quinta-feira, 26 de novembro de 2015

A MORADA DO REI DOS ÍNDIOS (SOBRE A DIFERENÇA ENTRE EGUNS E ENCANTADOS; OU UM PEQUENO BORDADO SOBRE O BRASIL)

Os mais velhos do terreiro de xambá e encantaria de minha avó, onde cresci, me ensinaram a respeitar árvores floridas, rios largos, pedras miúdas, remansos e ventanias. Há que se considerar a possibilidade da borda do vento ser a morada de algum encantado. Rio é orixá, vento é inquice, maré é vodum, pedra de riacho é encantamento de bugre. Assim aprendi - e não me importa a crença, que é coisa de cada um - mas me vale o rito, que conforta e desvela o mundo na reinvenção da vida e me permite louvar a ancestralidade. 

Existem os encantados e os eguns. Eu convivi, conversei, tomei esporro, fui confortado e aprendi com gente das duas naturezas. Tento alumiar a diferença.  

Minha avó, por exemplo, trabalhava com o caboclo Peri, um índio que teve vida terrena, morreu e se transformou numa poderosa entidade, baixando na cabeça dos seus filhos e filhas para dar consultas, sempre esbanjando sabedoria. Dos cantos desse caboclo, meu predileto é o belíssimo ponto de partida, entoado na hora em que Seu Peri deixa a guma para voltar ao invisível:

Adeus Seu Peri, adeus
A sua banda lhe chama
Ele já vai oló
(Ele já vai oló)
Sua macaia, macaiana
Como fica só...

O Caboclo Peri não pode ser considerado um encantado, já que sofreu a morte física. O encantado é aquele que não conheceu a experiência da morte, transformando-se, em vida, num vento, numa rocha, numa praia, numa árvore, numa folha, nas areias do fundo do mar, dos desertos e das serras. Encantou-se ou ajuremou-se, como alguns antigos preferem dizer.

Minha mãe trabalhava com Japetequara (ou Jabetequara, segundo alguns), um exemplo de encantado.  Reza a tradição que Japetequara, conhecido também como rei dos índios, foi um turco que chegou ao Brasil no século XVII e encantou-se numa árvore de sucupira, castanha-escura, pesada e resistente, da floresta amazônica. Quando vem na guma dança curvado, como um velho honorável, e é recebido por alguns cantos fabulosos. O meu predileto é o seguinte:

Ainda flora a sucupira
Ainda flora o guerreiro
Ainda flora a sucupira
Ainda flora o guerreiro
Ainda flora a sucupira
Caboclo velho é flecheiro
Ê caboclo velho
Das barras do Ariri
Lagoa grande secou
Todos morreram
Eu não morri!

Enquanto o canto de seu Peri fala em ir oló, termo muito ligado ao conceito de morte física, o canto de Japetequara afirma que ele não morreu, passou a viver ajuremado - encantado - nos folíolos coriáceos e nas flores em panículas do tronco da sucupira velha; vez por outra ele aparece para desfilar sua fidalguia entre o povo da terra.

É por isso que não conheço coisa mais bonita que os mistérios do encanto. O mundo se consome em um desvario produtivista que enxerga o grande rio - um Orixá! um encantado! - como um potencial gerador de energia para grandes empreendimentos e restringe a isso o seu papel (até que ele morra desnecessário). Com um olhar insistente de menino que cresceu na guma, digo que a coisa estaria muito melhor se todos vissem a natureza com o respeito do povo do tambor.

Como podem derrubar a sucupira amazônica onde vive, ajuremado no encanto, o mestre turco, rei dos índios e caboclo do Brasil, o velho Japetequara? É ele, o índio velho encantador de mundos, que brada quando floresce e abranda de suavidades a dureza do tronco escuro; a mesma dureza dos nossos dias precisados de floradas.


