quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

PARA A TURMA DO SAMBA, DO CARNAVAL E DA CULTURA

Ainda que desperte controvérsias teóricas, o conceito de globalização, grosso modo, define um vertiginoso aprofundamento dos processos de integração política, social, cultural e econômica; notadamente a partir do final do século XX. O termo começa a ser utilizado com mais frequência a partir da década de 1990. No ano 2000, o Fundo Monetário Internacional (FMI) reconheceu o fenômeno da globalização e o definiu em torno de quatro elementos: incremento do comércio e das transações financeiras; movimentos de capital; migração de pessoas e difusão do conhecimento.

Como sou implicante, acho mesmo é que a globalização gera a uniformização dos padrões culturais e, como tal, inibe a produção de novos conhecimentos e técnicas, tanto no plano coletivo como no individual. Vou na onda do professor Milton Santos, surfando de leve. A globalização engendra relações de poder e dominação que se estabelecem mais por vias culturais e econômicas do que pelo uso da coerção violenta (ainda que esta se manifeste quando as primeiras são contestadas).

Meus sambistas, me permitam levantar uma pequena lebre: há que se refletir sobre os efeitos da globalização na representação da identidade cultural brasileira, já que o samba e o carnaval muito coloboram para esse corpo mitológico da brasilidade. Penso, sobretudo, na publicidade e nas maneiras como a propaganda transporta o mito da democracia racial brasileira para o mito da democracia econômica na sociedade de consumo.

Neste sentido, diversas marcas usam e abusam do samba, do carnaval e de uma suposta alegria brasileira – pasteurizada pela estética uniforme da propaganda - como referências que buscam transformar esta mesma tradição em um elemento estimulador da inclusão pelo consumo de bens ou pelo desejo de consumí-los. A festa globalizada, em seu discurso fabular de harmonia e país possível pelo consenso, é aquela que não quer a fresta, propiciadora do inesperado e potencialmente ameaçadora da ordem normativa.

Podemos concluir, portanto, que no tal mundo globalizado – sobretudo em seu viés cultural/econômico – o samba é, cada vez mais, instado pela indústria do entretenimento a se diluir em padrões uniformes, inclusive de performance, perdendo muitas vezes a vitalidade transformadora e as especificidades dos ricos complexos culturais que se desenvolveram em torno dele. O carnaval viaja no mesmo barco e eu mesmo estou dentro dessa embarcação; o que me obriga a um constante exercício de reflexão e crítica.

Diluídos, em clara estratégia mercadológica, em referências pouco afeitas a suas características fundamentais e dinamizadoras de novas perspectivas, o samba e o carnaval se inserem na globalização como elementos difusores do consumo padronizado e da uniformização dos hábitos. Eles ditam a roupa que devemos usar, o hit que devemos cantar, a alegria que devemos representar, o corpo que devemos ter e até a cerveja que devemos beber.

Estamos sendo tragados pela cultura do evento, aquela que despotencializa os eventos da cultura.