sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

A SAPUCAÍ É TERREIRO

O carnaval de 2016, ao menos em relação aos desfiles na Marquês de Sapucaí, apresentou alguns enredos que, de diversas maneiras, abordaram o rico universo das religiões brasileiras de bases afroameríndias: Salgueiro, Mangueira, Viradouro, Alegria da Zona Sul e Renascer de Jacarepaguá seguiram nesta linha.
A grande mídia que cobriu os desfiles cometeu alguns equívocos de informação, de certa forma compreensíveis, em se tratando do desconhecimento sobre os assuntos e do pouco caso que continua sendo dado ao carnaval como um evento da cultura. O desfile do Salgueiro, por exemplo, chegou a ser retratado como o de uma escola que trouxe para a avenida o candomblé e o culto ao orixá primordial Exu. Faltou, neste caso, um maior conhecimento sobre o que a escola tijucana de fato apresentou.
O Salgueiro abordou o povo de rua, a malandragem da macumba carioca, das quimbandas, catimbós e encantarias de jurema, ilustrando uma parte do enredo sobre a história da malandragem, que era mais amplo e partia de uma obra de Chico Buarque de Holanda. Na escola inteira só apareceu um destaque representando um Exu paramentado como orixá, no final do desfile, ainda assim sem o ogó (o bastão do axé), um elemento fundamental de sua indumentária. 
Na comissão de frente da escola vinha Seu Tranca-Rua, Exu das umbandas e quimbandas, com a desconcertante multiplicidade cruzada de quem cozinha a gambá na hora que quer, conforme ensina um de seus pontos mais famosos. Quem passou pela avenida com o Salgueiro foi a turma da guma, da curimba, da raspa do tacho, da beleza inusitada e amedrontadora da rua, dos feitiços da jurema, dos catimbós, das tabernas ibéricas das ciganas e dos cabarés  cariocas das pombagiras. A ligação entre as agremiações e este universo, todavia, não nasceu em 2016. Ela está na base de tudo. 
Há entre as escolas de samba, em suas origens remotas, as casas de candomblé e as macumbas cariocas de origem banto (especialmente no culto omolokô) uma série de semelhanças que podem ser destacadas. Estamos falando de instituições, a escola de samba e os terreiros, que funcionaram como instâncias de integração comunitária, fundamentadas na noção de pertencimento ao grupo e fincadas em uma série de rituais; todos eles alicerçados nos princípios da tradição e da hierarquia.
A ancestralidade africana do samba e dos candomblés, e todas as implicações dos quatro séculos de escravidão no Brasil, fizeram das agremiações e das casas de culto verdadeiros templos de afirmação e invenção de identidades. Colocaram no centro da cena, como protagonistas, populações economicamente subalternas que, pela cultura, assumiram o protagonismo de suas próprias vidas. Do encontro dessa tradição com os rituais ameríndios e o catolicismo popular ibérico (profundamente místico) surgiram as nossas macumbas carioquíssimas. 
Além desses fatores simbólicos mais gerais, a ligação íntima entre a religiosidade e o samba aparece com frequência quando estudamos o nascimento das escolas. Pais e mães de santo participaram, constantemente, dos núcleos originais das agremiações e, não raro, funcionaram como verdadeiros esteios deste processo.
Personagens como, por exemplo, Zé Espinguela (o organizador da primeira disputa, ainda sem o desfile em cortejo, entre as agremiações), Tata Tancredo Silva (Deixa Falar/ Estácio), Dona Ester (Oswaldo Cruz / Portela) e Mano Elói (Império Serrano), são frequentemente citados como articuladores da comunidade do samba e líderes religiosos. As tias baianas da Cidade Nova, desde a seminal Tia Ciata, iniciadas no candomblé e nas macumbas, não raro promoviam em suas casas festas de santo seguidas de rodas de samba, legitimando-se como verdadeiras mães do samba.
Em tempos mais recentes, a tradição ancestral das escolas de samba passou por um acelerado processo de diluição, em virtude de uma série de fatores que escapam aos objetivos deste texto. As baterias, por exemplo, têm apenas vagos resquícios dos toques peculiares, de fundamento, que as caracterizavam como verdadeiras orquestras litúrgicas.
A presença da temática religiosa afro-brasileira nos desfiles é outro ponto importante desta ligação. É de conhecimento amplo que, a partir de 1960, os enredos começaram a tratar amiúde de temas marginais à história oficial, cristalizando a revolução iniciada pelo seminal Quilombo dos Palmares, apresentado pelo Salgueiro de Fernando Pamplona.
Ao mergulhar, ao lado de Alberto Mussa, em uma pesquisa sobre 1.324 sambas de enredo que resultou no livro “Samba de Enredo – história e arte” (Ed. Civilização Brasileira), constatamos que a primeira citação explícita a um orixá ocorre no carnaval de 1966.
Naquele ano duas escolas, o Império Serrano e a São Clemente, fizeram enredos sobre a Bahia e citaram Iemanjá em seus sambas. Onze anos depois, o Arranco do Engenho de Dentro apresentou o primeiro enredo monográfico sobre divindades iorubás, voltado exclusivamente para a mitologia de um único orixá: "Logun, o príncipe de Efan". Dois anos depois, a Imperatriz Leopoldinense também apresentou um enredo monográfico sobre um orixá: "Oxumarê, a lenda do arco-íris".
Um ano antes do desfile do Arranco, em 1976, o Império Serrano e a Unidos de Lucas apresentaram enredos muito semelhantes: “A Lenda das sereias, rainhas do mar” e “Mar baiano em noite de gala”, respectivamente. Sem tratar especificamente da mitologia dos orixás, os enredos destacavam, entretanto, a força de Iemanjá como divindade das águas salgadas (papel que a orixá ocupou no Brasil, diante da pouca força do culto de Olokum – divindade dos oceanos na África – na diáspora). No mesmo ano, a Mocidade Independente de Padre Miguel louvou Mãe Menininha do Gantois, com a bateria desfilando de cabeça raspada, e a Unidos da Tijuca apresentou no acesso o seu "No mundo encantado dos deuses afro-brasileiros", introduzindo as pombagiras no mundo das escolas de samba.

