra do Borba Gato. Sem Biriba, o time sucumbiu por 2X1.
A trajetória do herói de quatro patas o transformou num dos animais mais significativos da história universal. Biriba pertence ao seleto grupo em que estão o jumento que levou Jesus, Maria e José ao Egito, o golfinho Flipper, o cavalo branco de Napoleão, o boi santo do Padre Cícero e a cadelinha Laika, o primeiro ser vivo a ir ao espaço sideral.
Biriba tinha poderes sobrenaturais. A ele todas as glórias são dispensadas. Assim sendo, ouso encerrar este texto com minha gratidão devota ao Macaé, zagueirão ruim de bola que, entretanto, está na galeria dos heróis botafoguenses.
Acendo minha vela no altar da pátria ao homem que teve o despreendimento de colocar a vida em risco para defender a integridade física de Biriba. Ao experimentar a comida e a água servidas ao imortal vira-latas, Macaé entrou para o time dos raros homens que sabem que de nada vale a existência do indivíduo diante da magnitude maior de uma causa coletiva. Foi ele o verdadeiro herói de 1948.
Lembro, por fim, que Biriba estaria completando setenta anos no próximo dia 14 de setembro. É nosso dever não deixar que a efeméride passe em branco. Viva Biriba!

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

JOEL RUFINO DOS SANTOS


Eu era um moleque branco azedo (continuo desbotado, mas não sou mais moleque) que queria largar a academia e estudar samba, futebol, rua e macumba. O problema é que não sentia confiança em embarcar nessa canoa. Haja indefinição. Um pequeno gesto, todavia, alterou os rumos da minha vida.

O responsável foi Joel Rufino dos Santos, que nos deixou hoje. A pedido da querida Anita Mantuano (a quem devo muito e é saudade grande), Joel montou um grupo para participar de um encontro cultural em Casimiro de Abreu, falando sobre samba, futebol e educação. Para minha surpresa, Joel disse gostar das coisas que eu andava matutando e me convidou para ser o mascote da turma, ao lado de Nei Lopes, Zizinho (o Mestre Ziza) e Afonsinho.

O Joel confiou no moleque num momento em que eu não botava a menor fé no que fazia e me enfiou entre as cobras criadas. Eu fui em frente. Aquele fim de semana em Casimiro, certamente trivial para os mestres, foi crucial para o aprendiz. Coincidiu com o tempo da morte da minha avó e com a promessa que fiz de falar das histórias dela.

Na semana passada, poucos dias antes de se internar, Joel me chamou para uma conversa, falou da operação no coração e me convidou para coordenar um trabalho - um fuzuê dramatizado e cheio de samba- sobre a Lei do Ventre Livre e os dilemas do processo de abolição da escravatura no Brasil. Ele, em virtude da saúde, não poderia levar adiante o projeto e queria que eu assumisse isso. Me pareceu muito tranquilo e, como sempre, afetuoso. Prometi tocar o barco, agradeci pela confiança de sempre e desejei sorte na operação. Ele não falou nada e nos abraçamos simplesmente. Foi a despedida.

Continuo ciente de que meu trabalho não é tributário de qualquer talento especial (conheço minhas limitações, o tempo amansou vaidades e, por outro lado, não sou mais tão inclemente com as minhas falhas). Ouso dizer, todavia, que duas qualidades me acompanham e são elas que me amparam: eu sou feito profissionalmente de gratidão e esforço. 

Esse relato é apenas um registro simples da história de um homem comum que teve a sorte de encontrar um gigante.

Eu contarei um dia as histórias de Joel Rufino dos Santos para o meu filho.