terça-feira, 5 de janeiro de 2016

PALHAÇOS CONSUMIDORES

Observação curtinha: Encaro a rua no Carnaval como um espaço para o esquecimento necessário. A tarefa agora é das mais díficeis. É na rua que os amantes das festas e das libações do carnaval andam tendo que driblar, feito um Garrincha à sorrelfa, as multidões coreografadas, os materiais de propaganda de empresas que acham que o Carnaval é apenas um momento da cultura do evento, as celebridades duvidosas que usam a festa como forma de promoção e os compradores de abadás que serão usados em futuras sessões de musculação. Vez por outra, há que se encarar, ainda, algum agente da ordem disposto a exigir autorização por escrito para que um sujeito sozinho possa cantar uma marchinha e bater bumbo na esquina. Mas o folião, como a madeira que cupim não rói do pernambucano Capiba, dá nó em pingo d´água e sobrevive para soltar a voz. Agora estamos submetidos a uma tentativa de controle social até da marca de cerveja que poderemos beber.

Não é de hoje que essas grandes marcas percebem o samba, o carnaval e uma suposta alegria brasileira – pasteurizada pela estética uniforme da propaganda - como potenciais referências que buscam manipular elementos tradicionais da festa em fatores estimuladores da inclusão pelo consumo de bens ou pelo desejo de consumí-los. A festa globalizada, em seu discurso fabular de harmonia e país possível pelo consenso, é aquela que não quer a fresta, propiciadora do inesperado e potencialmente ameaçadora da ordem normativa. Quando essas marcas encontram abrigo e parceria no poder público e em segmentos do próprio Carnaval, a coisa se aprofunda e os palhaços consumidores somos nós. Turma do carnaval, vou citar o meu avô: É hora de cuspir cachaça na encruzilhada!

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