No ano de 1978, a Beija-Flor e o Salgueiro apresentaram enredos muito semelhantes sobre a criação do mundo na tradição dos iorubás. "Do Iorubá à luz, a aurora dos deuses" (Salgueiro) e "A criação do mundo na tradição nagô" (Beija-Flor) repercutiam o impacto que teve na cultura brasileira a publicação do livro "Os Nagô e a Morte", da antropóloga Juana E. dos Santos, ligada ao terreiro baiano do Axé Opô Afonjá.  

Desde então, dezenas de enredos trataram de temáticas vinculadas aos cultos religiosos afro-brasileiros e aos orixás (no Dicionário da História Social do Samba, que escrevi com Nei Lopes, há uma vasta lista de exemplos no verbete África). Esta certa normatividade afro-brasileira dos enredos foi quebrada de forma contundente em 1994, com o seminal "Os santos que a África não viu",  enredo de Lucas Pinto para a Acadêmicos do Grande Rio. A Grande Rio radicalizava o que a Unidos da Ponte insinuou em 1984, quando o enredo "Oferendas", ao falar das comidas de santo, cruzava informações entre o candomblé e a umbanda. Mas foi a Grande Rio que chutou o pau desta barraca. 

Naquele ano de 1994, escola de Duque de Caxias veio falando de diversos elementos das religiosidades brasileiras de bases afroameríndias, como a umbanda, a quimbanda, o catimbó, a encantaria, o terecô, o tambor de mina e o omolokô. Coisa parecida, mas com perspectiva mais restrita, tinha sido apresentada pela Império da Tijuca, em 1971, com o enredo "O Misticismo da África para o Brasil", que apresentava pontos de umbanda em seus refrões. 

Vale destacar que a tradição do culto aos voduns, oriunda do povo fon e muito forte no Maranhão, também foi abordada pelas escolas de samba. Em 1982, a Unidos do Cabuçu desfilou com o enredo "De Daomé a São Luís, a pureza Mina-Jeje" (a mesma escola, no ano seguinte, apresentou, com o enredo "A visita do Oni de Ifé ao Obá de Oyó", um samba considerado por vários apaixonados pelo assunto como o mais bonito do carnaval carioca sobre a tradição dos orixás). A Beija-Flor, em 2001, apresentou a saga de Agotime,  a fundadora da "Casa das Minas" de São Luís, colocando também o culto aos voduns como elemento central de seu enredo. 
Em um território repleto de mitos, história exemplares e tradições constantemente reinterpretadas, inventadas ou diluídas – como é o universo das escolas de samba – as ligações entre a religiosidade brasileiras afroameríndias e as agremiações cariocas abrem caminho para uma série de reflexões fascinantes. Tal fato é mais relevante ainda porque vivemos um momento em que muitas escolas perdem componentes convertidos às igrejas evangélicas e a diluição de certos fundamentos das escolas de samba redimensiona o papel das mesmas no carnaval.
Falar e cantar, enfim, sobre o elo ritual que liga os terreiros de macumba aos terreiros do samba não deixa de ser também um tributo aos pioneiros – sambistas, pais e mães de santo, ogãs e iaôs – que construíram, ao som dos tambores oriundos dos tumbeiros, a mais impactante aventura civilizatória da história brasileira.
Que a figura imponente de Seu Tranca-Rua abrindo o desfile do Salgueiro, que a dança de Oyá na comissão de frente da Mangueira, que a Alegria da Zona Sul esquentando com um ponto de umbanda para Ogum Yara (enquanto a comissão de frente batia cabeça), que a alegria dos erês da festa de Dois-Dois da Renascer, e que a saga de Ogundana na Viradouro, sejam sempre lembradas e difundidas por um Brasil que tem dificuldades de se reconhecer nas sofisticadas maneiras que o seu povo encontrou para lidar com o insondável e tornar a vida mais suportável. Pluralidade, tolerância, liberdade, civilização, beleza, fé, paixão e cultura: foi de tudo isso que as escolas de samba trataram quando os repiques arrepiaram a avenida ao evocar os mistérios da nossa noite grande.

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