quarta-feira, 25 de novembro de 2015

O RIO, A BIBLIOTECA E O TERREIRO QUE JÁ NÃO HÁ

Guardadas as devidas proporções e a amplitude das tragédias, há entre a morte do Rio Doce e o fechamento das bibliotecas-parque no Rio de Janeiro mais similitudes do que aparentemente podemos supor. 
Quando o crime contra o rio aconteceu, escrevi um texto (As duas mortes do Rio Doce) acusando o "homem da técnica" - a expressão é de Heidegger - pelo assassinato. A técnica enxerga o rio como mero objeto presentificado, que serve apenas para ser manipulado objetivamente, em virtude dos interesses materiais concretos dos homens. O rio visto pelo homem da técnica é desencantado. Ele deixa de ser o Danúbio de Hölderlin - um rio que peregrina e funda a ideia de natalidade, além de manifestar o sagrado (aquilo que Hölderlin chama de "festa em que os deuses vêm dançar como convidados"). 
O rio de lamas mata o rio de encantamento. Aqui o Danúbio de Hölderlim se encontra com a encantaria do tambor-de-mina maranhense. O povo do tambor diz que o encante é um fenômeno de transformação do profano em sagrado pelo pleno entrosamento com a natureza, aquele que se manifesta em interação absoluta. O encantado não é o espírito humano que morreu, perdendo seu corpo físico. Ele é aquele que se transformou, tomou outra feição, adquiriu nova maneira de ser. Essa maneira se manifesta em novas formas de vida: o encantado ajuremou-se numa planta, num animal, no vento, na folha, num rio. O encantado é o rio; o rio é o encantado. Entre o profano e o sagrado; a natureza e o homem, já não é possível estabelecer um corte. Os encantados, em algumas ocasiões, tomam os corpos das mulheres e dos homens para passear e conversar com os vivos.
Eu tenho a tendência de encarar bibliotecas (e várias outras coisas) como terreiros de encante. Cervantes encantou-se no Quixote; como João da Mata, o Rei da Bandeira, encantou-se na Pedra de Itacolomi. Machado encantou-se nas páginas do Dom Casmurro. Légua Boji Boa, com a caboclada de sua guma, encantou-se nas matas de Codó.  Carolina Maria de Jesus está no Quarto de Despejo. A Mãe d´Água vive na ponta da Caçacueira.
As bibliotecas-parque, além de tudo, também rompiam com a dicotomia entre o sagrado (o livro) e o profano (a leitora e o leitor). Meu filho pegava um livro para folhear com a naturalidade com que eu abraçava Mariana, a Bela Turca, em um terreiro.  A interação se estabelece pelo tato, pelo toque, pelo corpo que dança e pelo corpo que lê e brinca.
O rio e as bibliotecas são vítimas do desencantamento do mundo. Da mineradora que desencanta os metais de Ogum em armas de morte e do Estado que desencanta as bibliotecas em reengenharias financeiras ditadas pela mesma lógica empresarial, a do capital acumulativo deificado, que matou o rio e desanima (tira a alma) a cidade, o estado e o país.
Minhas percepções de mundo foram forjadas, desde a infância, em terreiros. Encantados, orixás, ajuremadas, desencarnados, caboclas e caboclos, conviveram comigo desde sempre. Enquanto meu filho nascia, eu cantava baixinho pontos do Caboclo Peri e do Seu Tranca-Rua, para que eles assistissem ao nascimento do garoto e cuidassem dele. E eu sei que cuidam. A universidade, em largo sentido, murchou para mim quando não consegui percebê-la como potência de encantamento dos saberes transmitidos e compartilhados, guiada, ela também, pelos homens da técnica. A palavra desencantada me enfada, o verbo desencantado me exaspera e o mundo desencantado me apavora em sua materialidade tacanha, desalentadora e desumana.
Tudo era (e pode ser) terreiro. Nada mais é terreiro. Sem a possibilidade do encante, seremos pra todo sempre aqueles que Fernando Pessoa (ao escrever um poema para Dom Sebastião, um encantado da Praia do Lençol) chamou de cadáveres adiados que procriam: os homens da técnica, vítimas ou algozes, tragados por ela em mar de merda ou dinheiro, e apenas isso. 



quinta-feira, 12 de novembro de 2015

AS DUAS MORTES DO RIO DOCE

Pai Francelino de Shapanan, Abê Olokun, lembrava lindamente que para o povo do tambor-de-mina o encantado não é o espírito de um humano que morreu; perdeu seu corpo físico.  O encantado é aquele que se transformou, tomou outra feição, nova maneira de ser. Encantou-se em uma nova forma de vida, numa planta, num peixe, num animal, no vento, na folha, num rio.

Exemplifico citando o Maranhão: nas praias do Itaqui, de Olho d´Água e da Ponta d´Areia moram a Princesa Ína, a Rã Preta, e a Menina da Ponta d´Areia. A pedra de Itacolomi é a morada de João da Mata, o Rei da Bandeira. A Praia dos Lençóis é do Rei Sebastião; a Mãe d´Água passeia nas pontas de Mangunça e de Caçacueira. Nas matas de Codó vivem Dom Pedro Angasso e a Rainha Rosa. É lá que Légua Boji Boa comanda as caboclas e os caboclos de sua guma.

Heidegger adorava os Rios, de Hölderlin, sobretudo quando o poeta dizia que o rio peregrina e funda a ideia de natalidade. Pertencimento, em suma. Desta sensação de que pertencemos ao rio e ao lugar por onde o rio passa, e sempre fica, vem a sacralidade dos cursos das águas. Para aquele que Heidegger chama de homem da técnica, todavia, o rio é o objeto presentificado. Serve apenas para ser manipulado objetivamente, em virtude dos interesses materiais concretos dos homens.

O outro rio, o que vela e desvela, o que peregrina e manifesta o sagrado (aquilo que Hölderlin chama de “festa” em que os deuses vêm como convidados) , é detestado pelo homem da técnica; um desencantador por excelência.

Na encruzilhada em que escuto o tambor-de-mina e leio os alemães, concluo que o Rio Doce morreu duplamente. Ele certamente já agonizava em sua condição de rio que funda a natalidade e possibilita, no sagrado, a festa dos deuses.  Agora morreu também como o rio visto objetivamente pela técnica – implacavelmente assassinado pelos próprios homens da técnica.

Desencantado (para alguns) e imprestável (para outros), o Rio Doce já não é. Não tem nem as duas margens da técnica e nem a terceira margem, aquela do encantamento. Ali não moram mais os ajuremados do tambor brasileiro e nem os deuses da festa do poeta alemão. Pelo andar da carruagem, em breve não morarão nem mais as mulheres e os homens. O Rio Doce morreu duas vezes nos últimos dias.