segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

A PERDA DO PROTAGONISMO

Abro os jornais e concluo que está quase tudo errado no mundo mágico do carnaval. A turma quer mais é saber de rainha de bateria, musas, periguetes, picaretas, socialites e celebridades de terceira categoria. Para completar, a boa nova é que o camarote de Zezé di Camargo e Luciano, na Sapucaí, fechou parceria com a boate "Pink Elephant", especializada em música eletrônica, para animar os convidados nas noites de desfiles. Além disso, as revistas Caras e Quem terão camarotes e já começam a se articular na disputa pelas "celebridades" que estarão em seus espaços. Teremos também shows de funkeiros e pagodeiros em um camarote de supermercado. Isso tudo, é claro, acontecerá durante o desfile das agremiações. A rave em um dos camarotes, coisa que vem acontecendo ao longo dos últimos anos, também está confirmada. Sim, é isso: enquanto as escolas desfilam, rolam raves e shows de música eletrônica dentro da Marquês de Sapucaí. 

O sujeito que ama carnaval não tem dinheiro para ir ao sambódromo em um setor decente, mas um fã da música tecno, que se lixa para escolas de samba e é incapaz de citar os nomes de cinco agremiações, não perderá a chance de curtir a onda no camarote. A velha baiana, que não consegue mais desfilar, não assistirá a sua escola na avenida, mas o galã bombadão estará lá, em um espaço privilegiado, preparado para as azarações e ferveções da pista de dança. O fotógrafo da revista não está minimamente interessado em fotografar Seu Djalma Sabiá, mas não pode perder o beijo entre uma atriz do elenco de apoio de Malhação e um jogador de futebol em um camarote de cervejaria. A Globo prefere transmitir a novela e o BBB durante os primeiros desfiles, mas as próprias escolas de samba embarcam na onda de cultuar essas celebridades midiáticas que as televisões inventam. 

Não bastasse essa maluquice - os desfiles de escola de samba viraram um evento em que os próprios desfiles perderam o protagonismo - , o ambiente do carnaval está infestado de gente incapaz de lidar civilizadamente com o contraditório. Os desfiles interessam cada vez menos ao grande público; não enxerga quem não quer. Parte do público do sambódromo não está ali para ver escola de samba, mas para aparecer, fortalecer marca, divulgar imagem, fazer articulações políticas, conseguir mídia paga ou espontânea, etc. Enquanto a turma do carnaval continuar batendo palmas para essa palhaçada em que o evento se transformou - e quem vem se desenhando faz tempo - estaremos longe de reinventar as escolas de samba a partir daquilo que elas foram um dia: potentes instituições que, cotidianamente, fortaleciam laços comunitários, e centros de circulação de saberes produzidos dinamicamente pelas populações oriundas da diáspora negra no Brasil, a partir do diálogo constante e fecundo com as circunstâncias e dentro de uma perspectiva de protagonismo. Nós estamos pateticamente aplaudindo e sambando no nosso próprio velório.

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