sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

OS RICAÇOS PAULISTAS E O PANO BRANCO SOBRE A PELE PRETA

Acabo de saber que clubes de ricaços de São Paulo (Harmonia, Pinheiros, Paulistano, Sírio, Paineiras e São Paulo Athletic) conseguiram, por unanimidade, que o Ministério Público/SP trancasse uma ação judicial e vão poder continuar a EXIGIR que as babás usem uniforme em suas dependências. Sobre essa aberração que tenta naturalizar a inferioridade no campo do simbólico, escrevi um texto em 2012, publicado no Pedrinhas Miudinhas, que circulo aqui.
PANO BRANCO SOBRE A PELE PRETA

No dia 6 de janeiro de 1954, o jornal O Globo publicou o seguinte editorial:

"A princípio foi moda, e talvez ainda o seja, considerar a macumba como uma manifestação pitoresca da cultura popular, à qual se levam turistas e visitantes ilustres, e que era objeto de reportagens e notícias nas revistas e nos jornais, bem como de romantizações literárias. Isso deu ao culto bárbaro de orixás e babalaôs um prestígio que de outro modo não poderia ter e o fez propagar-se das camadas menos cultas da população para a classe média e empolgar até pessoas das próprias elites. É essa infecção que queremos apontar com alarme. É essa traição que queremos denunciar com veemência. É preciso que se diga e que se proclame que a macumba, de origem africana, por mais que apresente interesse pitoresco para os artistas, por mais que seja um assunto digno para o sociólogo, constitui manifestação de uma forma primitiva e atrasada da civilização e a sua exteriorização e desenvolvimento são fatos desalentadores e humilhantes para nossos foros de povo culto e civilizado. Tudo isso indica a necessidade de uma campanha educativa para a redução desses focos de ignorância e de desequilíbrio mental, com que se vêm conspurcando a pureza e a sublimidade do sentimento religioso."

O editorial do jornal, identificado com a visão das classes dominantes, não poderia ser mais claro: o Brasil precisa se livrar do primitivismo bárbaro da herança africana, extirpar as religiões que misturam ignorância e desequilíbrio mental e fazer valer os princípios da civilização ocidental. Às elites, cabe o papel regenerador que nos afirmará como um povo culto e civilizado.
[Este arrazoado todo de O Globo, diga-se, não foi propagado no século XIX. Foi escrito na segunda metade do século XX, quase setenta anos depois da Lei Áurea, nove anos depois do encerramento da guerra contra o Nazi-Fascismo e cinco anos depois da Declaração Universal dos Direitos Humanos.]
O editorial não surpreende. Alguns governos brasileiros, com apoio de parte dos segmentos mais favorecidos e de alguns intelectuais que abraçaram a eugenia, tentaram apagar, nos primeiros anos do pós-abolição, a presença do negro na nossa história. Este projeto se manifestou do ponto de vista físico e cultural. Fisicamente, o negro sucumbiria ao branqueamento racial promovido pela imigração subvencionada de europeus, capaz de limpar a raça em algumas gerações. Tal projeto também se manifestou na tentativa sistemática de eliminar as formas de aproximação com o mundo e elaboração de práticas cotidianas (jeitos de cantar, rezar, comer, louvar os ancestrais, festejar, lidar com a natureza, etc.) produzidas pelos descendentes de africanos, desqualificando como barbárie e criminalizando como delitos contra a ordem os seus sistemas de organização comunitária e invenção da vida.
Se hoje não temos mais a pregação explícita de uma política de branqueamento, ainda estamos distantes de superar o que Joaquim Nabuco chamou de "obra da escravidão". Há um senhor de engenho morando em cada brasileiro, adormecido. Vez por outra ele acorda, diz que está presente, se manifesta e adormece de novo, em sono leve.
Há um senhor de engenho nos espreitando nos elevadores sociais e de serviço; nos apartamentos com dependências de empregadas; no bacharelismo imperial dos doutores que ostentam garbosamente o título; na elevação do tom de voz e na postura senhorial do "sabe com quem você está falando?" ; na cruzada evangélica contra a Umbanda e o Candomblé; na folclorização pitoresca - quase tão nociva quanto a demonização - destas religiosidades; nos currículos escolares fundamentados em parâmetros apenas europeus, onde índios e negros entram como apêndices do projeto civilizacional predatório e catequista do Velho Mundo; nos gritos do diretor de televisão que chama um auxiliar de preto fedorento; no chiste do sujeito que acha que não é racista e chama o outro de macaco; no pedantismo de certa intelectualidade versada na bagagem cultural produzida pelo ocidente e refratária aos saberes oriundos das praias africanas e florestas brasileiras.
E já que é para exemplificar as práticas senhoriais, lembremos que recentemente dois clubes de granfinos do Rio de Janeiro, o Paysandu e o Caiçaras, proibiram a entrada em suas dependências de babás negras. A razão explicitada para o absurdo foi cristalina: elas não vestiam uniformes brancos que as identificassem. Em São Paulo, com seus contrastes mirabolantes e favelas incendiadas à socapa, é obrigatório o branco para as babás que cuidam dos filhos das sinhás nos parquinhos dos clubes Pinheiros, Paulistano e Paineiras. Os seguranças do shopping São Conrado Fashion Mall, o preferido da classe AAA carioca, têm ordens para abordar as babás que não vestem o uniforme distintivo da condição.
A roupa exigida às babás, uma das faces mais reveladoras de um Brasil que insiste em mirar o mundo do alpendre da casa grande do engenho, guarda, por outro lado, um contraponto cheio de significados. É inteiramente branco, afinal, o traje consagrado ao maior dos orixás, Obatalá, dono do poder da criação, portador do opaxorô, o cajado misterioso dos mundos.
As sinhazinhas e sinhozinhos em flor, os novos senhores de engenho, os seus capitães do mato e feitores, nem desconfiam que no contraste entre o pano branco e a pele negra se manifesta, insuperável e silenciosa, a força ancestral da majestade do Pai Maior; aquela que cruzou a calunga grande para amenizar a dor e nos civilizar um dia.

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