terça-feira, 19 de janeiro de 2016

NÃO DEU LUCRO? TOQUE A JARDINEIRA


Para variar, estava demorando, já pintam na área algumas maletas defendendo que carnaval em tempos de crise é um absurdo e só no "Brasil dos vagabundos é que as pessoas tiram uns dias do ano para não trabalhar e só se divertir". Aí penso nos vendedores ambulantes, operadores de carro de som, nos milhares de funcionários dos barracões de escolas de samba, músicos, cantoras e cantores, garis, motoristas de ônibus e condutores de trens e metrôs, nas garçonetes e garçons que aturam os bebuns da folia, nos entregadores de jornal, nos jornalistas que ralam nas redações e nas ruas, nas funcionárias e funcionários de hotéis, nas costureiras que fazem as fantasias, e em muita gente que rala (muito) em outras dezenas de atividades que envolvem os dias de folia. Rala para comer e rala para se divertir e festejar. Antes de falar bobagem, olhe para o lado quando estiver na rua: aposto que alguém perto de você vai estar trabalhando com dignidade no Carnaval. A festa em tempos de crise é mais necessária que nunca. A gente não brinca e festeja porque a vida é mole; a turma faz isso porque a vida é dura. Sem o repouso nas alegrias ninguém segura o rojão. 

Já que pegou no tranco, aproveito também para dizer que não dou a mínima para quem acha que não devemos ter carnaval e, ao mesmo tempo, ignoro as matérias que interessam ao poder público justificando o carnaval sob o argumento de que ele é lucrativo e vai gerar bilhões para a cidade. Desde quando carnaval existe para dar lucro? Desde quando isso é critério para que aconteça carnaval? Carnaval de rua é (ou foi, sei lá, não sei) descanso na loucura, vida na fresta, cultura, estratégia de sobrevivência, subversão pelo riso, alegria nos infernos... Essas coisas não são mensuradas em grana. A turma pensa em lucro o ano inteiro. Que isso, ao menos, não seja prioridade durante o curto intervalo de sanidade que o carnaval representa. Deu lucro? Ótimo. Não deu? Maestro, toque "A Jardineira" e simbora pular. A vida não é só isso que se vê, ensinam o meu mais querido Hermínio e o Paulinho da Viola. 

Eu estou mais preocupado, isso sim, em constatar que, com louváveis e ótimas exceções, nós estamos assistindo a transformação do carnaval de rua do Rio de Janeiro, sobretudo no território demarcado no imaginário da cidade como potencialmente turístico, numa festa pop para descolados maneiros, hipsters sensíveis, em que o jovem universitário alternativo de cabeça aberta que fez oficina de percussão na Lapa e participa de um bloco temático está assumindo o protagonismo das ruas; enquanto o preto pobre, descendente da turma que lutou contra o tronco e bateu tambor para inventar o que existe de mais original nessa porra dessa cidade que a gente ama, está enfrentando a guarda municipal e tomando porrada para conseguir vender a sua cerveja, porque precisa trabalhar no carnaval, em uma festa que foi vendida pelo poder público e pelos blocões bacaninhas para o consórcio informal Antártica /TV Globo.

Evoé e Laroiê.

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