segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

CARNAVAL DE RUA: ENTRE A FESTA E O CACETE

Em uma cidade como o Rio de Janeiro, com forte presença de descendentes de pessoas escravizadas, as relações entre o carnaval de rua e o poder público foram marcadas, desde o início da República, por tentativas de disciplinar a festa fundamentadas nos prIncípios da higiene social. As camadas populares foram vistas como classes perigosas e suas manifestações culturais, tratadas como coisas de bárbaros. Evitar que a 'barbárie' tomasse as ruas no tríduo era, portanto, fundamental na ótica do poder. Essa postura, não raro, descambava em repressão violenta. Era o cacete comendo e os poderosos colocando água no chope da rapaziada. A cidade, todavia, cantava, cuspia na cara do feitor, dava o nó na caninana e inventava a pequena morte de três dias.

Acontece que o carnaval de rua carioca é Exusíaco (quem tem Exu não precisa de Dionísio), enquanto o das escolas de samba é Oxalufânico, e tem duas características que, com maior ou menor intensidade, prevalecem em qualquer canto do mundo onde um pierrô morra de amores: a espontaneidade do folião e a subversão, pela alegria, de alguns valores sociais e morais vigentes.

Qualquer tentativa de se estabelecer critérios mais rígidos de controle dos foliões deve, portanto, ser vista com cuidado. É compreensível que o poder público busque garantir o mínimo de segurança (para o folião) e ordem urbana (para quem não é folião) ao carnaval de rua. Não é possível, pelo menos para mim (não quero viver dentro do Templo de Salomão), que isso se transforme em um comprometimento do sentido da folia; ao ponto de quererem me dizer qual é a cerveja que tenho que tomar na festa

Qualquer política pública que queira interagir com a festa de rua deve ser pensada por quem conheça o carnaval, tenha noção da dimensão cultural do furdunço entre nossa gente e reconheça o tênue e perigoso limite entre urbanidade e repressão; como se a primeira só pudesse ser garantida pela segunda. É função do poder público, e aí ele é importante, ser o fiscal da cláusula pétrea do reino de Momo: ao folião é garantido o direito de se esbaldar em paz, de forma espontânea e original, no meio da multidão ou no bloco do eu sozinho.

E viva os foliões que não programam rigorosamente o carnaval, não gastam seus caraminguás em abadás duvidosos, não vendem suas alegrias para grandes marcas e não se isolam dentro de cordas. Eles sabem apenas que vão para a rua imolar-se nos blocos e cordões, receber a extrema-unção com água benta de teor alcoólico e morrer até a Quarta-Feira de Cinzas, quando ressuscitarão como burocratas, maridos, mulheres, professoras ou operários, para o longo e medíocre intervalo entre um carnaval e outro.

Nós temos o direito a essa pequena morte pela festa. É ela que torna mais suportável a vida na cidade com a maior (para o bem e para o mal) herança viva de um longo passado escravista do planeta.

Anotem aí: está em curso, nos últimos anos, um projeto nítido de higienização social do carnaval de rua carioca. A origem desse projeto é antiga. Não há nada de novo no front.

Evoé / Laroiê!

Nenhum comentário: